Kansas: Não é mais progressivo, mas segue competente
Resenha - Prelude Implicit - Kansas
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 13 de outubro de 2016
Nota: 7 ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Embora quando se fale em rock progressivo as cenas britânica e italiana sejam as mais lembradas, não dá pra descartar a norte-americana, que mesmo não tendo produzido banda-influência modeladora tipo Yes e Genesis, teve produção underground farta, ainda que em sua maioria clones, como Starcastle ou Cathedral. A vastidão territorial, diversidade cultural e dinheiro correndo na parte norte da América garantiram que até hoje descubramos "novos" grupos, que produziram único álbum com 500 cópias, ora disponível no Youtube ou nalgum blog especializado em pérolas prog perdidas.
Mas, a terra do Tio Sam teve sua fatia de estrelato prog também. O Kansas é o exemplo mais bem-acabado de rock progressivo acessível e altamente vendável daquelas plagas. Na segunda metade dos 1970’s, venderam muito e sucessos como Dust In The Wind tocam até hoje em rádios especializadas em Adult (ou Album, como originariamente) Oriented Rock (AOR), aquela música inventada nos 70’s para execução nas ascendentes FMs e que se caracteriza por produção limpíssima, fusão de estilos como hard rock e prog, enfim, a domesticação da libido roqueira para cidadãos "responsáveis" de meia-idade ou jovens bem-comportados. O diferencial do Kansas no mar de prog sinfônico de então, foi calibrar a sisudez britânica de ELP e Yes com sonoridade roqueira do Meio Oeste, onde se localiza o estado que lhe dá o nome. Álbuns como Leftoverture (1976) e Point Of Know Return (1977) devem constar da discoteca de qualquer fã sinfônico e servem de bússola para entender melhor o que seria o rock de arena oitentista. E olha uma banda prog ianque virando influência modeladora!
A decadência do rock progressivo, saídas e (re)entradas, egos e hiatos retiraram o grupo do imaginário midiático, embora ainda façam turnês, ora em conjunto com bandas como Styx e Foreigner, ora sozinhos, como agora, quando percorrem tudo quanto é cidade pequena, feira agrícola e centros de arte em seu pais comemorando os 40 anos de Leftovertures e promovendo o recém-lançado The Prelude Implicit. Com tantas mudanças na formação, compensa estabelecer quem são os atuais membros: Ronnie Platt (vocal e teclados), Phil Ehart (bateria e percussão), Billy Greer (baixo e voz), Dave Manion (teclados), David Ragsdale (violino e guitarra), Zak Rizvi e Richard Williams nas guitarras.
Guitarra dupla dando variedade na textura, outros dois capazes de pilotar teclados, violino. Muito promissor para fãs de prog sinfônico. Há que dizer logo, porém: o Kansas de The Prelude Implicit é AOR e nem na faixa mais longa torna-se sinfônico de verdade. Ser AOR não é defeito, desde que bem executado e os coroas saíram-se com bela dezena de canções no estilo. A versão Deluxe tem 2 a mais, mas são covers, que nada acrescentam, se bem que poderiam ter trocado a instrumental Section 60 pela cover Oh Shenadoah.
The Prelude Implicit remete aos bons e velhos anos 70/80, evitando os excessos deste último, como a irritante bateria eletrônica. Isso não quer dizer produção antiquada, apenas que o Kansas não traz nada apelativo para as novas gerações; daí talvez o álbum ter passado como poeira ao vento para a grande mídia. Ronnie Platt estreia bem no vocal, lembrando sem imitar, uma galeria de cantores de hard e rock de arena. O destaque tem que ir para o violinista David Ragsdale, que faz miséria em quase todas as faixas.
With This Heart abre com bateria tribal urbana e ostenta trechos totalmente assobiáveis e que grudam, pelo menos até que viciemos em ouvir outro álbum. The Prelude Implicit tem mais de um momento assim; bem agradáveis e que dão vontade de acompanhar. Em Visibility Zero, a guitarra começa comendo solta, mas logo vira power ballad com solaço de violino. The Unsung Heroes é acústica balada Bon Joviana, com pegada gospel transubstanciada em anos 50. Rhythm In The Spirit tem riff guitarreiro de espírito rock e órgão anos 70, mas as pausas para fôlego – que introduzem delicioso refrão grudento – atestam que é rock bom moço. Refugee é sensível oração acústica que ao mesmo tempo lembra o clássico da banda, Dust In The Wind, e Skid Row ou símile no fim dos 80’s.
