Encarando seus demônios com o Black Sabbath e o existencialismo

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Por Alcides S. Maia Júnior, Fonte: Black Sabbath and Philosophy, Tradução
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Tradução do primeiro capítulo do livro Black Sabbath and Philosophy: Mastering Reality. Escrito por William Irwin, professor de filosofia no King's College na Pensilvânia. Conhecido pela série de livros de “filosofia e cultura popular” incluindo Metallica e a Filosofia (2007) publicado no Brasil, entre outros títulos.

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Capítulo I

Além do bem e do mal

Encarando seus demônios com o Black Sabbath e o existencialismo

Você conhece o álbum perdido do Black Sabbath, certo? Eles o gravaram com Ozzy em 1999, mas batalhas legais o mantiveram longe do lançamento. Supostamente ele se chamaria “Além do bem e do mal”. Aqui está a lista das músicas:

Lado A
1. Fear and Trembling (instrumental) / The Plague
2. The Birth of Tragedy
3. The Devil and the Good Lord
4. Beyond Good and Evil

Lado B
5. The Fall
6. Twilight of the Idols
7. The Antichrist
8. Roads to Freedom (instrumental) / No Exit

É claro que, como todo fã de carteirinha do Sabbath, você sabe que o álbum perdido não existe. Ainda assim, esta poderia facilmente ser uma lista de canções do Sabbath. A verdade é que se trata de uma lista de títulos de livros escritos por filósofos existencialistas: Søren Kierkegaard (1813–1855), Friedrich Nietzsche (1844–1900), Jean Paul Sartre (1905–1980), e Albert Camus (1913–1960). Como indicam os títulos, os existencialistas, assim como o Sabbath, brincam com a escuridão, o macabro e os temas blasfêmicos.

Então o que é existencialismo? Assim como o Heavy Metal, é notoriamente difícil definir, mas em todo caso há uma definição: Existencialismo é uma filosofia que reage a um mundo absurdo e sem sentido, estimulando os indivíduos a superar a alienação, opressão e desespero através da liberdade e autocriação. Embora o existencialismo esteja mais intimamente identificado com os filósofos europeus dos séculos 19 e 20, é na verdade uma visão de mundo atemporal e potencialmente um ponto de vista universal. Então não devemos nos surpreender ao vê-lo involuntariamente expressa por uma banda britânica de heavy metal. Na verdade, eu diria que o Sabbath é a principal contribuição britânica ao existencialismo.

“A vida não tem sentido e a morte é sua única amiga”

Desde que eu os descobri aos 13 anos, o Black Sabbath sempre foi sobre enfrentar meus demônios, sobre rebelião em resposta ao absurdo da vida. Por “absurdo” os existencialistas querem dizer a falta de ajuste entre o que os seres humanos desejam e como a vida é. O desejo pelo amor romântico e a incapacidade em encontrá-lo ou mantê-lo é absurda. O desejo por boas pessoas para ser feliz e prosperar e para que más pessoas sofram e falhem são absurdas. O mundo não funciona dessa maneira. O desejo pela vida eterna é absurda. Um dia cada um de nós deixará de existir; está é uma preocupação primordial dos existencialistas, levando alguns a concluir que a vida não tem um sentido objetivo.

No romance Náusea de Sartre, o personagem principal, Antoine Roquentin, percebe que “Cada coisa existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso”. Do mesmo modo, em “Johnny Blade”, o Sabbath canta: “Life has no meaning (A vida não tem sentido)/ And death’s his only friend (E a morte é sua única amiga)/ Will fate surprise him? (O destino te surpreenderá?)/Where will he meet his end? (Onde ele encontrará seu fim)/ He feels so bitter (Ele se sente tão amargo) / Yes he’s so full of hate (Sim, ele está cheio de ódio)/ To die in the gutter (Para morrer na sarjeta)/ I guess that’s Johnny’s fate (Eu acho que é o destino de Johnny).” O Sabbath retrata um mundo desencantado em que todas as asas dos anjos foram grampeadas, um mundo em que a felicidade parece impossível e a vida parece sem sentido. Qual é o propósito de viver? É um mundo em que “there’s never been a winner (nunca há um vencedor) / Try your hardest, just to be a loser (Tente seu melhor, só para ser um perdedor) / The world will still be turning when you’re gone” (O mundo ainda estará girando quando você partir) (“Wheels of Confusion”).

