Genesis: "Selling England", o álbum do qual John Lennon gostava
Resenha - Selling England By The Pound - Genesis
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 19 de junho de 2015
Nota: 10 ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Novamente trancados numa casa de campo, os meninos terminaram o sucessor de Foxtrot (resenhado aqui, veja link ao fim da postagem). Selling England By The Pound foi lançado em outubro de 1973 e ganhou críticas positivas de meio mundo, inclusive de John Lennon. Chegou ao terceiro lugar da parada inglesa, maior sucesso do grupo até então.
O título alude à transformação econômico-social e o declínio da Inglaterra, engolfada em consumismo, ao mesmo tempo em que enxuta de grana. Em meio ás intrincadas alusões das letras – que vão de Tolkien, Shakespeare e Elliot a uma brincadeira com os nomes das principais redes de supermercados britânicos da época – encontra-se o álbum mais político do Genesis e um dos pináculos do rock progressivo sinfônico. Gabriel, Hackett, Collins, Rutherford e Banks combinaram energia e lirismo quase à perfeição, não fosse por um passo maior do que as pernas em Battle of Epping Forest.
Dancing with the Moonlit Knight sintetiza Selling England by the Pound, até porque o título do álbum foi tirado da faixa de abertura, uma espécie de "ame ou odeie" já no início, solenemente cantado à capela por Peter:
"Can you tell me where my country lies?"
Said the Unifaun to his true love's eyes
"It lies with me!" cried the Queen Of Maybe
for her merchandise, he traded in his prize
Tem início um questionamento dos meios de sustentação do ex-Império Britânico com uma letra recheada de referências a cadeias inglesas de fast food (Wimpy), pronunciamentos de primeiros-ministros e senhoras em portas de saloons com a arma do western moderno: o cartão de crédito. A neomedievalidade da melodia ganha peso para voltar ao clima pastoral. Curiosidade: o verso "'Paper late!' Cried a voice in the crowd" seria retomado quase 10 anos depois pra batizar a canção Paperlate, na fase Collins.
I Know What I Like (In Your Wardrobe) é caso raro no mundo prog, que tendia a evitar singles, afinal, a maioria das canções do gênero eram muito longas e complexas. Meio psicodélica, meio glam rock, seus 4 minutos tornaram-se o primeiro sucesso do Genesis, alcançando o posto 21 (pruma banda de rock progressivo estava bom). A letra apresenta os característicos pontos de vista múltiplos da fase Gabriel e é sobre um rapaz aconselhado por diversas pessoas a seguir diferentes carreiras para ser bem sucedido. Ele desdenha os projetos de vida desenhados por outros e afirma ser feliz sendo um aparador de grama. Beirando o pop, a melodia traz cítaras, o teclado de Tony Banks reproduzindo um cortador de grama e refrão grudento, um tanto nonsense. Dizem que foi Peter o descobridor do tom que imitava o cortador de grama no teclado Mellotron, enquanto brincava com o instrumento durante uma ida de Tony ao banheiro.
Os nove minutos e meio de Firth of Fifth estão dentre o que de melhor o Genesis compôs. A abertura em piano clássico é seguida por seções de flauta, teclado e um dos solos de guitarra mais lindos de Steve Hackett. O guitarrista tratou o som do instrumento a fim de aproximá-lo do violino e fazer justiça à formação de música clássica de Tony Banks, principal autor da canção. Ao vivo, a introdução foi abolida ainda em 73, pois Banks sentiu que não podia fazer justiça à sonoridade do grão piano no palco. Também deve ter pesado o fato de ele ter errado a complexa melodia numa apresentação...
More Fool Me é uma balada dor-de-cotovelo acústica com vocal fininho de Phil. Simples e despojada, a canção serviu – anos depois - aos muitos detratores do baterista para detectar um suposto início pro "declínio" do Genesis, sempre atribuído à tomada das rédeas por Collins e sua faina pop. Claramente, um filler, os acusadores esquecem que Mike Rutherford é co-autor. É certo que já havia tensão na banda, mas não foi More Fool me o "começo do fim".
