Arnaldo Antunes: Um dos melhores trabalhos da carreira

Resenha - Já É - Arnaldo Antunes

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Por André Espínola
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Inicio a resenha declarando que Arnaldo Antunes é o melhor compositor brasileiro da atualidade. Essa constatação pode ser óbvia para muita gente, mas caso a participação na fase de ouro do Titãs e uma carreira de dezesseis álbuns, dentre os quais estão clássicos como O Silêncio, de 1996, Um Som, de 1998, Paradeiro, de 2001 e Saiba, de 2004, não seja argumento suficiente, talvez a qualidade individual de músicas como “O Silêncio”, “Música Para Ouvir”, “As Árvores”, “Socorro”, “Atenção”, “Essa Mulher”, “Se Tudo Pode Acontecer”, “Nossa Casa”, “Saiba”, “A Casa É Sua” possa ajudar a reconhecer a veracidade da polêmica declaração. O estilo excêntrico de Arnaldo Antunes, associado ao domínio completo das melodias e à sua formidável qualidade e criatividade poética, que sempre fala das coisas mais comuns da forma mais incomum possível, faz com que seus trabalhos sejam sempre poços profundos nos quais deposita todo seu gênio, sua visão de arte, de poesia, da vida, além da sua própria visão de mundo. Surge agora uma nova oportunidade para quem ainda resiste à ideia inicial, ou seja, a de que Arnaldo Antunes seja o melhor compositor brasileiro da atualidade. O lançamento de Já É, nome do décimo sexto disco da carreira solo, marca um distanciamento do som apresentado nos seus dois últimos trabalhos de estúdio, Iê, Iê, Iê, de 2009, e Disco, de 2013, nos quais Arnaldo optou por um estilo enraizado no rock, especialmente o rock dos anos 50 e 60. Já É pode soar, portanto, como um “retorno à raiz” para Arnaldo Antunes, mas a questão é: qual seria a raiz para um artista que sempre demonstrou não ter raízes? Ou seja, para Arnaldo Antunes, a raiz é flertar com um som e um estilo em um momento, para logo em seguida experimentar outros estilos que melhor se adaptem à sua ideia original. É exatamente essa variedade sonora que está presente em Já É.

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A faixa que abre o disco, “Põe Fé Que Já É”, que inspira o título do trabalho e foi escolhida para a primeira música de trabalho com um vídeo bem interessante, é dançante e animada e mostra uma postura bem enérgica e positiva diante da vida, afinal, “se você tá feliz, se você tá contente, se você mete a cara, se você mete o dente, (...) se o momento é preciso, o desejo é propício (...) põe fé que já é”. A música seguinte, “Antes”, é uma das que apresenta sonoridade mais interessante e diferente, com arranjos bem colocados. Na letra, Arnaldo Antunes faz algo como uma hierarquia de sensações, atitudes e sentimentos, antes de afirmar rejubilante no refrão “e depois alegria, e depois alegria e gratidão”. “Naturalmente, naturalmente” é a primeira das várias parcerias com Marisa Monte e Dadi Carvalho, uma canção leve, bonita e simples, que combina perfeitamente com a naturalidade sugerida na letra.

Arnaldo Antunes tem um interesse em abordar temas e emoções contraditórias, inconvenientes e/ou negativas. Ele usou o humor para descrever a inveja e os seus respectivos efeitos em “Invejoso”, do disco Iê Iê Iê, de 2009. Agora quem vai para o divã, ou melhor, para a mesa de trabalho é a mágoa. Você pode ter ouvido várias músicas que tratam da mágoa, mas poucas mexerão com você como Arnaldo Antunes faz em "Se você nadar", com uma pegada mais forte do que as anteriores, principalmente se a carapuça lhe servir. Utilizando-se de imagens e metáforas para lidar com os efeitos da mágoa (“os micróbios gostam de água parada”), Arnaldo Antunes foge do lugar-comum ou da sensação de auto-ajuda. Na verdade, várias músicas de Já É apresentam esse lado mais esperançoso e afirmativo diante dos desafios e perdas da vida do que o lado sombrio e depressivo. Mesmo nas canções tristes, há um fio de esperança, uma busca incessante por uma saída da crise, do desespero. "Peraí, repara" é outra parceria de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Dadi Carvalho (dessa vez Marisa Monte realmente divide os vocais com Arnaldo), com jogos de palavras e sonoridades com as palavras com o prefixo "para". É incrível como a voz de Arnaldo Antunes e a de Marisa Monte se unem como se fossem feitas uma para a outra. Não surpreende a grande quantidade de parceria entre os dois.

