Mattilha: A dura missão de percorrer caminhos já trilhados
Resenha - Ninguém é Santo - Mattilha
Por Ricardo Dezerto
Postado em 23 de maio de 2018
O que acontece quando uma banda se aventura por um gênero já tão explorado quanto o Hard Rock? Ou ela se abre para misturas e incorpora influências de diferentes gêneros ou opta pelo purismo e faz o chamado "basicão bem feito".

No primeiro caso, a banda busca um ar de novidade e pode transitar por lugares distintos e ir ampliando sua gama de possibilidades. No segundo, mais perigoso, entra em franca competição com bandas clássicas e já totalmente estabelecidas.
E como entrar em um clube onde estão AC/DC, Guns n’Roses, Bad Company, Free, Dr. Sin, Golpe de Estado e outros monstros e se fazer notar? A resposta é: com composições acima da média e é justamente neste ponto crucial que a Mattilha deixa a desejar em seu primeiro álbum "Ninguém é Santo".
Lançado em 2014, o álbum traz uma banda cheia de potencial e vontade, com muitas boas ideias bem executadas, porém prejudicadas, talvez, pela falta de experiência dos músicos e principalmente dos compositores.
As letras, (em português, louve-se), se perdem em clichês misóginos e de boemia heroica, por vezes atravessando a métrica e chegando a soar pueris a ouvidos mais, digamos, calejados. A pretensa malandragem das letras, não resiste a análises mais atentas. Onde sobram bravatas, transparecem a falta de malícia e vivência, fator talvez realçado pelo vocal exageradamente sleaze de Gabriel Martins.
Por outro lado, é possível ouvir em meio a produção crua riffs encorpados, passagens bem sacadas, baixo esperto, (bem alto na mixagem), e bateria bem encaixada. Tudo tocado com garra e vigor como é de se esperar em uma boa banda de Hard Rock.
É de se imaginar que a presença de um produtor experiente e com possibilidade de interferir no processo de criação e gravação da banda traria resultados bem mais interessantes. Aparadas as arestas típicas de músicos iniciantes, as boas ideias sobressairiam elevando a qualidade do registro.
Mas é disso que se faz o rock, das tentativas e erros, tropeços e insistência. Nos tempos áureos do Hard Rock, quando lançar um álbum era uma tarefa quase impossível para uma banda iniciante, talvez um registro como este se tornasse apenas aquela primeira demo que os fãs gostariam de ter, mas que a banda talvez deixasse para trás.
Os lançamentos posteriores da banda, em especial o EP "A Carne é Fraca" já demonstram grande evolução, o que cria ótimas expectativas para o próximo álbum, já em processo de gravação.
No fim das contas, "Ninguém é Santo" é o registro de uma banda em seus primeiros passos, mostrando que tem vontade e disposição para aprender com os erros e evoluir sempre. Isso é rock and roll.
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