Resenha - Bleach - Nirvana

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Por Maurício de Almeida (Maquinário)
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Como quase todos os primeiros álbuns, "Bleach", do Nirvana, não poderia ser diferente: cru, energético, sincero, essencial. A grande maioria dos primeiros álbuns, principalmente de bandas que tiveram o punk como inspiração, possuem esta sinceridade, desde sua arte nas capas e encartes até suas músicas. É certo que muita coisa saiu como saiu por falta de possibilidade, entretanto, o essencial de uma banda não seria visível caso não fosse modelado assim. Os primeiros disco são, na maioria das vezes, uma prévia do que podemos esperar pela frente. É claro, muitas vezes somos surpreendidos pelo futuro, mas pode apostar que muitas características que marcam grandes discos de estréia estarão no desenvolver da carreira.
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Acusados pela revista Rolling Stone de deflagrarem a revolução punk de 1991, o Nirvana só conheceu o fantasma que aterrorizou Kurt até o último de seus dias chamado sucesso após o lançamento de seu segundo álbum, o rodado Nevermind. Mas como toda história tem um começo e Lobato não foi muito com a cara do expressionismo de Malfatti numa primeira vista, existe "Bleach", o primeiro disco do Nirvana: motivo de estranheza para fãs menos despreocupados, nascimento de um movimento, para fãs mais fervorosos. Segurando o pêndulo, "Bleach" é o Nirvana em fase germinal, afoito pela chance dada pela Sub Pop, mas sem saber ao certo para onde correr.

A primeira coisa que chama a atenção para este disco é o como a maioria das pessoas chegou a ele. Quebrando a regra cronológica, mas seguindo a lógica de mercado, a maioria conheceu o Nirvana através do difundido Nevermind. Na verdade, seguindo a lógica do mercado, é bem capaz que nem ficássemos sabendo de "Bleach" se Nevermind não fosse o que foi. Independente do que poderia ou não ter sido, fato é que após setembro de 1991, Seattle e todo o movimento grunge surge no mapa mundial da música. Nova revolução punk talvez seja exagero, mas que ocorreram grandes mudanças no cenário musical, isto sim é inegável. Michael Jackson e Madonna dominavam o que era conhecido como música pop ao redor do mundo. Isso até aparecer uns caras que se vestiam comumente, não se importavam muito com o número de toalhas brancas no camarim e quebravam o palco inteiro. Tudo isso, é claro, após um show que distribuía gritos, microfonias e o desabafo de toda uma juventude angustiada por não saber para onde ir. Sim, havia toda uma produção por trás disso, e sim, havia grandes gravadoras que distribuíam singles para grandes rádios. Mas antes de sair por aí perguntado que merda de revolução punk é essa, não se esqueça de um tal de Malcolm McLarem, o cara que juntou alguns outros caras que não sabiam direito o que estava acontecendo, pois estava claro que dali sairia dinheiro. Então, antes de dizer que 1977 foi o ano, analise a situação como um todo.

Voltando a 1989, "Bleach" é recheado não apenas de boas músicas, mas também (e principalmente) lendas, pois todo primeiro disco é cheio delas. A primeira delas diz respeito ao título do álbum. Ao pé da letra, a tradução seria "alvejante", mas conforme rezam alguns, "Bleach" veio de uma campanha para que usuários de drogas injetáveis desinfetassem as agulhas, a fim de evitar a Aids. O slogan dessa tal campanha era "Bleach your work". Outra história que ronda a estréia do Nirvana é o fato de Jason Everman, creditado como guitarrista no disco, não ter gravado uma só nota, mas apenas patrocinado os famosos U$606,17 da produção do disco. De qualquer maneira, o cara com uma guitarra no canto direito da capa é o próprio, e mesmo que não tenha participado musicalmente do disco, ele está gravado na história da banda, assim como Tracy Marander, possível responsável pela foto da capa, namorada de Cobain no início de sua carreira e a 'girl', de "About a girl". Para terminar a seção curiosidades, o disco deveria se chamar "Too many humans", mas por algum motivo, acabou ficando "Bleach" mesmo.