Melódica, nasal e inconstante, a voz dos primórdios do Sabbath é torturada, assombrada, alienada e raivosa. A voz não é elegante, imponente ou magistral. Ozzy Osbourne não é Robert Plant, Rob Halford, Ronnie James Dio ou Bruce Dickinson. Mas para o insurgente existencialista, Ozzy é algo melhor. Apesar de ser completamente original, a voz de Ozzy tem uma qualidade de homem comum que faz milhões se sentirem como ele. Apesar de atingir notas altas, ele soa masculino e raivoso. Apesar da fama e adulação, Ozzy manteve-se alienado e pouco à vontade. Apesar de ser biologicamente velho o suficiente para ser meu pai, ele falou para a minha angústia adolescente, alimentando minha revolta de classe média. E apesar de Geezer Butler escrever a maioria das letras, Ozzy as fez suas, elas não soavam bem com mais ninguém cantando-as.

As pessoas acham que o narrador de “Paranoid” é “insano” porque ele está “emburrado o tempo todo”. Mas é difícil não se emburrar em um mundo como o nosso. E as pessoas que protelam sua carranca, podem estar “vestindo” falsos sorrisos para iludirem a si mesmos. “Paranoid” expressa angústia, desespero e falta de esperança. “All Day long I think of things (Todos os dias eu penso em coisas)/But nothing seems to satisfy (Mas nada parece me satisfazer) / Think I’ll lose my mind (Acho que perdi minha cabeça) / If I don’t find something to pacify (Se não encontrar algo que me acalme).” O que faz a vida valer a pena é indescritível: “I need someone to show me (eu preciso que alguém me mostre)/ The things in life that I can’t find (As coisas na vida que eu não posso encontrar) / I can’t see the things that make true happiness (Eu não consigo ver as coisas que trazem a verdadeira felicidade)/ I must be blind (Eu devo estar cego) / Make a joke and I will sigh (Faça uma graça e irei suspirar) / And you will laugh and I will cry (E você irá rir e eu irei chorar) / Happiness I cannot feel (Felicidade, eu não posso sentí-la) / And love to me is so unreal (E o amor para mim é tão irreal).” Na verdade Camus diz que o único problema filosófico realmente sério é determinar se a vida vale a pena. O narrador da canção parece ter concluído que a vida não vale a pena, ao menos para ele, embora ele expresse a esperança de que o ouvinte será capaz de encontrar sentido e a felicidade: “And so as you hear these words (E então ouça essas palavras) / Telling you now of my state (Te contando sobre meu estado) / I tell you to enjoy life (Eu te digo para aproveitar a vida) / I wish I could but it’s too late (Eu gostaria, mas é muito tarde).” E “Paranoid” não é só um momento isolado de melancolia. Como outro exemplo, considere “Lord Of This World”, em que o narrador descreve estar preso em um atoleiro existencial: “You’re searching for your mind don’t know where to start (Você está procurando sua mente e não sabe onde começar) / can’t find the key to fit the lock on your heart (não consigo encontrar a chave que abre a fechadura no seu coração) / you think you know but you are never quite sure (você acha que sabe, mas nunca tem certeza) / your soul is ill but you will not find a cure (sua alma está doente mas você nunca encontrará uma cura).”

