Resenha - Nevermind - Nirvana
Por Maurício de Almeida (Maquinário)
Postado em 03 de fevereiro de 2005
Falar sobre "Nevermind" é falar sobre quase toda uma cultura, um período onde foram colocados em xeque alguns valores comportamentais e algumas angústias reprimidas por "Thriller" ou "Like a virgin" que atormentavam as rádios, dia e noite.
Não há como negar o impacto causado pelo Nirvana quando lançou seu segundo álbum, o primeiro por uma grande gravadora. O hard-rock já havia se tornado uma paródia de si mesmo, e aqueles cabelões enormes ao lado de solos de guitarras enormes e dos enormes falsetes deixavam de inovar, caindo na mesmice. E o Axl Rose... Bom, o Axl Rose sempre foi o Axl Rose. O início das pré-produzidas 'boybands' que viriam assombrar o mercado em meados da década de 1990 já apontava dois nomes certos: Madonna e Michael Jackson. Suas danças ensaiadas e as músicas vergonhosamente pop marcaram seu lugar no universo musical, porém chegaram a tal ponto de estagnação que mesmo que não quisesse, o mercado precisava de sangue novo. Mas onde encontrar? Uma nova Madonna ou um novo Michael Jackson não seria a solução, afinal, eram eles a estagnação do mercado fonográfico. O jeito foi procurar por pequenos movimentos culturais que teimavam em aparecer nos mais variados cantos do mundo.
Foi então que a cinzenta Seatlle surgiu, possuidora de uma movimentação musical que, contradições à parte, poderia se tornar o pote de ouro no fim do arco-íris. E se tornou. Não apenas Nirvana, mas Pearl Jam, Mudhoney, Soundgarden, Alice in Chains entre outras tantas bandas saíram de lá conquistando uma legião de fãs que jamais apareceriam nas estatísticas de pesquisa de opinião de qualquer gravadora daquela época. A juventude via o muro cair, a Aids surgir, toda uma nova configuração social se formar, mas ninguém parecia perceber que falar sobre virgens, rituais satânico-farrofas ou mostrar clipes com lobisomens ou trovões já não correspondia mais com os anseios de toda uma massa de pessoas, angustiadas por algo que não sabiam o que era, reprimidas por algo tão desconhecido quanto ao que reprimia. Era preciso um novo guia, um novo ídolo, pois Jim Morrison, assim como Jimi Hendrix ou Janis Joplin já havia morrido ha décadas, e mesmo se estivesse vivos, a luta deles era outra, contra o Vietnã, e não contra esse inimigo invisível que assolava a juventude da década de 1990.
Os ídolos são, por excelência, tão problemáticos quanto seus seguidores. A história de Kurt Cobain cairia como uma luva, afinal, ele era tímido, tinha problemas familiares, de saúde e sua relação com a realidade não mudava uma vírgula do que se via não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil, por exemplo, que enfrentava a redemocratização de maneira desastrosa. Não havia dúvidas de que Cobain seria a voz que guiaria esta juventude, entretanto, mesmo sendo um movimento premeditado, nem os engravatados das gravadoras podiam prever o que estava para acontecer. Na realidade, temos em "Nevermind" dois lados de uma mesma moeda, que não apenas gera discussões infindáveis, mas que caracteriza a adaptação forçada de uma realidade.
Se o Nirvana foi ou não a melhor banda dos anos 90, nunca saberemos, da mesma maneira que nunca chegaremos ao consenso de quem foi melhor: Beatles ou Rolling Stones. O fato é que Nevermind trouxe de maneira definitiva o underground ao mainstream, causando uma confusão em ambas as regiões. É claro, por exemplo, que as guitarras de Nevermind são distorcidas de maneira diferente das guitarras de "Bleach", e não apenas devido ao gosto pessoal de Cobain. Elas fazem parte de um apanhado de alteração pelas quais passaram o som da banda ao, teoricamente, subirem um degrau. Tal fato não simboliza venda de ideais e/ou qualquer outro tipo de perda da essencial que move as paixões musicais, mas apenas a adaptação pela qual teve que passa o underground quando adentrou os caminhos do mainstream. Da mesma maneira que colocar nas capas das revistas, abrir programas de televisão e canais das rádios para a inconstância do underground e das pessoas que faziam parte dele também foi uma adaptação pela qual teve que passar o mainstream. A pista é de duas mãos. O mercado precisava de alguém que desse fim na estagnação, e encontrou, mas teve que arcar com esse mesmo alguém evidenciando várias das angústias que, até certo ponto, não são tão boas assim para o próprio mercado.
