Resenha - Tommy - Who
Por Raul Branco
Postado em 01 de setembro de 2000
Quando falam em ópera-rock, o que é que lhe vem à cabeça? Provavelmente você respondeu "Tommy". A idéia pioneira de Pete Townshend de contar em formato de ópera com música de rock a história de um garoto surdo, mudo e cego que se liberta das limitações através de mesas de fliperama (pinball) foi evoluindo aos poucos na cabeça do guitarrista, incitado por um comentário de seu empresário Kit Lambert. Antes, o grupo The Kinks já havia feito um disco, "Arthur", contando, através das músicas, uma pequena história e o próprio The Who havia composto "A Quick One" e "Rael", quase como um prelúdio para que os fãs e crítica se preparassem para o que viria. O próprio enredo teve um grande desenvolvimento, desde a primeira entrevista de Pete sobre o tema, concedida ao jornal Rolling Stone, até seu lançamento: originalmente, o que lhe fazia transcender era a música, mas como Nic Cohn - um importante crítico da cena rock dos anos 60 - era maníaco por pinball, Townshend alterou sua história e, sem querer, conseguiu nisso um de seus grandes trunfos.

"Tommy" foi gravada em 8 pistas pelo The Who, em 1969, regravada com orquestra e um elenco de superstars do rock à época (Roger Daltrey, Steve Winwood, Ringo Starr, Maggie Bell, Rod Stewart e Richie Havens, entre outros), adaptada para o cinema por Ken Russell (novamente com Daltrey no papel-título), remontada na Broadway e executada, centenas de vezes, pelo The Who em seus concertos (inclusive no lendário show em Leeds, que valeu outro álbum antológico na carreira do quarteto).
Ambientada nas décadas de 20 e 30, "Tommy" inicia-se quando um oficial inglês, o Capitão Walker, é dado como morto no mar durante a Primeira Guerra Mundial. Sua mulher, que ele deixara grávida em casa, dá à luz a um menino e, crendo-se viúva, arranja um amante. O capitão, três anos após o fim da guerra, finalmente consegue voltar para casa e, flagrando a esposa e seu amante na cama, o mata, sob o olhar assustado de seu filho. Com ameaças, ele o proíbe de contar a alguém o que aconteceu e o garoto fica, causado pelo choque, cego, surdo e mudo. Ano após ano, nada do que seus pais fazem, para seu desespero, consegue tirar o garoto do estupor em que se encontra. Tommy vai passando, nesse período, por toda a sorte de sofrimentos: é levado a uma prostituta que o droga, apanha repetidamente do primo e é abusado sexualmente pelo próprio tio. Seu único contato aparente com a realidade é na mesa de fliperama, até que um especialista percebe seu real problema, ao vê-lo fitando sua própria imagem num espelho. Ao quebrá-lo, ele liberta Tommy que, julgando-se um iluminado, cria uma nova seita e alcança popularidade por onde quer que pregue. Suas regras, porém, são duras demais e seus discípulos acabam se rebelando contra o Novo Messias.
Musicalmente, "Tommy" é magistral; nenhuma outra tentativa no gênero trouxe tantas canções com tamanha excelência. Desde sua abertura, instrumental, onde os temas da ópera são apresentadas ao ouvinte, até a apoteótica "We’re Not Gonna Take It", que traz os famosos versos "See me, feel me / Touch me, heal me", os temas se sucedem enlevando o ouvinte. Nenhuma canção, porém, é tão conhecida quanto "Pinball Wizard", brilhantemente interpretada, mesmo em suas regravações, tanto por Rod Stewart quanto por Elton John. O curioso é que Pete, logo após escrevê-la, horrorizou-se com sua própria criação e considerou-a a pior canção de sua carreira. Posteriormente, a saga de "Tommy" sofreu adaptações muito significativas, como levar os fatos do fim da I Grande Guerra para a II Guerra Mundial, Tommy ter nascido no dia da vitória, o Capitão Walker ser piloto da RAF e, principalmente, ter sido o amante a matar o pai.
