Apocalypse: próximos do Hard, mantendo conexões com o Prog
Resenha - Bridge Of Light - Apocalypse
Por Rodrigo Werneck
Postado em 29 de janeiro de 2009
Coroando a nova fase da banda gaúcha Apocalypse, após seus mais de 25 anos de carreira, chega agora ao mercado seu décimo registro, um novo CD de músicas inéditas: a obra (semi) conceitual "The Bridge Of Light". O ponto inusitado é que o disco foi na verdade registrado num show no Teatro da UCS em Caxias do Sul, RS, ocorrido no final de 2006, e somente agora lançado. O estilo atual os aproxima cada vez mais do hard/heavy melódico, mantendo entretanto as conexões com o rock progressivo que sempre os caracterizou.

Continuando com a formação composta por Gustavo Demarchi (vocais, flauta), Eloy Fritsch (teclados), Ruy Fritsch (guitarras, violões), Magoo Wise (baixo) e Chico Fasoli (bateria), o Apocalypse vem progressivamente (sem trocadilhos) deixando seu som cada vez mais pesado nos últimos anos. Para este novo lançamento, contaram com a participação especial de Hique Gomez no violino e backing vocals em 4 faixas.
O disco foi dividido em 2 partes: "Act I", contando com 6 músicas individuais; e "Act II – The Bridge Of Light", uma longa suíte conceitual composta de 7 partes. Os trabalhos abrem com "Next Revelation", um hardão com riff levado no órgão Hammond e guitarra, boa escolha para a abertura do CD. O refrão contagiante é perfeito para apresentações ao vivo, contando ainda com harmonias vocais de fundo. Solos de Hammond e de guitarra com pedal wah-wah se sucedem no meio da música. Todos esses detalhes são influências assumidas da banda inglesa Uriah Heep, para quem inclusive o Apocalypse abriu show no Rio de Janeiro em 2006 (não coincidentemente, esta música foi composta na véspera de tal evento). Já "Dreamer" mostra a veia progressiva do grupo, numa linha bem próxima ao Marillion clássico (e do som mais característico do Apocalypse), com marcantes linhas de sintetizador de Eloy Fritsch. Destaque também para Gustavo Demarchi, que aqui demonstra toda a sua destreza vocal, com um grande alcance nos agudos. Incrível como, na mesma música, ele pode soar tanto como Fish (ex-Marillion) quanto como Paul Stanley (do Kiss), vocalistas bastante distintos. Basta reparar na parte em que canta "Heroes to make history, heroes from real fantasy", que lembra "The Oath", do disco "The Elder" do Kiss (não estranhamente, o mais "progressivo" da banda).
"Ocean Soul" abre com uma parte instrumental que inclui um bom trabalho de guitarra, flauta, sintetizador e um baixo pulsante. A música engrena em seguida num estilo mais acessível, embora não descartável, mantendo um ótimo trabalho de bateria, flauta e teclados, principalmente. "Last Paradise" se segue, sendo um dos grandes destaques desse primeiro ato. Contando com a participação de Hique Gomez no violino, os arranjos apresentam um cuidado especial. Dividida em 2 partes, uma primeira ("The World Behind") mais rápida e com uma levada meio Kansas, e uma segunda ("The Mourning") mais calma, num dos melhores momentos do disco. A "cama" montada pelo violão de Ruy, a tecladeira de Eloy e os "harmony vocals" impecáveis preparam o terreno para a voz de Gustavo reinar absoluta. Um solo de violino adiciona o toque de classe. O Apocalypse mostra que sabe balancear com maestria peso, destreza instrumental, vocais apurados, boas letras, e uma certa dose de comercialismo na medida certa.
"The Dance Of Dawn" é outra das melhores faixas, mais quebrada e jazzística e com pitadas de ELP, portanto uma oportunidade para a dupla Eloy Fritsch e Chico Fasoli brilhar. Vale ressaltar a precisão de Fasoli, por sinal, que bate nas incontáveis partes do "leviatã" que denomina singelamente de bateria com incrível precisão cirúrgica. O segmento final da música, com o piano brilhantemente conduzido por Eloy Fritsch e ótimas harmonias vocais, é de arrepiar. Mais uma vez, as influências do som clássico do Uriah Heep se casaram de forma perfeita com o som da banda. Isso tudo antes de mais uma bela melodia levada na flauta, com o Hammond ao fundo, se destacar. "Meet Me" inicia com uma marcante levada no baixo de Magoo, e Demarchi cantando num registro mais grave. Uma "mezzo balada", terreno ideal para um pungente solo de guitarra de Ruy Fritsch ganhar o primeiro plano.
