Bon Jovi: oito baladas em um disco de rock é demais

Resenha - Lost Highway - Bon Jovi

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Por Thiago El Cid Cardim
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Nota: 4

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Imagino que os fãs de rock mais tradicionalistas devem estar tendo tremeliques à simples menção do grupo de New Jersey. Os mais afoitos, inclusive, devem estar prestes a atirar a cadeira no monitor do computador. Calma, meus caros. Há de se convir que, mesmo que moldado completamente para atingir o mainstream em cheio, o hard rock mostrado em discos como “Slippery When Wet” (1986) e “New Jersey” (1988) é bastante competente. Sim, eu sei que, nas últimas décadas, os comandados do bonitão Jon Bon Jovi enveredaram ainda mais pela seara mais pop da coisa – mas como eu já disse aqui algumas vezes, fazer música pop não significa necessariamente fazer música “ruim”. E o Bon Jovi nunca deixou de fazer rock ‘n’ roll, de uma forma ou de outra. Acertando algumas vezes e errando em outras. É isso que me faz ouvir cada lançamento deles ano após ano, sempre dando uma espécie de voto de confiança ao camarada. Quando eles anunciaram “Lost Highway”, um disco de “country rock” no qual o Bon Jovi abraça suas influências vindas diretamente de Nashville, admito que fiquei curioso. Mas ao enfim ouvir a bolacha, também devo admitir que fiquei deveras desapontado.
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É primordial fazer um interlúdio aqui: estilo musical mais popular dos Estados Unidos, a música country não deve ser em nada associada ao chamado “sertanejo pop romântico” que dezenas de duplas diferentes executam aqui no Brasil e que infesta as nossas rádios desde a metade da década de 80. Quando me refiro à “música country”, estou evocando um estilo variadíssimo, que vai desde a simpática e colorida mistura jazz-blues-folk de Willie Nelson às canções sombrias de Johnny Cash – muito mais roqueiro e cheio de atitude do que muito cabeludo que anda com sua guitarra a tiracolo. Pergunte ao Matanza.

Como era de se esperar, no entanto, o country que Bon Jovi emula em “Lost Highway” (não por acaso, nome de um clássico country do mestre contemporâneo Hank Williams) é aquele tipo de música country menos raiz, menos “interior dos EUA”, menos “tiozinho” e mais, digamos, “limpinho e bom moço” – cristalizado nas figuras de nomes de sucesso como Tim McGraw e o superstar Garth Brooks (aquele mesmo que regravou “Hard Luck Woman”, do Kiss, interpretando-a em programas de TV ao lado da própria banda). E este é o grande erro deste álbum: a opção quase exclusiva por um romantismo rasgado e muitas vezes raso, resultando em um CD com uma cansativa e repetitiva balada depois da outra. Nem o próprio Brooks faria uma barbaridade destas.

Eu consigo entender, por exemplo, uma canção como “Till We Ain't Strangers Anymore”, na qual o vocalista entra no estilo de ser de sua parceira de dueto, LeAnn Rimes (caso você não se lembre, é ela quem canta, no final do filme, a música composta pela protagonista de “Show Bar”). Numa faixa como esta, de fato muito mais country do que rock, não teria como optar por uma saída diferente da canção que arranca o seu coração pela goela. Mas o que dizer de ”Any Other Day”, “Seat Next To You”, “Everybody's Broken”, “The Last Night” e “One Step Closer”, uma seqüência desnecessária e na qual o grupo parece estar repetindo a mesma fórmula de sucesso dos discos anteriores, apenas colocando um temperinho country, um violãozinho mais cru aqui, uma vocalização diferente ali...O resultado, no entanto, é óbvio e dolorosamente infantil. O pianinho de “(You Want To) Make A Memory”, então, lembra de maneira tão assustadora os momentos “intimistas” do Coldplay que, por muito pouco, não parei de ouvir a bolacha aí mesmo. Foi a minha vez de ter tremeliques.

Mas sabe o pior? “Lost Highway” tem lá seus momentos interessantes, que poderiam ter permeado a produção inteira e gerado um disco que satisfizesse, ao mesmo tempo, as fãs descabeladas e gritadoras do cara e aqueles que sentem falta de canções roqueiras como “Livin’ On A Prayer”. A faixa-título abre o disco com um refrão pop daqueles ganchudos, mesclando os riffs grudentos de guitarra de Richie Sambora com um banjo. E dá certo, a bagaça. O mesmo vale para ”Summertime” – que não tem nada de novo ou revolucionário, é 100% o que se conhece do Bon Jovi, mas que dá para sair assobiando logo à primeira audição.

A grande pérola entre as 12 faixas de “Lost Highway”, todavia, é “We Got It Going On”, uma interessante parceria como a dupla country Big & Rich. A guitarra tem um quê de modernosa, mas é “dançante” o suficiente para dominar um estádio lotado. O clima de festa, meio clichê até (“We'll be banging and singing just like the Rolling Stones / We're gonna shake up your souls, we come to rattle your bones”), consegue encontrar um bem-vindo equilíbrio entre o hard rock pop do Bon Jovi e aquela música country que, pelo menos, é mais up, menos melosa e mais cheia de adrenalina, para pular e cantar junto. E eu não devo ser o único a pensar desta forma, já que o diabo da música tornou-se trilha dos comerciais promocionais da AFL (Arena Football League) nos EUA.

Pombas, Bon Jovi. Eu ainda vou com a sua cara. E não fico só escutando suas velharias, já que, vez por outra, me pego ouvindo seus hits mais recentes como “It’s My Life”, “Everyday” e “Have a Nice Day”. Mas colocar sete ou oito baladas em um disco de rock (ou pop rock, como queira) com apenas 12 músicas é um pouco demais, não? Haja romance.

Line-up:
Jon Bon Jovi - Vocais/Guitarra
Richie Sambora - Guitarra Principal/Vocais
Tico Torres - Bateria
David Bryan - Teclado/Vocais
Hugh McDonald - Baixo/Vocais

Tracklist:
1. Lost Highway
2. Summertime
3. (You Want To) Make A Memory
4. Whole Lot Of Leavin'
5. We Got It Going On
6. Any Other Day
7. Seat Next To You
8. Everybody's Broken
9. Till We Ain't Strangers Anymore
10. The Last Night
11. One Step Closer
12. I Love This Town

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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