Rotação Inversa: Longe do caminho das bandas iniciantes
Resenha - Nem Tudo É Normal - Rotação Inversa
Por Loida Manzo
Postado em 12 de setembro de 2016
Por José Flávio Júnior – Jornalista e Critico Musical
Qual o caminho mais comum de uma banda de rock em início de trajetória? Um show aqui, outro acolá, depois um registro em estúdio (geralmente meio tosquinho) para, num terceiro momento, almejar uma estrutura mais profissional. Nenhum novato começa pronto, correto? Não se estivermos falando do Rotação Inversa.
O trio paulistano foge totalmente do padrão descrito acima. Liderado pelo cantor, compositor e guitarrista Beto Wright, o grupo se preocupou primeiro em gravar – no capricho! – o material de seu álbum de estreia, para depois cair na estrada. Nem Tudo É Normal soa como o trabalho de um grupo veterano, com arranjos concebidos
com extrema categoria e um cuidado na gravação que passa longe do convencional.
A começar pelo time reunido no disco. Fillipe Dias (guitarra) e Felipe Gardenal (baixo) foram recrutados para a formação quando Nem Tudo É Normal já estava pronto. As sessões, no John Kilgore Sound & Recording Studio, em Nova York, foram tocadas por Beto Wright com a ajuda de "músicos locais". As aspas são necessárias pois Sandro Albert, músico gaúcho radicado nos Estados Unidos que assina a produção do álbum, tinha uns contatos mais do que especiais em seu celular...
Alguns órgãos de Nem Tudo É Normal foram gravados por Brian Mitchell, mago do Hammond B3 que tem no currículo trabalhos com Bob Dylan, Al Green e B.B. King. Já a bateria em duas canções fica a cargo de Aaron Comess, do grupo Spin Doctors. Darryl Tookes, cantor que acompanhou Sting e Paul Simon, entre outros, e a potente Nicki Richards, que inclusive veio ao Brasil com Madonna, estão entre os vocalistas de apoio do disco. E profissionais desse quilate agregam demais quando o assunto é música pop. Eles conhecem os macetes, as saídas mais criativas, a importância de cada detalhe.
Claro que se as composições de Beto Wright não tivessem força todo esse esmero na produção não serviria para nada. Declaradamente influenciado por Barão Vermelho e o trabalho solo de Frejat (além de Legião Urbana, Raul Seixas e outros criadores do rock nacional que notadamente valorizam as letras), Beto explora dilemas da condição humana em rocks redondinhos, que não tardam muito a grudar no ouvido.
Nem Tudo É Normal abre com "Sem Culpa", espécie de hino de libertação, com versos sobre o caos cotidiano e problemas que atormentam a todos. Na sequência, "Não Sei Perder" traz a primeira contribuição de Brian Mitchell e seu B3. A música é remanescente do repertório do Free Dinasty, projeto anterior de Beto, todo com letras em inglês (curiosidade: ela se chamava "Burning Down" e era a predileta dos fãs). De frases ácidas e tintas psicodélicas nas guitarras, "Soul" evoca o estilo que dá nome à canção. Não por acaso, a turma do backing vocal tem seu grande momento nela, enquanto Aaron Comess garante a firmeza na batera.
Um clima bluesy dá o tom de "Amor", que pretende tratar do nobre sentimento fugindo dos lugares-comuns. A balada existencialista "Nunca Mais" evidencia um elemento presente no disco inteiro: o quarteto de cordas. Mais uma vez com Comess nas baquetas, o cantor toca em questões sociopolíticas na faixa-título, só que sem entrar no desgastante Fla x Flu atual. "Quem Sou?", uma reflexão sobre estar num relacionamento, vem em seguida, levando o álbum para um outro lugar.
As guitarras pesam na espiritualizada "Caravançarais", outra que remete ao Free Dinasty, especialmente pelo vocal mais falado nas estrofes. "Menos Você e Eu" segue na pegada questionadora, com versos que estão entre os favoritos de Beto. A ironia guia "Um Minuto a Mais", concebida na época das "jornadas de junho" de 2013, que ameaçaram mudar o Brasil para sempre. "Inocentes somos nós/ Indecentes somos nós/ Incoerentes também/ Mas quem não pode ser?", pergunta o cantor.
O disco chega ao fim com "Um Sol pra Dois", ótimo resumo das intenções do Rotação Inversa – e, por isso mesmo, escolha natural para primeiro single. Alguém até poderia estranhar a música de trabalho no encerramento do CD. Mas espero que, a essa altura, todos já estejam convencidos de que essa não é só mais uma banda. E a singularidade que marcou todos os passos de Beto Wright e seus aliados até aqui certamente será a senha para o inevitável sucesso.
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