O segundo ato, constituído conforme mencionado anteriormente pela longa suíte de 40 minutos de duração que dá nome ao disco, foi criado a partir de uma concepção inicial de Demarchi, que concebeu sua história. Inicia com uma contagiante levada de Gomez no violino, e em seguida o resto do grupo se junta, com teclados e guitarra na melhor escola progressiva à la Pink Floyd, Marillion e Pendragon. Gustavo inicia a narração da jornada do garoto Jimmy, com vocais transbordando emoção, seguido mais uma vez pela guitarra. "... To Madeleine" apresenta novamente uma mistura do estilo clássico do Apocalypse com um maior peso, assim como "Escape", na linha neo-prog porém agregando elementos de prog metal. Demarchi interpreta a letra com a devida energia, de fato passando credibilidade à estória. Grandes viradas de bateria de Fasoli preenchem o final da canção. "Welcome Outside!" é outra que mostra uma nova faceta da banda, com seu riff de guitarra pesado e vocais sombrios, criando um clima intenso. O refrão lembra muito o som clássico do Michael Schenker Group, com Gustavo Demarchi soando bastante como Gary Barden. Isso antes da parte instrumental, claro, onde o andamento da música muda, abrindo espaços para solos de sintetizador.
"Meeting Mr. Earthcrubbs" é outro dos pontos altos do CD, com baixo, flauta e violino antecipando breves, porém viscerais solos de órgão e Minimoog, e prosseguindo por um estilo não muito característico para o grupo. O resultado é ótimo, com a voz de Demarchi lembrando Dio, o sintetizador Minimoog de Eloy numa linha bem Rick Wakeman, e destaque ainda para o violino e a flauta. "Follow The Bridge" é uma típica composição progressiva, juntando aspectos de música clássica, jazz e rock no mesmo caldeirão. Os momentos rápidos e calmos se alternam, provando toda a destreza dos músicos, numa música que fará a alegria dos amantes do progressivo nas apresentações da banda. Certamente, mais um dos "highlights" desse álbum. Fechando a suíte está "Not Like You", uma bela música levada por Ruy no violão, contando ainda com os vocais de Gustavo e mais uma vez com o violino de Hique Gomez.
Embora possa soar um pouco estranha a opção por gravar um disco de inéditas num show, qualquer receio vai por água abaixo após uma primeira audição. O registro ficou de primeira categoria, com ótima qualidade sonora, todos os instrumentos e vocais bastante audíveis, excelente mixagem e masterização. O barulho do público aparece entre as faixas, claro, e em alguns poucos momentos de vibração no decorrer do CD, sem nunca tirar o foco da música em si. A presença do público, no entanto, certamente contribuiu para uma maior energia na performance das músicas. A título de curiosidade, outras bandas brasileiras de rock progressivo já haviam procedido da mesma forma, como por exemplo Os Mutantes em seu disco "Ao Vivo" (de 1976), e mais recentemente o Tarkus e o seu "Ao Vivo Em Niterói" (2006).
A arte de "The Bridge Of Light", criada por Robson Piccin, é belíssima, de muito bom gosto e com uma atmosfera sóbria, criando ao mesmo tempo uma aura de mistério e fantasia. Porém, o grande número de detalhes e (em alguns casos) as fontes escolhidas para os textos teriam surtido melhor efeito nos antigos LPs. A inclusão de todas as letras e de textos adicionais (em inglês), contando a estória da suíte, ajudam na sua compreensão, algo fundamental num trabalho conceitual como este. Aplausos para o Apocalypse, que demonstra que a formação atual está de fato estabilizada, e com um estilo um pouco diferente, porém capaz de agradar tanto aos fãs de progressivo quanto de hard/heavy melódico. Não é à toa que irão representar o Brasil no festival RoSfest ("Rites of Spring Festival") deste ano, nos EUA.
Para se ter uma idéia do material deste disco, há um clipe no YouTube com fragmentos do show no qual o mesmo foi registrado: http://www.youtube.com/watch?v=ODqpQVTADCI .
Tracklist:
Act I
1. Next Revelation
2. Dreamer
3. Ocean Soul
4. Last Paradise
5. The Dance Of Dawn
6. Meet Me
Act II – The Bridge Of Light
7. Prelude - Wake Up Call
8. ... To Madeleine
9. Escape
10. Welcome Outside!
11. Meeting Mr. Earthcrubbs
12. Follow The Bridge
13. Not Like You
Sites:
http://www.apocalypseband.com/
http://www.myspace.com/apocalypsebr
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