O narrador de “Paranoid” parece mostrar à outras pessoas o caminho para o amor e a felicidade, mas, como Sartre nos conta em “No Exit”, “O inferno são as outras pessoas”. O narrador de “Paranoid” pensa que é louco por causa de sua constante carranca. As pessoas não vêem nosso interior; elas vêem a superfície, o sorriso ou o mau humor. E assim elas tendem a nos afastar, nos rotular, nos oprimir, nos estigmatizar e tratar-nos como coisas. Considere a situação do “Homem de Ferro (Iron Man)”, que salvou o mundo, e ainda, em seu estado catatônico é encarado como uma coisa sem sentido em vez de uma pessoa que sofre: “Is he alive or dead? (Ele está vivo ou morto?)/ Has he thoughts within his head? (Ele tem pensamentos em sua cabeça) / We’ll just pass him there (Nós apenas passaremos perto dele) / Why should we even care?” (Porque devíamos nos preocupar). Previsivelmente, o homem de ferro reage com raiva à indiferença e ao olhar desumanizante das outras pessoas: “Planning his vengeance (Planejando sua vingança) / That he will soon unfurl (Que logo ele revelará).”

Para mim, nada trouxe mais desespero existencial que o fracasso com as mulheres, o fracasso em conquistar o amor e o fracasso em mantê-lo. Então não é surpresa encontrar nas letras do Sabbath a justaposição do desespero existencial e a perda do amor em “Solitude”. A princípio, a canção parece simplesmente ser sobre uma esmagadora tristeza: “My name it means nothing (Meu nome não significa nada)/ My fortune is less (Minha fortuna menos ainda) / My future is shrouded in dark wilderness (Meu futuro está envolto em uma vasta escuridão) / Sunshine is far away, clouds linger on (A luz do Sol está longe, as nuvens permanecem).” Como o Sabbath e os existencialistas nos lembram, geralmente não podemos contar com outras pessoas para nos trazer felicidade; elas estão mais propensas a nos fazer infelizes.

“Eu vi o futuro e o deixei para trás”

Enquanto os destruidores riffs do Sabbath formam a trilha sonora para o desespero existencialista, a bateria e a guitarra solo representam liberdade e rebelião. A música é emocional e, ao contrário da maioria dos filósofos tradicionais, o existencialismo reconhece a validade das emoções. Amor, raiva, ciúmes, pena e orgulho não devem ser freados pela razão, as rédeas devem ser soltas para nos ajudar a compreender o mundo.

Com sua rebelião emocional, o Sabbath, assim como o existencialismo, dá suporte para uma ética de responsabilidade pessoal. Embora eles possam lamentar a natureza implacável da realidade, eles não contam com ninguém para cuidar deles. Eles não dão desculpas; eles aceitam a realidade e abraçam a liberdade. O Sabbath não culpa o governo ou a sociedade pelos seus problemas. Pelo contrário, como existencialistas inconscientes, eles vêem a natureza fundamentalmente absurda da vida como um pedido por uma resposta que exige que cada indivíduo faça suas livres escolhas e assuma a responsabilidade pela pessoa que é e se tornará.

O existencialismo não é uma filosofia de chafurdar na lama, mas um chamado à superação. Considere “Tomorrow’s Dream” (O sonho de amanhã), em que o Sabbath oferece uma descrição do desespero existencial e a necessidade de escapar para uma realidade melhor: “Yes I’m leaving the sorrow and heartache (Sim, estou deixando a tristeza e a dor no coração)/ Before it takes me away from my mind (Antes que isso me leve para longe de minha mente) / . . . /When sadness fills my days (Quando a tristeza preenche meus dias)/ It’s time to turn away (É hora de se afastar) / And let tomorrow’s dreams (E deixar os sonhos de amanhã)/ Become reality to me (Se tornarem realidade para mim).”

