Deep Purple: Ao infinito... e além!

Resenha - InFinite - Deep Purple

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Por Ricardo Pagliaro Thomaz
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Nota: 9

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

O grande e finito trabalho. A grande e finita obra. A finitude do ser. Do universo. Do cosmos. A finitude da vida. Finita. Finis. Tudo acaba. Fecham-se as cortinas. Desmonta-se o palco. Recolhe-se os equipamentos. Nos dirigimos para casa. Desaparecemos da vista. Desliga-se os holofotes. Palco vazio. Fico vazio. Esvazia-se o ambiente. A música cessa. O show termina. Acabou. Só a memória é infinita. Deep Purple é infinito. Na história e na vida. Nos lembremos. E aproveitemos o clímax, os momentos finais. Ao infinito... e além!

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Jon Lord, quando ainda estava entre nós, disse, quando saiu do Deep Purple, que os rapazes continuariam até que as baterias acabassem. Chegou o momento da despedida. Estas provavelmente são as últimas notas que ouviremos desta grande banda clássica, uma vez que já anunciaram sua The Long Goodbye Tour e que o baterista Ian Paice enfrentou um derrame em 2016 que afetou sua mão direita. Pelo menos segundo eles mesmos, este será o último trabalho. O desfecho de uma carreira excepcional. inFinite, lançado agora em 7 de Abril de 2017, nos traz uma banda madura, mas sem grandes surpresas. O som é aquele que você espera ouvir da fase de Steve Morse e Don Airey. Simples assim. E é extremamente recompensador, se você pensar no balanço geral da carreira destes caras.

Ian Paice ficou até o fim, sendo o último membro da formação original do grupo. Dois integrantes clássicos, Ian Gillan e Roger Glover o acompanharam até este momento. Steve Morse cumpriu a dura e penosa tarefa de brilhar no lugar de um guitarrista de peso; ser substituto de Ritchie Blackmore não é tarefa fácil, mas Morse conseguiu deixar sua marca na banda. E Don Airey fez juz à memória do maestro Jon Lord a seu próprio modo. A missão, que começou lá pelos idos de 1967, foi cumprida. Agora, a banda pendura os instrumentos e entra para a história. Vamos então conferir este último trabalho.

A primeira faixa do disco, "Time For Bedlam", é uma baita porrada que inicia o álbum com categoria, e tem aquela levada bem clássica do grupo, digna de clássicos como "Strange Kind of Woman". Ela foi a primeira que saiu como single, ainda no ano passado, e me animou bastante para este lançamento. Arranjos bacanas, Gillan mais contido devido à sua voz cansada, mas mesmo assim ainda mandando bem com o pouco alcance que ainda possui, resumindo, grande abertura.

Outra que merece destaque é a terceira, "All I Got Is You", com aquela levada característica da MK8, e que mistura elementos da MK2 de forma tão bacana. Seguindo a veia mais experimental que a banda vem fazendo desde a MK7, dois grandes destaques aqui, "The Surprising" e "On Top Of The World", cujo trecho perto do fim a lá Procol Harum eu achei fantástico, bem como a levada ritmada do resto da música. Mas a experimental que eu achei a melhor e mais interessante, foi a fantástica faixa "Birds Of Prey", uma das grandes gemas da MK8 que eu vou guardar para sempre na memória. Ela meio que remete à MK1, aquela fase inicial do Purple quando ainda fazia covers e experimentava com o som psicodélico, e tem um arranjo sensacional e interessantíssimo, com passagens espaciais e uma execução ímpar.

Fora os destaques e experimentações, o grupo também se diverte com as suas composições de praxe nesta última formação. Tem o blues "Hip Boots" e as descontraídas "One Night In Vegas", "Johnny's Band" e "Get Me Outta Here", nesta última, o Gillan até arrisca um tímido gritinho, mas não vai muito além disso, e ela tem aquele ar de Abandon, disco da banda de 1998. Para terminar a versão normal do álbum, a banda arrisca uma cover de The Doors, com "Roadhouse Blues", novamente, de forma bem descontraída e bacana, com direito até a palhinha do Gillan com sua gaita.

