Osbourne: pesado, mas antes de tudo moderno

Resenha - Black Rain - Ozzy Osbourne

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Por Thiago El Cid Cardim
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Prestes a completar 60 anos, Ozzy Osbourne resolveu sacudir a poeira, dar a volta por cima e retomar o título de Príncipe das Trevas. Ele poderia ter ficado tranqüilão em sua mansão, aproveitando os milhares de dólares que recebe pelos direitos autorais de suas canções solo e também pelas compostas com o Black Sabbath. Curtindo a fama conseguida nos últimos anos com a molecada graças à exposição no reality show The Osbournes (MTV). Sentado no trono de "descobridor de novos talentos" por conta das portas abertas às novas bandas dentro do festival itinerante Ozzfest. Mas o velho Sr. Osbourne queria mais. Enfurnou-se no seu próprio estúdio particular e, quando ninguém mais esperava, saiu de lá com um novo álbum de canções inéditas - o primeiro em seis anos, o nono de sua carreira, sucessor do mediano "Down to Earth" (2001).
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Por mais que, alegadamente, este disco seja o primeiro gravado por um Ozzy 100% sóbrio, não pense que você vai ouvir em "Black Rain" um senhor de idade interpretando um rock 'n' roll todo certinho e bonitinho, para os papais e mamães da América. O álbum é sombrio, introspectivo e reflete um compositor que, além de olhar bastante para a sua própria vida, abriu os olhos para a atual situação do mundo. É uma bolacha pesada, porradeira mas, antes de tudo, moderna. Esqueça aquela sonoridade datada sobre a qual o frontman poderia se apoiar facilmente para satisfazer àqueles velhos fãs reclamões. Talvez tenha sido a convivência com as novas gerações de bandas do Ozzfest. Mas as guitarras do sempre companheiro Zakk Wylde parecem estar pesando ainda mais, trazendo até mesmo ecos de seu projeto solo, o Black Label Society - que tal ouvir o riff selvagem do refrão de "Silver"? E a levada das seis cordas de "Countdown's Begun" chega a ser quase thrash.

Wylde pode ter negado aqui e ali, mas sabe-se bem que os fãs mais pentelhos devem ficar com o pé atrás por conta dos flertes com o eletrônico e o industrial em alguns momentos, bebendo claramente na fonte do Nine Inch Nails. Sinceramente, não há mal nenhum nisso - e, cá entre nós, faz até bem para a sonoridade deste "novo" Ozzy. Talvez uma das mais ousadas (e uma das melhores do disco), a apocalíptica faixa-título tem direito até a uma gaitinha country no começo e a uma coisa meio árabe lá pelo meio da faixa. A crítica urbana de "God Bless The Almighty Dollar" combina perfeitamente com seus ares de (não morra do coração, caro headbanger veterano!) new metal - e nela caberia facilmente um dueto com Jonathan Davis, do Korn. O mesmo pode se dizer da faixa de encerramento "Trap Door", quase um mistura de System of a Down com os primeiros discos do próprio Ozzy. Pecado? Pecado seria se ele resolvesse se "reinventar" para a molecadinha, como fez um certo Metallica em "St.Anger" (lá estou falando de novo do Metallica - prometo que não é proposital!). "Black Rain" soa moderno sem soar forçado. Como se o "godfather of heavy metal" resolvesse pincelar seu trabalho com ares de novos tempos, uma mão de tinta aqui e ali.

Músicas como "Civilize The Universe" (Freedom is just Mens' invention / And a soldier is just a slave / Self inflicted. So addicted / Our habits are hard to break) deixam límpida a influência que episódios como a Guerra do Iraque tiveram sobre as letras, com um nítido olhar crítico sobre a polícia do mundo. Mas é claro que a batalha de sua esposa Sharon Osbourne contra o câncer também teria espaço, seja na semibalada para corações rasgados "Lay Your World on Me" ou na deliciosa "Here For You", material para os cabeludos chorosos, uma daquelas baladas metálicas para entrar para a história, com violino e um piano tristonho que deixaria Amy Lee roendo as unhas pintadas de preto de tanta inveja.

Por mais que, no posto de vocalista do Black Sabbath, eu ainda prefira o incansável Ronnie James Dio, a importância histórica de Ozzy é inegável. E ele construiu clássicos do rock não só ao lado de Iommi e sua trupe, mas também sozinho - vide canções como "Mr.Crowley", "No More Tears", "Bark at The Moon" ou "Crazy Train", só para citar os grandes hits. Assim sendo, "Black Rain" é um disco respeitável e digno, que pode servir para recuperar a imagem do Ozzy roqueiro, gritando ao microfone e chacoalhando os cabelos, que nos últimos anos foi substituída pela imagem daquele Ozzy engraçado, gago e trêmulo, brigando com os filhos e enfrentando o dedo em riste da insuportável Sharon. Não é à toa que ele abre o disco justamente com "I'm Not Going Away" e a mais do que sintomática "I Don't Wanna Stop", cuja letra autobiográfica e refrão irresistível prometem uma longa carreira pela frente. O velho mestre merece.

Line-Up:
Ozzy Osbourne - Vocal
Zakk Wylde - Guitarra
Blasko - Baixo
Mike Bordin - Bateria

Tracklist:
1. Not Going Away
2. I Don´t Wanna Stop
3. Black Rain
4. Lay Your World On Me
5. God Bless The Almighty Dollar
6. Silver
7. Civilize The Universe
8. Here For You
9. Countdown´s Begun
10. Trap Door

Gravadora: Epic

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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