Resenha - Testimony - Neal Morse
Por Daniel Dutra
Postado em 31 de março de 2004
Nota: 9 ![]()
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Terceiro disco solo de Neal Morse, o primeiro desde que saiu do Spock's Beard, Testimony seria um trabalho perfeito não fosse um único porém: a pregação. Tudo bem, Morse aceitou Jesus no coração e hoje freqüenta o Christian Gospel Temple, mas não dá para engolir a mensagem de que é o único caminho e só assim podemos encontrar o sentido da vida. A concepção religiosa chega mesmo ao extremo de renegar o passado, incluindo o que de ruim foi feito - e olha que as letras são uma autobiografia. Se fosse tão simples assim, bandido deveria receber o perdão divino ao se converter da noite para o dia.

Musicalmente, no entanto, o CD duplo é um bálsamo. Morse manteve a deliciosa veia pop de seus dois primeiros trabalhos - Neal Morse e It's Not Too Late - ao mesmo tempo em que mergulhou fundo no rock progressivo que fez do Spock's Beard um dos melhores nomes do estilo em muitos anos. Dividido em cinco suítes, Testimony traz o dono da festa mostrando a habitual categoria nos teclados e se saindo muito bem também na guitarra e no baixo (quase todas as partes foram gravadas por ele). Esperto, se cercou de convidados especiais, com destaque para um inspiradíssimo Mike Portnoy (batera do Dream Theater).
As nove divisões de Part One mantêm o nível lá em cima, mas é impossível não fazer alguns destaques. A começar por Overture Nº. 1, com uma linha de baixo à la Yes (inclusive no timbre) e ótimas mudanças de andamento, com um deles lembrando o tema de "Flash Gordon" composto pelo Queen. California Nights tem belas melodias vocais (um dos grandes destaques de Testimony, diga-se), Colder in the Sun prova que o pop pode e deve ser bem tocado e trabalhado, Sleeping Jesus tem um quê de Led Zeppelin e The Promise vai do progressivo ao ritmo latino com desenvoltura, incluindo um ótimo solo de violão flamenco.
Part 2 começa com a excelente Overture Nº. 2 e seu grande arranjo de cordas, ficando mais pop em Break of Day e Power in the Rain, esta com nítida influência de Marillion. Somber Days mostra o ótimo trabalho do percussionista Glenn Caruba e outro convidado, o guitarrista Kerry Livgren, rouba a cena em Long Story, com o eficiente acento Beatles. A orquestrada Transformation dá início a Part 3, que tem um eficiente jogo de metais em Ready to Try, cortesia de Jim Hoke (sax) e Neil Rosengarden (trumpete). A country Sing it High traz como curiosidade a participação do "irmão" Steve Farmer, pastor do Christian Gospel Temple, e sua esposa, a "irmã" Becky Farmer.
Com ares de Beatles e Yes, a ótima Moving in My Heart dá início a Part 4, que segue com a bonita balada I Am Willing e a excelente e mais progressiva In the Middle. The Storm Before the Calm, por sua vez, é simplesmente maravilhosa. Levada meio mambo, trabalho impecável de Morse ao piano e um solo de sax de Mark Leniger de tirar o fôlego. Tudo acompanhado por um Portnoy espetacular e um jogo de vozes de muito bom gosto. Aliás, justiça seja feita: os backing vocals de Pamela Ward, Aaron Marshall e Rick Altizer - principalmente as duas primeiras - foram um verdadeiro achado.
Mais uma bela balada, Oh, to Feel Him tem caprichados backings gospel (aqui com a participação de Terry White e Gene Miller). God's Theme ganhou o capricho esperado pelo título e ficou um bonito tema movido pela guitarra, enquanto Oh Lord My God é simplesmente mais rock'n'roll, musicalmente a mais simples de todo o disco. Testimony foi lançado ainda numa edição especial e limitada contendo um CD bônus. São duas faixas, ou quase. The Fang... Sings! é apenas Portnoy "cantando", por isso vá direto para a excelente Tuesday Afternoon/Find My Way Back Home. Mais do que indicado aos fãs de progressivo, o novo álbum de Morse é um presente aos que gostam de música bem trabalhada, com arranjos caprichados e uma agradável acento pop.
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