Epica: Entrelaçando aspectos de um trabalho artístico

Resenha - Requiem For The Indifferent - Epica

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Por Júlio André Gutheil
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Nota: 9

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


De uma forma ou de outra, bastante sutilmente muitas vezes, o Epica é uma banda socialmente engajada. Desde o começo da banda tivemos várias canções que abordaram temas políticos, sociais, ambientais e religiosos, quase sempre em tom duro de denúncia e desaprovação. E continuando com essa característica chega até nós o quinto álbum de inéditas dos holandeses: “Requiem For The Indifferent”.
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Podemos notar logo de cara a proposta do trabalho através de sua capa, que mostra algo que metaforiza um possível futuro do planeta e da humanidade: um mundo metálico, plastificado, sem cor e sem vida, e quando raramente estas aparecem são vistas quase como um milagre e causam espanto. Um mundo que há de ser tomado por andróides e máquinas, deixando de lado a essência pura do ser humano. Assim, desde logo nos propõe a refletir a respeito do que estamos fazendo com o nosso lar, maltratando-o, poluindo-o e não mostrando um pingo de respeito ou agradecimento por tudo o que ele já nos deu. Ao mesmo tempo em que questiona os impressionantes avanços tecnológicos que vivenciamos atualmente, perguntando se vale a pena chegar tão longe.

É um bocado de idéias que se pode tirar apenas da arte da capa, e isso denota que o Epica é uma banda que consegue com sucesso entrelaçar muito bem todos os aspectos que constituem uma concepção de trabalho artístico.

A audição começa como não poderia deixar de ser, com uma introdução instrumental. ‘Karma’ soa um pouco diferente das aberturas dos dois últimos discos, que eram mais impactantes, mais cinematográficas. Esta me parece um pouco mais contida, e que de certa forma flerta com o início da banda, com uma atmosfera mais densa e soturna adornada com instrumentos de sopro diferenciados e com mais destaque para corais com vozes femininas.

Na seqüência chega a pancada ‘Monopoly on Truth’ chutando baldes. Já de início ouvimos a bateria sempre ensandecida de Ärien, riffs rápidos e densos, boas orquestrações que foram uma base muito sólida para o restante do som. É uma faixa longa, com bastante variação, corais e refrões grandiosos. Simone cantando muito bem como sempre, e Mark está com s guturais afiadíssimos. Algumas partes dessa música me parecem claramente remeter ao disco “Consign to Oblivion” (2005), o que se repete algumas vezes ao longo da audição do disco, dando a entender que de fato eles realmente aproveitaram para incrementar um pouco do som atual com pinceladas do passado. Um belo acerto.

A faixa seguinte é o primeiro single do trabalho: ‘Storm the Sorrow’. Eu pessoalmente gostei muito dessa escolha por dois motivos. O primeiro é que mantém a tradição de sempre pegar músicas diferentes umas das outras para single, já que se prestarmos atenção nenhum dos singles da banda pode ser considerado idêntico ao anterior, como muitas bandas fazem. O segundo é que uma música até que ousada para ser usada como carro-chefe do disco, pois é bem pesada e não é exatamente de fácil digestão. Mas de qualquer forma é uma ótima canção, apostando na bela voz de Simone e em uma cadência interessante, tem todo um clima bacana. Não é a melhor, mas com certeza um grande destaque.

O Epica tem algumas marcas registradas, e uma delas certamente são as suas baladas. Sempre belas e sempre emocionantes, e carregadas de feeling. E desta feita não foi diferente. ‘Delirium’ é uma genuína balada da banda, que se guia na ótima interpretação de Simone, nas linhas de teclado de Coen e nas guitarras discretas, porém fundamentais. Excelente!

Depois da calmaria vem a tempestade com ‘Internal Warfare’. Cheia de peso, bateria sempre marcante, grandes riffs e mais uma vez Simone mandando muito bem. Destaque para as orquestrações e os corais, este último que é um dos grandes ingredientes do disco, usados de uma forma ampla, coerente e excepcional.

A faixa título é uma das que mais me agradou durante a audição, desde a primeira vez. Seu início com temas orientais mais uma vez retoma às raízes, fazendo pensar no distante “The Phantom Agony” (2003). Em seguida começa o instrumental, mesclando sonoridades antigas com o peso atual de forma precisa. O refrão é espetacular, usando os corais de forma fantástica, o tornando épico e grandioso ao extremo. Mark, Simone e Ärien com interpretações irrepreensíveis. Uma peça grandiosa que consegue ser atual e retrô ao mesmo tempo, sem cair em mesmices ou autocópias. Individualmente nota 10.