Se as guitarras de "Smells Like Teen Spirit" rendiam milhares a Geffen, então gravadora da banda, ao mesmo tempo ela expunha em seu refrão, "Here we are now/ entertain us" (algo como "Aqui estamos, entretenha-nos"), a superficialidade da relação juventude/mercado fonográfico: 'já que estamos fudidos, nos dê algo para matar o tempo, pois não há mais nada como aqueles idos anos 70 nos quais eu nem era nascido'. E não pensem ser o Nirvana esse 'algo'. Muito pelo contrário, ele era a voz desta juventude. Assim como era a voz mentirosa da juventude jurando não ter uma arma, pois a escondia por não saber para onde apontar, como no refrão de "Come as you are"; assim como era a voz da juventude repetindo consigo que 'precisava achar uma saída, uma saída melhor, melhor esperar' ("Territorial Pissings"); assim como a voz da juventude premeditando sombriamente que 'alguma coisa estava a caminho' ("Something in the way").
Dessa maneira, "Nevermind" talvez figure entre os discos mais importantes da década de noventa, pois, além de transformar toda uma realidade, alterando relações sociais ou comerciais, retrata a realidade daquela época como poucas outras obras conseguiram fazer. E, independente dos 10 milhões ou dos dez fãs, o importante é que aqueles dez anos estão ali, naquelas doze faixas, como uma fotografia capaz de não apenas mostrar a imagem, mas, principalmente, transmitir a emoção.
Outras resenhas de Nevermind - Nirvana
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O hit do rock nacional que boa parte do Brasil não sabe o que significa a gíria do título
Twisted Sister confirma que fará shows com Sebastian Bach nos vocais
Dave Mustaine admite que pode não ter outra chance de falar com James Hetfield e Lars Ulrich
O melhor riff da história do heavy metal, segundo Max Cavalera (ex-Sepultura)
A lenda da banda que foi batizada por suas músicas durarem menos do que 1 minuto
A faixa definitiva do Motorhead não é "Ace of Spades" nem "Overkill", de acordo com Rob Halford
As cinco melhores músicas do Iron Maiden, segundo o Loudwire
Com orçamento apertado na atual turnê, Incantation pede comida aos fãs
Dave Mustaine afirma que não há motivos para não ser amigo dos integrantes do Metallica
As cinco piores músicas do Iron Maiden, segundo o Loudwire
Edu Falaschi anuncia "Mi'raj", álbum que encerra sua épica trilogia
O primeiro disco de heavy metal que Mikael Åkerfeldt comprou
Em biografia, atriz de Hollywood admite ter dispensado Brad Pitt por Sebastian Bach
Os 11 melhores letristas do black metal de todos os tempos, segundo a Loudwire
Nazareth é a primeira atração confirmada do Capital Moto Week 2026
Assista Ivete Sangalo cantando "Dead Skin Mask", do Slayer
Estudo revela as bandas com músicas mais propensas a entristecerem seus fãs
Kiko Loureiro lembra desafios do Angra: "O Andre Matos sumia e aparecia dois meses depois"




O guitarrista britânico que Kurt Cobain não teria interesse em estudar, segundo Zakk Wylde
A banda que Kurt Cobain viu ao vivo mais de 100 vezes
Por que Kurt Cobain detestava Phil Collins, Axl Rose e o Grateful Dead
O único rockstar que Kurt Cobain disse admirar de verdade; "Eu não pedi autógrafo"
Nirvana - a escolha ousada de Kurt Cobain no Unplugged MTV
Como o grunge mudou o cenário do heavy metal nos anos 1990, segundo Dave Mustaine
A banda grunge de quem Kurt Cobain queria distância, e que acabou superando o Nirvana
A música surpreendente que "peitou" o sucesso do grunge no início dos anos 90
Clássicos imortais: os 30 anos de Rust In Peace, uma das poucas unanimidades do metal