Fim da versão normal do disco, ótima só por ela. Mas ainda não acabou!

Um breve parágrafo sobre os extras da Deluxe Edition, com as mesmas faixas também disponíveis pelo iTunes. Primeiramente temos "Paradise Bar", que parece muito com uma composição do Genesis pós-Duke. Tem também uma versão instrumental de "Uncommon Man", faixa do disco anterior, Now What?!. Trata-se daquela faixa de homenagem a Jon Lord que o grupo fez após o falecimento do músico e amigo; nada especial, somente foi retirada a voz de Gillan. Outra faixa instrumental é o ensaio de "Hip Boots" e marcando a finitude de inFinite, uma versão ao vivo do clássico "Strange Kind Of Woman".

Com esta incursão final, o Purple finalmente alcança a linha de chegada. Uma banda excepcional, que começou timidamente no final dos anos 1960, marcou a história nos anos 1970 com três formações diferentes, ensinando todas as gerações vindouras como se deve fazer Hard Rock, deu um tempo, retornou nos anos 1980 com sua formação pioneira, muito para a alegria desse que vos fala, passou por outra grande crise nos anos 1990, mas a superou e lançou mais discos, até chegarem ao ponto de agora, onde finalmente viram a página da história. Não posso me gabar de tê-los acompanhado desde o começo porque eu não era nascido, mas posso me gabar de tê-los prestigiado e vivido nesta terra, no mesmo período em que andaram entre nós. Agora, cabe a nós, veteranos, apresentá-los a nossos filhos, e às outras gerações que ainda virão por aí.

Obrigado, Steve Morse! Obrigado, Don Airey!
Obrigado, Joe Satriani!
Obrigado, Joe Lynn Turner!
Obrigado, saudoso Tommy Bolin!
Obrigado, David Coverdale! Obrigado, Glenn Hughes!
Obrigado, Rod Evans, mesmo que você tenha sido um sacana em 1980! Obrigado, Nick Simper!

Mas especialmente... obrigado Ian Gillan, Ritchie Blackmore, Roger Glover, Jon Lord e Ian Paice, a formação pioneira de uma das bandas mais importantes da história do Rock! Um disco final recomendadíssimo de uma banda recomendadíssima, e que agora parte para sua turnê final, para depois disso, entrar para a história. Obrigado, Deep Purple! O púrpuro de sua existência pode ser finito, pode estar desbotando, mas em minha memória, sempre estará forte, cor de vinho, que quanto mais passam-se os anos, melhor fica.

inFinite (2017)
(Deep Purple)

Tracklist:
01. Time for Bedlam
02. Hip Boots
03. All I Got Is You
04. One Night in Vegas
05. Get Me Outta Here
06. The Surprising
07. Johnny's Band
08. On Top of the World
09. Birds of Prey
10. Roadhouse Blues (The Doors cover)
Deluxe Edition:
11. Paradise Bar
12. Uncommon Man (instrumental version)
13. Hip Boots (rehearsal, Ian Paice recording)
14. Strange Kind of Woman (Live in Aalborg)

Selo: earMUSIC

Deep Purple é:
Ian Gillan: voz
Steve Morse: guitarra
Roger Glover: baixo
Don Airey: teclado
Ian Paice: bateria

Discografia anterior:
- Now What?! (2013)
- Rapture of the Deep (2005)
- Bananas (2003)
- Inglewood 10/18/68: Live in California (2002)
- Abandon (1998)
- Purpendicular (1996)
- The Battle Rages On... (1993)
- Slaves and Masters (1990)
- The House of Blue Light (1987)
- Perfect Strangers (1984)
- Come Taste the Band (1975)
- Stormbringer (1974)
- Burn (1974)
- Who Do We Think We Are (1973)
- Machine Head (1972)
- Fireball (1971)
- In Rock (1970)
- Deep Purple (1969)
- The Book of Taliesyn (1968)
- Shades of Deep Purple (1968)

Sites oficiais: www.deeppurple.com, www.deeppurple-nowwhat.com

Para mais informações sobre música, filmes, HQs, livros, games e um monte de tralhas, acesse também meu blog:
acienciadaopiniao.blogspot.com.br


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Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.

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