Resenha - Wildflowers - Tom Petty

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Por Guilherme Rodrigues
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Julgar os trabalhos mais recentes de Tom Petty sem um traço de condescendência é aquilo que a gente pode chamar, sem medo, de "impossível histórico". Desde 1976, esta figura admirável (e aqui já entrego os pontos quanto à isenção da opinião) construiu uma carreira absolutamente irrepreensível, trazendo na bagagem obras-primas do quilate de "Damn The Torpedoes" (1979), "Hard Promises" (1981), "Southern Accents" (1985), "Let Me Up (I've Had Enough)" (1987), "Full Moon Fever" (1989), entre outros. Sempre se reinventando no pop-rock'n'roll.

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Para um roqueiro de bagagem setentista, Petty soube manejar, como poucos, as novas mídias e meios de veiculação de seu trabalho (a exemplo dos videoclipes) sem descuidar da qualidade de seu pop-rock. Certamente o surgimento dessas novas linguagens e meios foi um desafio artístico-estilístico que os 80's impuseram e a que muitos ícones dos 70's não resistiram (a exemplo de David Bowie - que do disco "Tonight", 1984, em diante, teve um anticlímax à altura de suas pérolas nos 70 - e de Stevie Wonder - depois de "I just call to say I love you", que é praticamente um atentado terrorista, o "maravilha" não viu mais nada. Pudera!). E Petty não só passou incólume pelos 80's, segundo alguns a "década maldita", como conquistou o respeito e admiração de grande parte das novas gerações de público e de compositores, sendo (junto de Young, Dylan e Gram Parsons) grande referência para Jay Farrar, Jeff Tweedy e Mark Olson, os grandes expoentes do chamado "no depression movement", a vertente que, desde o fim dos 80's, vem mantendo a chama do rock acesa (totalmente anacrônico isso, mas vá lá) nos escuros salões do pop-rock industrializado e/ou pseudoalternativo.

Contudo, quando se ouve "Wildflowers" (1994), o primeiro trabalho de Petty para a Warner (dizem que seu contrato se deu na base dos 20 milhões de dólares), "vê-se" que condescendência definitivamente não é adjetivo que se aplique no julgamento do disco.

Vindo de dois discos super-produzidos nos quais fica evidente (beirando à chatice) a influência espartano-beatlemaníaca do produtor Jeff Lynne ("Full Moon Fever" e "Into The Great Wide Open"), em "Wildflowers" Petty optou por uma sonoridade mais acústica, orgânica, quase country-folk - demais disso, essa sonoridade sempre foi o ideal estilístico para o rock de Petty -, emoldurando com perfeição a temática - num certo sentido, quase espiritualista - aludida nas letras: viver e merecer uma vida com simplicidade, mesmo sendo um "rock star" ("Wildflowers" e "It's Good to be King", esta última uma homenagem a Elvis com um arranjo de cordas por Michael Kamen que lembra os melhores momentos de George Martin); não à estagnação, seguir adiante sempre ("Time To Move On", que também tem cordas sutil e excepcionalmente bem arranjadas por Kamen); estar só e melancólico nem sempre são "coisas" ruins, desde que você esteja "bem acompanhado" ("You Don't Know How It Feels"); aceitar os enganos e seguir o fluxo ("It's Only a Broken Heart", uma das mais belas composições de Petty); escapismo ("You Wreck Me")... enfim, personagens bem construídos vivendo estórias bem contadas. É nisso que Petty sempre foi mestre: contar estórias... sem julgamentos clericais... ao revés, sempre mostrando empatia com os "losers" (porém, sem piedade) e injetando feeling com sua voz despida, como se fora testemunha ocular do conto que conta. Por vezes (como em "Broken Heart" e "Wake Up Time", os momentos mais marcantes do disco), ele é o personagem, numa auto-análise - literalmente e sem pieguices - de partir o coração (ouça as canções e tente me contradizer!).

A produção ficou a cargo de Rick Rubin - que já produziu desde Beastie Boys e Slayer, passando pela obra-prima do Cult ("Electric") a Johnny Cash e Jayhawks. Em "Wildflowers", seu melhor trabalho foi deixar Petty à vontade (convenhamos, Tom não precisa de muitos "conselhos").

"Wildflowers" é o retrato de Petty no auge de sua maturidade artístico-estilística, sereno, confiante, dominando todos os truques de estúdio e "travelings" imagísticos, literários (sim, por que não literários?) e rítmicos (intercalando folk-rocks, baladas-country, com rocks) e mostrando interação quase genética com seus músicos - alguns convidados ilustres como Ringo Starr e Steve Ferrone e Lenny Castro juntam-se aos Heartbreakers presentes, Benmont Tench e Mike Campbell que, redundância, dão um show particular nas teclas e nas guitarras, respectivamente.

O álbum termina com o belo verso "Cause it's wake up time... it's time to open your eyes... and rise... and shine..." "Wildflowers" mostra que a música de Petty, em seu cinqüentenário, continua tão visceral, instigante e necessária quanto aquela presente em seu disco de estréia, há 25 anos . Uma aula de rock.

Keep rockin , Tom!

(É lamentável que no Brasil, Petty seja um ilustre desconhecido e tenha, em versão nacional, apenas um greatest hits da vida).




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