Black Sabbath: em 1971, o clássico Paranoid
Resenha - Paranoid - Black Sabbath
Por Eduardo Alfani
Postado em 01 de julho de 2013
O Contexto histórico era o final dos anos 60. Os Beatles decretando o seu fim após pesadas brigas judiciais; Charles Manson invadindo a residência do cineasta Roman Polanski com os participantes de sua estranha seita-família, assassinando a esposa gravida de Polanski e escrevendo mensagens com sangue nas paredes; Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison falecendo (curiosamente com a mesma idade: os misteriosos 27 anos); Os Rolling Stones contratando uma "carinhosa" gangue de motociclistas chamada Hell’s Angels para fazer a segurança de um grande show, que acaba com quatro mortos e dezenas de feridos após inúmeras brigas causadas pelos seguranças amigáveis da banda. Do outro lado do atlântico, a maioria dos Ingleses trabalhavam 24/7 em verdadeiros calabouços que chamavam de fabricas. Lugares insalubres, com péssimas condições de trabalho e exigência de dedicação total, sobrando para os ingleses apenas o balcão do Pub e o Whiskey barato como consolo ao final do dia. Era esse o contexto do final da contra-cultura, da morte do movimento Hippie e do maldito "Flower Power".
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Para que vestir roupinha colorida, colocar flor no cabelo, tocar violão na praça com mensagens de paz e amor? A vida era uma merda. Não havia motivos para tanto sorriso, tanto amor, tanta cor. E foi com essa mensagem na cabeça que quatro garotos resolveram chutar o sonzinho Jazz genérico que sua banda "Earth" fazia para tacar o foda-se ao "Flower Power" e retratar a realidade como ela de fato se demonstrava no dia a dia do cidadão comum da época. Assim nascia o Black Sabbath. Assim nascia o Heavy Metal e toda sua atmosfera absolutamente contrária a tudo o que é bonitinho, alegre e colorido.
Sabe toda a relação que o Rock e o Heavy Metal tem com a cor preta, com coisas "malvadas", figuras nefastas, caveiras, ocultismo, satanás e tudo o que um bom filho norte-americano deve ficar longe para fazer sua mamãe judia/católica feliz? Pois bem, tudo isso se deve ao Black Sabbath. Apesar de, na minha opinião, eles não terem sido os primeiros a fazer som pesado (posto que, para mim, fica com Stooges, MC5 e as bandas de pre-punk do final dos anos 60), dá pra dizer tranquilamente que eles inventaram de fato o Heavy Metal e tudo o que o estilo agrega além do som.
Isso sem começar a falar de som, porque sobre o som do Sabbath, eu, honestamente, não sei nem por onde começar. Além do pioneirismo em riffs com distorções pesadas, nas mudanças rítmicas radicais (Iron Man é considerada a primeira) e nas levadas chamadas de "mid-tempo", o som do Sabbath sempre me chamou muito a atenção por ser uma mescla de psicodelia e peso em uma harmonia que eu nunca vi igual. Em "Paranoid" (Atlantic, 1971) encontramos muito de Mutantes e Beatles, ao passo que temos alí o que é considerado um dos primeiros registros de Metal Pesado da história da música. Isso, pra mim, não tem como verbalizar, apenas ouvir e viajar. Viajar longe!
"War Pigs" abre o disco quase que estabelecendo um "cenário sonoro" na cabeça de quem ouve. Eu, pelo menos, consigo enxergar guerra e destruição quando coloco o disco para rodar, deito na cama e fecho os olhos (experiência muito próxima a um orgasmo, altamente recomendada). A música é uma crítica tão violenta quanto a própria guerra do Vietnã, sem precisar colocar florzinha no cabelo, usar roupa colorida e fazer sexo na praça. O nome do disco, inicialmente ia ser "War Pigs", porém foi censurado pela gravadora pela referência direta a guerra. O baixo de Geezer Butler casa com a batera de Bill Ward mais que arroz casa com feijão, resultando em uma pegada que não existe igual no mundo da musica, sem exageros. A música "Paranoid", apesar de ser considerada o maior clássico da banda, tocada por qualquer conjuntinho em qualquer buraco mundo afora, foi composta em menos de 5 minutos, às pressas, dada a necessidade de um novo título para o álbum. "Iron Man" é também um dos riffs mais conhecidos da história e é ainda mais popular que a própria banda, tendo feito parte de filmes e até comerciais de TV. Os meus favoritos no álbum são os riffs em "Eletric Funeral" (em que Geezer e Tony Iommi brincam com o pedal "wah wah" sem medo de serem felizes) e "Fairies Wear Boots", cuja letra foi composta inspirada num pau que Ozzy levou na rua, de um bando de Skinheads (fadas com botas, haha). Merece uma menção aqui também "Planet Caravan", uma verdadeira viagem psicodélica que parece que foi composta para se ouvir olhando para o céu, a noite, deitado na grama, fazendo uns "bate-voltas" em universos paralelos. Finíssima.
"Paranoid" foi um dos primeiros discos que eu comprei. Devia ter, sei la, 11, 12 anos. Até hoje, para mim, ele soa da mesmíssima maneira, eu ainda fico impressionado e "com medo" do que eu escuto nessa obra prima. O Sabbath recentemente confirmou shows com a sua formação quase original por aqui. Eu estarei la e prometo que contarei para meus filhos, netos e bisnetos sobre esse show, tal qual fazem os que tiverem a oportunidade de ver a banda a décadas atrás. Sua lição de cada de hoje da @Disco Nosso de Cada Dia é fazer a mesma coisa.
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