"Óbitos" marca a volta de Arnaldo Antunes com o reggae, já trabalhado anteriormente pelo cantor em, por exemplo, "Pare o Crime (Stop the Crime)”, do álbum Um Som, de 1998, na qual ele faz um apelo para o fim da violência urbana. Arnaldo Antunes volta à temática da violência, dessa vez focando suas críticas nos burocratas e legisladores cujas leis matam sem a necessidade de empunhar eles próprios arma nenhuma. "eles não pegam em armas, só em canetas e papéis, mas matam mais com suas leis, que atiradores cruéis, Estatutos de escorpiões, despachos de cascavéis, cobertos de suas razões dos cabedais até os pés". Depois de tudo só sobra, como diz a letra, “lágrimas, lágrimas nos funerais”. Já disse aqui que ninguém fala de temas banais da mesma forma que Arnaldo Antunes. Em "O meteorologista", um grande exemplo disso, o humor é utilizado como recurso lírico para abordar o amor. Arnaldo Antunes, com toda sua sagacidade e genialidade, brinca com um erro do metereologista, que falou que o fim de semana seria de sol, mas na verdade foi com frio e chuva. A partir daí ele diz que não quer férias no Rio de Janeiro, Bahamas ou Bahia; só quer férias na Sibéria e Alaska para ficarem juntos na cama. Divertida e bela.

"Dança", mais uma parceria com Marisa Monte, é uma balada no violão utilizando-se de belíssimas e inusitadas imagens poéticas. As rimas são tão naturais que rimar flamboyant com manhã não parece nem um pouco forçado e a naturalidade e o encaixe melódico funcionam perfeitamente. Em seguida, Arnaldo Antunes recorre ao samba na faixa "Saudade farta" com mais uma bela letra sobre as lamúrias e a necessidade de conformar-se diante de um amor impossível. "As estrelas sabem" é uma bela balada só Arnaldo Antunes com o acompanhamento de um piano e um violino. A letra contém talvez a melhor construção de imagem poética do disco: "as estrelas pelo chão, são pedaços de carvão, sem o seu sorriso". Belo. As estrelas continuam no foco em "As estrelas cadentes", uma das melhores melodias e letras do trabalho inteiro, que vê o fim de um amor e aponta para o futuro com esperança. Só Arnaldo Antunes mesmo para sair com uma estrofe como essa: "para a chuva molhar o deserto, e as correntes tomarem o rumo certo, das lágrimas caídas nos vasos regados nascerem flores, e as abelhas beberem o pólen delas, e as lagartas comerem as folhas delas, transformando em vida nova todos os velhos amores".

"Na fissura" é um rock que trilha o caminho dos últimos trabalhos de Arnaldo Antunes, composta em conjunto com os membros de sua banda, Betão Aguiar e Chico Salém."Azul e prateado" é talvez a única que não brilhe por si mesma, mas ainda assim mantém o nível interessante. Nas duas últimas faixas, "Só Solidão", que se encaixaria perfeitamente no álbum Acústico, e "Aqui onde está", o clima contemplativo ganha força.

Diante disso, Já É pode entrar na lista de um dos melhores trabalhos da carreira de Arnaldo Antunes. A sua já conhecida e qualidade lírica e poética de grande compositor, que sempre esteve presente nos seus discos, uniu-se mais uma vez com uma variedade sonora bastante interessante, que estava ausente nos últimos dois trabalhos, que tinham uma proposta bem limitada e definida. Então, quando eu digo e reafirmo que Arnaldo Antunes é o melhor compositor brasileiro da atualidade, já posso ouvir a resposta: “Já É”.

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Sobre André Espínola

André Espínola, recifense, estudante de História e apaixonado por música, quer levar um pouco de sua paixão para os outros, resenhando sobre novos lançamentos e pagando tributo aos clássicos e às nossas raízes musicais, sobretudo o Blues, Rock e Jazz, cuja missão básica é dizer aos quatro cantos: "a boa música nunca morrerá!". Possui o blog Filho do Blues, onde escreve e edita textos sobre as novidades musicais do mundo do rock, indie e blues.

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