O calcanhar de Aquiles é a ambiciosa The Battle of Epping Forest, muita ideia para pouca realização. A letra quilométrica e trocadílica é sobre uma batalha entre gangues na parte pobre de Londres, com Gabriel mudando de voz para cada personagem e usando uma espécie de proto-rap em algumas seções, o que leva alguns fãs mais delirantes a dizerem que o Genesis foi precursor do rap (absurdo!). O que acontece é que a letra não se encaixa na melodia por ser verborrágica em excesso. Às vezes Gabriel fala, às vezes tem que acelerar os vocais para alcançar a melodia. As inúmeras mudanças de tempo, ritmo e compasso tornam Battle meio com aspecto de colcha de retalhos, onde apenas alguns trechos funcionam bem. A canção foi tirada dos shows, assim que a turnê de Selling England terminou.
Depois do filler instrumental After the Ordeal – que nada acrescenta ao cânone genesiano e encontrou resistência de Pete e Tony para ser incluída no álbum – vem outra obra-prima: The Cinema Show. A letra sexualiza a história de Romeu e Julieta, com influência de T. S. Eliot e mitologia grega. Na verdade, parecem 2 canções numa só, uma vez que o primeiro segmento mais acústico com violão de 12 cordas dedilhado, flauta, fagote e lindas harmonizações vocais entre Gabriel e Collins emenda-se a uma longa seção onde Banks cria uma correnteza de Mellotron, rápida, mas delicada. 11 minutos de êxtase.
A excelência de Selling England by the Pound provou a maturidade do Genesis, sedimentou sua reputação entre as bandas de prog sinfônico e indicou que uma obra-prima irretocável podia sair a qualquer momento. Saiu no ano seguinte, mas as tensões cresciam à galope, devido ao excesso de atenção dado a Gabriel e suas fantasias no palco. O aspecto colaboracionista dos integrantes era desprezado em favor de se atribuir toda a exuberância e qualidade do trabalho ao vocalista. Não que Gabriel o fizesse, mas a mídia em geral fazia vista grossa aos demais membros, holofotando Peter. Conta-se que no processo de composição de Selling England, muitas vezes o cantor e os demais membros trabalharam em locais separados. Todos pressentiam que algo aconteceria.
Tracklist
1. Dancing With The Moonlit Knight (8:01)
2. I Know What I Like (In Your Wardrobe) (4:06)
3. Firth Of Fifth (9:34)
4. More Fool Me (3:09)
5. The Battle Of Epping Forest(11:43)
6. After The Ordeal (4:12)
7. The Cinema Show (11:06)
8. Aisle Of Plenty (1:31)
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A criança que irritou Joey Ramone a ponto de inspirar um clássico dos Ramones
O hit da Legião Urbana que foi mal interpretado como apologia ao fascismo
U2 volta ao Brasil no início de 2027, diz portal de notícias
A formação do Black Sabbath que não funcionou, na opinião de Geezer Butler
As quatro bandas que Dave Mustaine incluiria em um novo Big Four
O disco do Slayer que é uma "resposta" ao pop punk feito por Green Day e Offspring
Os dois piores álbuns da discografia do Kiss segundo seu vocalista Paul Stanley
Regis Tadeu elege melhores e piores shows do primeiro fim de semana do Rock in Rio 2026
O disco do Iron Maiden com Blaze Bayley que a Metal Hammer considera "metade de um clássico"
Os mestres que moldaram Jimi Hendrix antes de ele se tornar o maior nome da guitarra
O disco do Pink Floyd que é o preferido de Geddy Lee, baixista e vocalista do Rush
65 grandes músicas gravadas por Dave Mustaine, que completa 65 anos neste domingo
As duas músicas do Judas Priest que Rob Halford detesta: "Lixo, só clichês"
Ex-Whitesnake, Adrian Vandenberg diz que vem à América do Sul ainda em 2026
O ajuste que Bruno Sutter sugere para a voz de Bruce Dickinson no Iron Maiden

Os 3 artistas considerados "rock de tiozão" pelo baixista do Nirvana Krist Novoselic em 1992
Roger Waters explica porque separa John Lennon e Bob Dylan de um lado e Phil Collins do outro
A música do Genesis em que Phil Collins tentou tocar como seu grande ídolo
O álbum do Genesis que Steve Hackett não gostaria de revisitar sozinho, sem os ex-colegas
Joe Elliott acha que único disco do Sex Pistols é tão planejado quanto um álbum do Genesis
O hit que transformou Phil Collins em saco de pancadas: "Eu não merecia isso"
O baterista que Phil Collins considerava "tecnicamente muito superior a mim"
O baterista amigão que Phil Collins admite ser tecnicamente muito superior a ele
A opinião nada carinhosa de Ian Anderson sobre uma banda clássica do progressivo setentista
Black Sabbath: Born Again é um álbum injustiçado?