Na obra original, o The Who sozinho faz o papel de uma orquestra e se sai muito bem: Pete Townshend toca guitarra, violão e teclados e seus vocais são sempre excelentes, solando ou como segunda voz; John Entwistle, além do baixo e do vocal, mostra que suas aulas de trompa na infância não foram um desperdício; a bateria explosiva e pulsante de Keith Moon assume, em algumas passagens, um caráter de percussão sinfônica e Roger Daltrey incorporou a personagem Tommy de tal maneira que nunca se cogitou em outro nome para viver seu papel até a montagem na Broadway.
Pete compôs quase todas as músicas, à exceção de "Cousin Kevin" e "Fiddle About" (Entwistle) e "Tommy’s Holiday Camp" (Moon). Houve um acréscimo que caiu como uma luva para a história: "Eyesight To The Blind (The Hawker)", uma música de 1951 de Sonny Boy Williamson. As demais são: "Overture", "It’s A Boy", "1921", "Amazing Journey" (a primeira música composta e gravada do disco), "Sparks", "Christmas", "The Acid Queen", "Underture", "Do You Think It’s Alright?", "Pinball Wizard", "There’s A Doctor", "Go To The Mirror!", "Tommy Can You Hear Me?", "Smash The Mirror", "Sensation", "Miracle Cure", "Sally Simpson", "I’m Free", "Welcome" e "We’re Not Gonna Take It".
Após a mixagem final e o corte do vinil, Kit Lambert, alegando ser uma obra-prima, queimou as fitas. Muitos fãs, até hoje, ainda consideram o som do disco original superior às suas reedições. De qualquer maneira, "Tommy" é um dos discos mais importantes da história do rock e, como escreveu o crítico musical do The San Francisco Examiner sobre quem achava que considerar "Tommy" uma obra de arte um exagero: "Exagero? Eu não posso exagerar a perfeição!"
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O lendário álbum dos anos 1970 que envelheceu mal, segundo Regis Tadeu
Bruce Dickinson sobe ao palco com o Smith/Kotzen em Londres
A música mais ouvida de cada álbum do Megadeth no Spotify
As 11 melhores bandas de metalcore progressivo de todos os tempos, segundo a Loudwire
O grande erro que Roadie Crew e Rock Brigade cometeram, segundo Regis Tadeu
A maior canção de amor já escrita em todos os tempos, segundo Noel Gallagher
Churrasco do Angra reúne Edu Falaschi, Rafael Bittencourt, Kiko Loureiro, Fabio Lione e mais
Max Cavalera celebra 30 anos de "Roots" com dedicatória especial a Gloria Cavalera
Por que a voz de Bruce Dickinson irrita o jornalista Sérgio Martins, segundo ele mesmo
Nenhuma música ruim em toda vida? O elogio que Bob Dylan não costuma fazer por aí
Ex-Engenheiros do Hawaii, Augusto Licks retoma clássicos da fase áurea em nova turnê
10 clássicos do rock que soam ótimos, até você prestar atenção na letra
Slash aponta as músicas que fizeram o Guns N' Roses "rachar" em sua fase áurea
Paul Rodgers fala sobre rumores de seu estado de saúde atual
As melhores músicas de todos os tempos, segundo Dave Gahan do Depeche Mode
Como hit dos Rolling Stones e filme sobre vampiros fez Guns N' Roses acabar nos anos 1990
Ator Marco Nanini conta que Renato Russo o ajudou a parar de beber
O hit da Legião Urbana que ensina ingredientes para cozinhar o bolo da maldade humana



Os 5 álbuns que podem fazer você crescer como ser humano, segundo Regis Tadeu
Os guitarristas icônicos que mais influenciaram Pete Townshend: "Tudo mudou"
O guitarrista que Angus Young disse ser "o mais imitado do mundo"
O músico que seria salvo pelo The Who, ficou a ver navios e David Bowie o tirou da lama
O baterista que Neil Peart disse que "não veremos outro igual"
Clássicos imortais: os 30 anos de Rust In Peace, uma das poucas unanimidades do metal