The Voyage Of Eight Eitghteen deve ter sido planejada para agradar a remanescente ala de fãs fanáticos por prog sinfônico. É a mais longa, com 8 minutos e pico, tem mudança de andamento e oportunidade para todo mundo solar, enfim, canção prog sinfônica-estereótipo até na estrutura. Nenhum momento é marcante, porém; todo o estoque de melodias lembráveis foi usado em outras faixas, mais AOR. Na verdade, essa é um AOR mais longo. Não é ruim, mas não qualifica o Kansas como bom prog. Camouflage tem tom de rock arrastado, a passo que Summer é rapidinha de estalar dedos, pura diversão início dos anos 80. Crowded Isolation abre com cordas acústicas, vira galope tribal de baixo até estabilizar-se como power midtempo.
Fazia 16 anos que o Kansas não lançava material inédito. Não fizeram feio, mas pena que tão pouca gente ouvirá. Há uns 30 anos, entraria nas paradas com algum single ou mesmo o álbum.
Nota: 7
Tracklist:
"With This Heart" (Rizvi/Platt/Ehart/Williams/Ragsdale) - 4:13
"Visibility Zero" (Rizvi/Platt/Ehart) - 4:27
"The Unsung Heroes" (Byrd/Platt/Ehart/Manion/Ragsdale/Rizvi/Williams) - 5:02
"Rhythm in the Spirit" (Rizvi/Platt) - 5:58
"Refugee" (Slamer/Greer/Ehart/Manion/Platt/Ragsdale/Williams) - 4:23
"The Voyage of Eight Eighteen" (Rizvi/Platt/Ehart) - 8:18
"Camouflage" (Rizvi/Greer/Ehart/Platt) - 6:42
"Summer" (Rizvi/Greer/Ehart/Williams/Manion/Ragsdale) - 4:07
"Crowded Isolation" (Rizvi/Platt/Ehart/Greer/Manion/Ragsdale/Williams) - 6:10
"Section 60" (Rizvi/Ehart) - 3:59
"Home on the Range" (Lyrics: John H. Lomax (1910)/Music: Daniel Kelly (1873)) - 3:26 Bonus Track
"Oh Shenandoah" (Traditional) - 3:39 Bonus Track
Outras resenhas de Prelude Implicit - Kansas
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Masters of Voices reúne quatro gerações do rock e heavy metal na América do Sul e no Brasil
Os cinco maiores álbuns da história do rock progressivo
O melhor riff de guitarra de todos os tempos, segundo Keith Richards: "Ele disse tudo ali"
Live anuncia dois shows no Brasil para o mês de setembro
Malevolent Creation celebra 35 anos de "The Ten Commandments" em São Paulo
A música do Pink Floyd que Roger Waters detestou e David Gilmour transformou num clássico
A melhor banda de todos os tempos, segundo os leitores da Classic Rock
A música de 2000 que Brian Johnson considera uma das melhores do AC/DC: "Me arrepia"
Rock e Heavy Metal - lançamentos de faixas, álbuns e mais novidades
Angra anuncia bandas convidadas para shows em São Paulo
10 músicas de rock nacional dos anos 1980 que ainda estão na memória afetiva do brasileiro
4 bandas nacionais de rock e metal dos anos 1980 que tinham tudo para explodir
Steve Harris aponta a música ideal para apresentar o Iron Maiden a quem nunca ouviu a banda
A música "fabulosa" do Queen que Brian May nunca se cansa de tocar
Geoff Tate não considerou chamar outros ex-Queensryche para "Operation: Mindcrime III"


Clássico do Kansas viraliza após esquete com Jack Black no Saturday Night Live
Iron Maiden: "The Book Of Souls" é uma obra sem precedentes