‘Anima’ é aquele interlúdio aleatório que poderia ser dispensado, sempre aparece. E nele se cola o tiro curto ‘Guilty Demeanor’, uma música bastante pesada, mas com um andamento um pouco mais lento, o que dá a ela certo ar mais tenso e nervoso. Simone apresenta uma atuação bastante firme, dentro da vibe da música. Aparecem poucos guturais, mas são bem encaixados e colaboram com o todo da faixa.

Mais uma balada. ‘Deep Water Horizon’ tem uma porção a mais de peso, quase em um meio termo entre uma balada convencional e uma música regular. Tem um belíssimo refrão, daqueles de se cantar junto nos shows. O teclado mais uma vez dita o ritmo, acompanhado por orquestrações mais discretas, mas bastante atuantes, tem também alguns bons solos e passagens bastante pesadas. Uma faixa completa e criativa. Em comparação com a anterior, a próxima não é tão original: ‘Stay the Course’ é uma música simples e direta, pesada e com um refrão apenas interessante. Diria ser apenas uma faixa regular de disco do Epica.

Já ‘Deter the Tyrant’ aposta no peso e na simplicidade soando muito mais interessante. Tem riffs rápidos e cortantes muito bons. Que parecem até exóticos de certa forma. Os vocais muito competentes novamente, provendo mais um ótimo refrão a esta já grande coleção. Aqui e ali se ouvem novamente homenagens ao passado da banda, breves narrações, riffs e vocalizes. Esta sim uma faixa de destaque. ‘Avalanche’ faz jus ao nome, e muito. Começa baixa e sorrateira, mas depois desanda numa enxurrada de riffs e de linhas de bateria avassaladoras. Os corais outra vez fazem um trabalho primoroso, Mark e Simone dão show e encaminham o final da audição em altíssimo estilo.

E para fechar com tudo temos a longa ‘Serenade of Self Destruction’. A típica faixa de encerramento, longa, cheia de variantes e nuances; orquestrações e certo quê lírico. Fica definitivamente claro que uma das idéias para este álbum era inserir elementos que remetessem ao passado, nos corais, em alguns riffs e em vários momentos mais climáticos. E conseguiram um ótimo resultado, que se encerra em ápice neste grande faixa.

Analisando as letras nota-se aquilo que comentei lá no começo. Uma abordagem lírica muito inteligente para os problemas do mundo contemporâneo, um aviso e um alerta, para que abramos nossos olhos e mudemos o mundo. Curioso pensar que talvez possamos conectar o tema deste álbum com o do anterior, que falava em construir seu próprio mundo, e assim construir nosso próprio mundo a partir do que já temos; um melhor e muito mais humano.

Se formos analisar friamente, o Epica desde 2007 vem seguindo um tipo de “padrão” na construção do set list dos discos, com músicas de formato similar e em uma ordem quase pré-estabelecida. Bem, em circunstâncias normais eu acharia isso um sério problema e criticaria duramente, porém não posso fazê-lo por uma simples razão: eles se garantem. As músicas não são repetitivas, são originais e inventivas, e apenas se encontram em um contexto de padrão, e por isso não são padronizadas.

Já me alonguei demais e é hora finalizar: é um ótimo disco, que justifica o posto em que a banda encontra no cenário da música pesada mundial. Um disco que se ouve com facilidade, que apesar de longo se deixa fluir naturalmente e não é nada cansativo. Com certeza há de ser um dos discos de destaque nas listas ao fim de ano. Um trabalho esmerado, com o selo de qualidade Epica e Sascha Paeth, e que vai agradar todos os fãs da banda.

Compre que vale a pena!

O Epica é:

Simone Simons – Vocal
Mark Jansen – Guitarra, vocal gutural
Coen Jansen – Teclados, piano
Yves Huts – Baixo
Isaac Delahaye – Guitarra
Ärien Van Weesenbeek – Bateria, vocais guturais

Track List:

1. Karma
2. Monopoly on Truth
3. Storm the Sorrow
4. Delirium
5. Internal Warfare
6. Requiem for the Indifferent
7. Anima
8. Guilty Demeanor
9. Deep Water Horizon
10. Stay the Course
11. Deter the Tyrant
12. Avalanche
13. Serenade of Self Destruction

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Post de 19 de maio de 2012


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Sobre Júlio André Gutheil

Nascido em Feliz, interior do Rio Grande do Sul, de origem alemã e com 20 anos de idade. Grande fã de Blind Guardian, Paradise Lost e Opeth, além de outras várias bandas de diversos estilos distintos. Pretende cursar jornalismo e também se dedicar o máximo possível à crônica do mundo Heavy Metal. Escreve no blog www.metalmeltdowndiscos.blogspot.com. Twitter: @jagutheil.

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