Gravado em dois meses, "Bleach" dá um bom retorno ao selo, vendendo pouco mais de trinta mil cópias. E não é para menos: "Bleach" não bate Nevermind, é claro, mas é uma peça fundamental na coleção de quem gosta de música. Não só por seu valor histórico, mas por sua qualidade musical. Um disco cru, guitarras de riffs marcantes, que deixam claras a influências do punk e do metal setentista, como Black Sabbath, por exemplo, no som da banda. Os vocais de Cobain, desde já chamam a atenção, seja por seus berros peculiares, ou pela sinceridade transmitida em momentos de total êxtase como em "Negative Creep" ou na calmaria dos primeiros versos de "About a girl". Mesmo Kurt dizendo que as letras foram feitas às pressas, "só para ter o que cantar", como respondeu em várias entrevistas, notamos aqui uma das características mais marcantes de Cobain como compositor: letras auto-biograficas com pesada carga emocional. Prova disso é freudiana "Floyd the Baber", onde fica clara a aversão que Kurt tem por sua cidade natal, Aberdeen, ou a sensível "About a girl", um pedido de desculpas, como dito acima, dedicado a sua então namorada Tracy Marander.

Muito embora "Bleach" tenha sido gravado as pedaços - "Floyd the barber", "Papers cuts", "Love buzz" e "Big Cheese" foram gravadas como compactos, sendo aproveitadas no álbum -, o disco é consistente, deixando transparecer uma certa coerência no som da banda. Ou seja, as canções, mesmo gravadas separadamente, eram claramente da mesma banda, e poderiam estar num mesmo disco, fato que acabou ocorrendo. Algumas dessas canções provaram sua resistência a grandes sucessos permanecendo no set-list da banda mesmo após anos de seu lançamento. Não por acaso "Blew", "About a girl" ou "Negative creep" constaram nos últimos shows da banda, sendo que "About a girl" abre o MTV Unplugged, última aparição televisiva do grupo de Seatlle. Uma característica marcante das composições deste primeiro disco é que antes dos arranjos extremamente grudentos de Nervermind, "Bleach" - que também possui arranjos grudentos, mas não como seu sucessor - mostra um Nirvana mais experimental, mais pesado, ou, como dizem alguns, "mais verdadeiro". "Blew", "Papers cuts" e "Big cheese" talvez sejam os melhores exemplos para isto.

Só mais uma curiosidade: o primeiro single da banda foi "Love Buzz", uma música no mínimo curiosa. Não por sua letra nem por seu arranjo, mas por sua origem: esta música é de um grupo holandês desconhecido da maioria das pessoas chamado "Shocking Blue". Além de cortar metade da letra, o Nirvana reinventou a música com guitarras distorcidas, mas mantendo a base como era originalmente. Servindo até como metáfora, a reinvenção deste primeiro single coincide também com uma séria de reinvenções pelas quais passaram a banda neste período inicial de sua carreira. Foi durante a turnê de "Bleach" que a banda começou a ter problemas com sua formação. Muitos (mesmo) bateristas passaram pelo Nirvana até fixarem aquele que gravaria “Bleach” e seria proprietáriodas baquetas: Chad Channing. Entretanto, quando começaram os shows pós-Sub Pop, Channing já não estava agradando muito. Retirado da banda, alguns outros como Dale Crover, do Melvins ou Dan Peter, do Mudhoney passaram por ali, mas apenas em meados de 1990, Dave Grohl assume definitivamente a bateria do Nirvana, deixando para trás sua banda, o Scream.

Formação fechada, novo empresário, turnê, músicas novas, gravações e um contrato com a DGC, da gravadora Geffen. A partir daqui vemos nascer o tão falado/aclamado/etc/etc "Nevermind", segundo álbum da banda, aquele mudaria o cenário mundial da música. Daqui para frente a história já foi contada milhares de vezes, porém, para quem - como Gregório de Matos - acredita que o todo sem a parte não é todo -, "Bleach" está aí para mostrar o começo desta revolução que já conhecemos.

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