Black Label Society: Carregando a chama do rock pesado
Resenha - Catacombs of Black Vatican - Black Label Society
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 26 de abril de 2014
Nas últimas semanas, com o anúncio da aposentadoria do guitarrista Malcolm Young e todos os boatos sobre uma potencial dissolução do AC/DC, voltou à pauta uma preocupação que tem sido recorrente nos últimos anos: nossos grandes ídolos estão envelhecendo. A saúde fragilizada de Lemmy Kilmister, a personificação viva do rock, crava uma dúvida razoável na cabeça dos fãs – afinal, quando os mestres passarem desta para uma melhor (ou pior, dependendo da sua crença ou do seu ponto de vista), quem restará para carregar a chama?
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Aposto, de coração, que você tem pelo menos uma dezena de exemplos pipocando na sua cabeça. Mas antes que saia alguma resposta precipitada, pense de novo: este nome que você está prestes a dizer é um cara inspirador, do tipo que levaria um moleque dos dias de hoje a enveredar pelo mundo do rock pesado? Seria um ídolo metálico em potencial?
Deixa que eu te respondo aqui – muito mais do que qualquer frontman de banda da modinha recém-saída das fraldas, um sujeito que é digno merecedor deste fardo é Zakk Wylde. Aliás, ele já vem fazendo isso há muito tempo e, confesso, se eu tivesse que fazer um neófito em sons pesados escutar alguma banda que ainda está na ativa, que já merece ser chamada de clássica, que é herdeira digna dos grandes senhores do panteão do heavy metal, esta banda seria o Black Label Society. Um disco como o recém-lançado Catacombs of Black Vatican, o mais recente de uma discografia que tem sido marcada pela qualidade absolutamente linear, seria um bom ponto de partida para iniciar alguém interessado em começar a bater cabeça. Tem riffs de guitarra apaixonantes e envolventes (o que é bem óbvio, em se tratando de Wylde), tem um peso cavalar, tem melodias absolutamente chapadas e tem, em sua essência, uma reverência ao blues que é o pai do rock – aqui, obviamente, tratado de maneira mais furiosa e encorpada.
Catacombs of Black Vatican é um disco sintomático para o Black Label Society não por ser o primeiro de estúdio com o novo baterista, Chad Szeliga, porque afinal a rotatividade neste posto tem sido bem grande desde a saída de Craig Nunenmacher em 2010. No entanto, é sintomático por ser o primeiro sem a presença de Nick Catanese, o guitarrista que era uma espécie de alma gêmea de Wylde, seu grande complemento, sócio, amigo. Mesmo assim, mesmo sem a sua base precisa, o disco inteiro funciona bem, podendo ser considerado mais um passo rumo à evolução de uma sonoridade própria e única para o Black Label Society, com assinatura e com um refinamento que funciona tanto no palco de um grande estádio quanto diante de um bando de bêbados em um pequeno boteco.
Hearts of Darkness, por exemplo, é aquela canção tipicamente Black Label Society, pesada, corpulenta, com uma melodia ampla e que preenche todos os espaços - tão forte quanto Damn the Flood, o primeiro single My Dying Time ou a porrada Fields of Unforgiveness, que abre o disco convidando a bater cabeça. É aquela combinação de densidade soturna herdada do Black Sabbath com um sabor de rock sulista.
O lance é que a gente já sabia do talento de Wylde como guitarrista, um dos últimos grandes guitar heroes de sua geração. Isso é padrão de se dizer, seria óbvio insistir no assunto. O que não é a coisa mais esperada do mundo é vê-lo melhorando, gradativa e sensivelmente, em sua outra função na banda: a de vocalista. Este instrumento ele vem aprimorando e tratando com tanta paixão quanto a que dedica às seis cordas. Em uma balada como Angel of Mercy, o camarada solta a voz com uma textura diferente, mais sutil, entregando uma interpretação emocional e emocionada e, por que não dizer, doce. Na acústica Scars, ele exerce um lado bem mais melancólico. E naquele que eu considero o melhor momento de todo o álbum, na última canção da bolacha, Shades of Gray, Wylde assume sua faceta mais blueseira e derrama doses fartas de talento e emoção em quase sete minutos de música muito, mas muito boa.
Catacombs of Black Vatican não é cópia xerox dos discos anteriores, mas sim uma evolução nítida e visível da carreira do Black Label Society. Com este disco, Zakk está longe de reinventar a roda. Mas duvido que esta fosse a intenção. Ele só quer continuar se divertindo, retribuindo o calor dos fãs e prestando tributo aos seus velhos mestres. Neste sentido, ele foi amplamente bem-sucedido nos três objetivos. Não é o bastante?
Line-up
Zakk Wylde – Vocal, guitarra, piano
John DeServio – Baixo
Chad Szeliga – Bateria
Tracklist
1. Fields of Unforgiveness
2. My Dying Time
3. Believe
4. Angel of Mercy
5. Heart of Darkness
6. Beyond the Down
7. Scars
8. Damn the Flood
9. I've Gone Away
10. Empty Promises
11. Shades of Gray
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