Megadeth: Um disco caracteristicamente muito veloz
Resenha - Rust in Peace - Megadeth
Por André Cristian
Fonte: Questão das Malvinas
Postado em 14 de agosto de 2012
Muitas obras no metal podem ter a conotação "petardo" aliadas a elas, muitas vezes de modo quase que intrínseco. Entende-se por petardo, comumente, um som extremamente potente, vigoroso, uma verdadeira porrada na orelha, digno de uma banda de metal. É muito comum que o termo seja associado a discos de vertentes mais extremistas (quase nunca se vê no heavy metal, por exemplo), provavelmente porque o groove associado ao som deixe aquela sensação de crueza, aquela sujeira que só se ouve nas grandes representantes do metal ao redor do mundo. No entanto, é muito raro associar o termo "petardo" com outro termo, "polido", este já mais comum entre vertentes mais próximas ao rock. Um disco polido é um disco bem trabalhado, melodicamente complexo e liricamente bem composto. Este, contudo, é um disco que pode perfeitamente ter os dois adjetivos a ele ligados.
Filho da fúria de Dave Mustaine por ter sido chutado do Metallica, o Megadeth caracterizou-se em seus três primeiros discos por sua crueza e agressividade, levando o termo "thrash metal" a uma de suas definições mais precisas. Killing is my Business... and Business is Good! (1985), Peace Sells... but Who's Buying? (1986) e So Far, So Good... So What! (1988) têm riffs secos, músicas velozes e não muito longas e uma base de baixo (nos três discos, comandado por David Ellefson) e bateria (nos dois primeiros, Gar Samuelson; no terceiro, Chuck Behler) que precisava acompanhar e dar base aos solos de Mustaine e Chris Poland (no caso do terceiro disco, o outro guitarrista era Jeff Young).
Em mais uma das muitas mutações da formação do Megadeth, entra na banda o baterista Nick Menza, até então roadie de Behler, e o guitarrista Marty Friedman. Friedman desde muito novo se interessou pela cultura havaiana e japonesa, o que trouxe pra ele um estilo único. Sua origem speed metal de suas duas bandas anteriores, o Hawaii e o Cacophony (nesta última, seu parceiro era ninguém menos que Jason Becker), incorporou ao Megadeth um som ainda mais rápido, mas agora mais polido que anteriormente. Nascia em 1990 o quarto disco de estúdio da banda, Rust in Peace.
Rust in Peace é um disco caracteristicamente muito veloz, e isso fica evidente já na introdução da primeira faixa, Holy Wars... the Punishment Due. O riff da música impressiona, além da rapidez, pela precisão cirúrgica que todos os instrumentistas inseriram no disco; não há uma nota fora do tempo, uma virada de bateria que não seja perfeita, uma sujeirinha qualquer. Esse perfeccionismo certamente se deve à entrada de Friedman e seus trabalhos no metal neoclássico, com o Cacophony.
Mas não é por sua precisão que o disco soa menos pesado. Obviamente é muito mais melódico que os trabalhos iniciais do Megadeth, em particular se comparado ao debut de 1985, mas o peso ainda se encontra muito presente a todo instante. Talvez a maior prova seja a terceira faixa, Take No Prisoners, onde os insanos pedais duplos de Menza e as quebras de ritmo a todo o momento marcam os pouco mais de dois minutos da música.
Impossível não citar duas das maiores faixas do metal, particularmente as minhas duas preferidas do disco: Hangar 18 e Lucretia. Ambas as músicas usam e abusam de toda a técnica dos integrantes do Megadeth: arpejos, licks e por vezes o uso do tapping dão o tom das músicas. A ferocidade das Flying V de Mustaine e Friedman permite variações entre os riffs, com um peso maior, e os solos, extremamente melódicos - a nível de thrash metal, claro. Verdadeiras aulas de guitarra.
Rust in Peace dá-se ainda ao luxo de uma faixa puramente experimental: Dawn Patrol, a oitava e penúltima. Como se gravada em um daqueles momentos em que ninguém espera que algo esteja sendo gravado, Ellefson empunha seu baixo e começa a fazer uma base qualquer. Menza acompanha o ritmo com a bateria, em compassos repetidos por toda a música. Enquanto isso, Mustaine balbucia alguns versos sobre aquecimento global e desastres nucleares - a matriz nuclear, tanto com fins de produção energética como bélicos, pauta praticamente todo o disco.
Em termos de thrash metal, por muitas vezes o Megadeth deixa a desejar; prova disso são os discos mais recentes que, apesar de sempre extremamente técnicos e com uma pegada muito forte, não soam mais como o thrash de outrora. De todo modo, Rust in Peace entra facilmente na lista dos maiores discos da história, não só do metal, me arriscaria dizer, mas da música como um todo - tanto que ele está incluso na famosa lista "1001 Albuns You Must Hear Before You Die". Um disco polido com a pegada de um verdadeiro petardo. Um berzerk sob o traje de um lorde inglês. Simplesmente genial.
Track List
1. Holy Wars... the Punishment Due
2. Hangar 18
3. Take no Prisoners
4. Five Magics
5. Poison Was the Cure
6. Lucretia
7. Tornado of Souls
8. Dawn Patrol
9. Rust in Peace... Polaris
Outras resenhas de Rust in Peace - Megadeth
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