Neil Young: A incansável politização
Resenha - Monsanto - Neil Young
Por Diego Almeida Cunha
Postado em 09 de julho de 2015
Se há alguém na música em que se pode fazer uma metáfora com vinho, esse alguém é Neil Young. O lendário músico canadense, que neste ano completa 70 anos, lançou nesse último mês seu 36º álbum de estúdio, intitulado "The Monsanto Years", em parceria com o Promise The Real, banda que conta com dois dos filhos da lenda do country Willie Nelson. Provando que ainda há muita lenha para queimar, Neil fez do disco mais um álbum conceitual, dessa vez em protesto à multinacional Monsanto, uma das maiores no ramo agrícola. Mas não somente se trata da Monsanto o álbum.
"A New Day for Love" é uma grande faixa de abertura, e demonstra-se inconfundível diante da voz de Young e de um riff lento, mas que se encaixa perfeitamente. A canção é um chamado em defesa dos oprimidos, que vivem sob suas terras ameaçadas por grandes corporações. Totalmente acústica, "Wolf Moon" traz uma voz mais cansada de Young, - o que por vezes se torna inevitável diante de sua idade - além de ser a faixa mais curta do disco. O álbum tem uma grande elevação novamente com "People Want To Hear About Love", mais um riff executado com excelência com uma letra completamente direta que, se interpretada por completo, pode-se notar que vai na contramão do que diz a clássica "All You Need Is Love", dos Beatles. Young ironiza, ao sempre expor que as pessoas só se importam com o amor, como se fosse ele a solução de tudo, e que se isso for feito, vários âmbitos sempre serão deixados de lado.
"Big Box" é mais um dos protestos veementes, uma acusação aos quatro cantos do globo do egoísmo corporativo que assola a Terra. Um dos acusados é a rede de hipermercados Walmart, e, mais uma vez, Neil ironiza, ao dizer "Corporations have feelings, corporations have soul [...] Too big to fail, too rich for jail" ["Corporações têm sentimentos, corporações têm alma [...] Grandes demais para falhar, ricos demais para serem pegos"]. A faixa também se torna a mais longa do disco, contendo pouco mais de oito minutos.
"Rock Star Bucks A Coffee Shop": De uma vez só, e em cinco minutos, o canadense detona duas das maiores marcas mundiais: a rede de café Starbucks e, novamente, a Monsanto, numa tentativa de boicotá-la. Como um tapa na cara para os CEO's das duas marcas, ele diz: "Mothers want to know what they feed their children" ["As mães querem saber como eles alimentam seus filhos"], utilizando de um pensamento simples que poderia, de alguma forma, conscientizar os fiéis clientes de ambos.
"Workin' Man" tem uma ótima linha de baixo, que se remete ao ritmo cinquentista, em músicas como as de Johnny Cash em seu começo de carreira, mas não deixando de lembrar de Bob Dylan em "Highway 61 Revisited". Como não poderia deixar de ser, há mais uma acusação caindo sobre a Monsanto, dessa vez com Neil contestando o fato de a Supreme Corte ter aprovado uma lei que favorecia a multinacional. Diferentemente de "Workin'...", "Rules of Change" é mais cadenciada, como num pedido leve do músico, ao dizer "Seeds are life it can't be owned [...] Life cannot be owned" ["Sementes são vida, não podem ser dominadas [...] A vida não pode ser dominada"].
Na faixa-título a crítica se estende ao fato de a Monsanto destruir a vida. Um dos pontos é o uso de venenos. "Monsanto..." se desenrola até entrar em uma parte final com um riff bastante decente.
A última faixa, "If I Don't Know", é a mais chorosa do álbum, se arrastando e brandando por trazer de volta tudo aquilo que sempre foi nosso, tudo que sempre foi dos cidadãos.
Não é a primeira e provavelmente não será a última vez que Neil Young usará de protesto em suas canções, o que sempre foi um marco na sua carreira. Mas talvez esse seja o protesto mais veemente que já se viu do artista. Algo admirável, bem fundamentado e esclarecido, com potencial para se tornar um clássico em não muito tempo.
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