Slayer: Como o vendedor de atrocidades em Repentless
Resenha - Repentless - Slayer
Por André Gurgel
Postado em 21 de dezembro de 2015
Nota: 2 ![]()
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Depois da grande depressão da década de 90, a maior parte dos ícones do thrash metal lançou algum álbum representativo que vislumbrasse um retorno à boa forma dos anos 80. Esse não parece ser o caso da instituição SLAYER. Após o razoavelmente promissor "World Painted Blood" (2009), "Repentless" era pra ter sido o álbum da consolidação do retorno à boa forma, mas, infelizmente, briga de igual pra igual com o horrendo "Diabulous in Musica" (1998) e o vergonhoso representante do nu metal "God Hates Us All" (2001) pelo posto de pior CD da banda.
Confesso que tentei. Devo ter ouvido "Repentless" pelo menos umas quinze vezes; sempre na vã esperança de que ele melhorasse, mas desisti. O décimo-primeiro álbum de estúdio do SLAYER é enfadonho, esquecível e mentiroso e a sensação ao final da audição é de total frustração.
Um dos fatores que mais comprometem o álbum são as letras. A imbecilidade das mesmas remete instantaneamente à plasticidade do medonho "God Hates Us All", ou seja, uma avalanche de versos extremamente juvenis dignos de mallcore e a palavra "fuck" utilizada como vírgula. É ridículo ver "fucking" usado como recurso estilístico para corrigir problemas de metrificação sob o falso pretexto de conferir agressividade às músicas; uma agressividade mentirosa, típica de nu metal, que não convence ninguém.
É óbvio que Jeff Hanneman faz falta, mas nada justifica tanta infantilidade nas composições, de tal ordem que algumas boas ideias acabam completamente arruinadas. O caso mais icônico está presente na cômica letra de "Vices", a qual apresenta uma metáfora que relaciona violência a uma espécie de droga; um conceito com bastante potencial, mas versos como "A little violence is the ultimate drug / Let’s get high!" são indefensáveis e destroem qualquer ambientação lírica.
Não me levem a mal. Mesmo letras pobres que desafiam a lógica racional e sejam difíceis de aceitar como "Cancer shooting from my eyes" (de "Atrocity Vendor", orgulhosa detentora do posto de pior letra do álbum) podem sim se tornar boas músicas se houver um instrumental digno; afinal de contas o primordial componente do heavy metal, principalmente do thrash, são os riffs. E é aí que a coisa desanda de vez...
As fracas letras do álbum ganham maior destaque devido à pobreza instrumental de "Repentless", Riffless seria um título muito mais apropriado. Após a faixa-título o que se vê é uma superabundância de guitarras a mid tempo com "groove", o maldito e exonerável "groove"! Esse recurso é o responsável pelo assassinato do álbum e torna tudo insuportavelmente chato! As músicas acabam perdendo identidade aglomerando-se num enorme e indistinguível filler. Honestamente falando, se eu ouvir um trecho instrumental aleatório não sei dizer se é propriedade de "Take Control", "Implode" ou "Chasing Death". Sendo assim questiono veementemente a real necessidade de produzir um álbum com tantas faixas em detrimento de lapidar as com mais potencial.
Esse é o cerne do problema. Acredito que a insistência no "groove" foi um recurso propositalmente usado para mascarar a torturante pobreza das linhas de guitarra e a ineficácia das mesmas em ditar os riffs. Parece um delírio acreditar que justo o SLAYER, a banda que sempre se notabilizou por conseguir criar atmosferas tenebrosas o suficiente para fazerem jus aos temas mórbidos que as músicas propunham, fazendo com que temas obscuros como "Mandatory Suicide" ou "Seasons in the Abyss" soassem perfeitamente coerentes numa engenhosa amalgama de instrumental e letra, fosse capaz de produzir um álbum tão opaco. Aqui as guitarras parecem descartáveis tanto ritmicamente quanto nos solos, os quais são fracos e não demonstram nenhum apelo; pergunto: para quê trazer o monstro Gary Holt para fazer parte do time? É nítido que ele não teve nenhuma participação no processo criativo, o que é lamentável porque sua veia compositora tem potencial para emular (eu disse emular) o Jeff Hanneman que King necessita.
O desempenho musical dos demais integrantes também não é muito digno de nota. Tom Araya até vai bem nos vocais (particularmente em "You Against You"); mas como baixista fica difícil de saber, uma vez que o seu baixo é novamente negligenciado e inaudível em todo o trabalho.
Paul Bostaph é outra decepção. Com uma bateria monótona e extremamente burocrática, em nada contribui para conferir peso às músicas, muito pelo contrário: sua "ausência" evidencia a escassez instrumental do álbum. Mesmo na boa faixa-título a bateria é um porém.
Mas o cabeça por trás de "Repentless" é Kerry King. Com uma performance irreconhecível, King consegue errar tanto liricamente quanto melodicamente a ponto de criar linhas de guitarra praticamente inexistentes e irrelevantes. Além disso, o triste falecimento de Hanneman parece ter salientado o lado concentrador que Kerry vinha assumindo na banda o que certamente não se provou musicalmente benéfico.
Todavia, "Repentless" não é totalmente descartável. A metalinguística faixa-título é bastante competente e enérgica (apesar de não ser um primor nas letras) e é forte candidata a opener nos vindouros shows da turnê e a única música com potencial para se fixar nos setlits das turnês futuras. O refrão de "You Against You", por sua vez, é um verdadeiro oásis em meio à mediocridade que toma conta do album, é com certeza o riff mais SLAYER do CD e o único que gruda na cabeça; uma faixa que começa com o famigerado "groove", mas que rapidamente dá lugar a um belo solo de Holt e um riff instrumental competente, bela música!
Os outros dois singles: "Cast the First Stone" e "When the Stillness Comes" se destacam apenas por ter um andamento mais lento que as demais músicas do álbum e são pífias tentativas de evocar as atmosferas de "South of Heaven" e "Seasons in the Abyss". Esbarram nos mesmos recorrentes problemas: letra fraca, riff fraco e "groove" forte.
Além dessas quatro músicas, todas as demais compõem o pesaroso e indistinguível filler supramencionado o qual padece dos mesmos males. Com destaque para as completas abominações musicais que são "Take Control" e "Pride in Prejudice" que conseguem a proeza de executar tudo da pior forma possível.
Com uma controversa campanha de marketing ao melhor estilo SLAYER (lançamento no dia 11 de setembro, a polêmica capa...), e umas edições de luxo espetaculares pra deixar toda a Slaytanic Wehrmacht babando, é inegável que o álbum foi bem promovido. Tudo parecia estar no lugar certo, mas infelizmente a música não é digna do padrão de qualidade da banda e se a fonte da máquina de riffs que é o SLAYER parecia estar secando, esse lançamento só corrobora o nebuloso futuro da banda. Sem Jeff Hanneman, só nos resta especular por mais quanto tempo a criatura conseguirá perdurar sem seu "criador".
Repentless - Slayer
(Nuclear Blast - 2015)
1. Delusions Of Saviour
2. Repentless
3. Take Control
4. Vices
5. Cast The First Stone
6. When The Stillness Comes
7. Chasing Death
8. Implode
9. Piano Wire
10. Atrocity Vendor
11. You Against You
12. Pride In Prejudice
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