Para transcender uma situação desesperadora, é preciso primeiramente enfrentá-la. Desta forma a ultrajante afirmação de Nietzsche de que “Deus está morto” é ecoada na blasfêmia da celebração de Satã pelo Sabbath em canções como “N.I.B”. É perfeitamente compreensível que as pessoas fujam da realidade e encontrem conforto na religião. Mas Nietzsche encontra no cristianismo uma perigosa ficção que desencoraja as pessoas a viver essa vida em sua plenitude. Como ele diz, “Todas as coisas foram batizadas na fonte da eternidade e estão além do bem e do mal; mas o bem e o mal mesmo não são mais do que sombras interpostas, úmidas aflições e nuvens passageiras. Em “Supernaut” nós podemos ouvir a rejeição do existencialismo à religião e a ética do individualismo áspero e auto-suficiência: “Got no religion (Não tenho religião)/ Don’t need no friends (Não preciso de amigos) / Got all I want (Tenho tudo que quero) / And I don’t need to pretend (E não preciso fingir) /Don’t try to reach me (Não tente me alcançar)/ ’cause I’ll tear up your mind (porque eu arrancaria sua mente) / I’ve seen the future (Eu vi o futuro) / And I’ve left it behind (E o deixei para trás).”

Mais emocional do que intelectual, o existencialismo do Sabbath tem uma mentalidade de rebelde sem causa. Pense em Brando (Marlon Brando) em The Wild One* (O selvagem no Brasil) quando ele responde à pergunta “Contra o que você se rebela?” com “O que é que você tem?”* Rebelião muitas vezes envolve a destruição sem criação para substituir o que é destruído. Então, enquanto o desespero é reconhecido, ele ainda não é derrotado. Quando os confortos da religião são rejeitados, drogas e álcool podem se tornar o verdadeiro ópio das pessoas. Então não é surpresa encontrar o Sabbath celebrando a fuga para uma realidade alternativa em “Snowblind” e “Fairies Wear Boots”. Nenhuma canção, entretanto, captura o amor e a promessa no refúgio de ficar chapado melhor do que “Sweet Leaf”: “My life was empty forever on a down (Minha vida era vazia, eternamente desanimada) / Until you took me, showed me around (Até que você me levou, para dar uma volta) / My life is free now, my life is clear (Minha vida agora está livre, minha vida está clara)/ I love you sweet leaf—though you can’t hear (Eu te amo erva doce – apesar de não poderes me ouvir)”.

A batalha do Sabbath contra o abuso de drogas é bem conhecido. Claramente a resposta para a superação do desespero existencial não pode ser encontrado em uma garrafa, cachimbo, agulha ou comprimido. Em grande parte, a resposta pode ser encontrada em fazer música. Como diz Nietzsche: “ Ninguém sabe ainda o que é o bem e o mal, a não ser o criador. Ele, no entanto, cria a meta do homem e dá à terra seu sentido e futuro. De que algo é bom e mal – essa é sua criação. Em linha com esta visão Nietzschiana, uma nota de otimismo de “Children Of The Grave (Criança da sepultura)” nos diz como um mundo melhor pode ser construído: “So you children of the world, listen to what I say (Então criança do mundo, escute o que eu digo)/ If you want a better place to live in spread the word today (Se você quer um lugar melhor para viver espalhe a palavra hoje)/ Show the world that love is still alive you must be brave (Mostre ao mundo que o amor ainda vive, vocês tem que ser valentes) / Or you children of today are children of the grave (Ou as crianças de hoje serão as crianças da sepultura).” Como testemunha à saída sônica do Sabbath, Nietzsche tem razão: Criatividade, especialmente a criatividade artística, é a resposta adequada à dor e a dificuldade na vida.

“Eu só acredito em mim mesmo, porque ninguém mais é verdadeiro”

Enquanto criar música é uma excelente maneira de responder às provações e aflições da vida, o existencialismo é em última instância sobre a criação do seu eu. Como Sarte diz “ O homem não é nada além do que ele faz de si mesmo”, e nós somos “condenados a ser livres”. Isso significa que nós somos livres para sermos nós mesmos ou livres para abdicar das escolhas e tornarmos o que a sociedade faz de nós. Alguém que é livre do auto-engano e realmente encara suas escolhas e suas conseqüências é autêntico, uma pessoa genuína. O indivíduo autêntico não é obrigado a tomar uma decisão em vez de outra, por exemplo se juntar ao exército ou protestar contra a guerra, mas ele é necessário para compreender plenamente se a escolha que ele fez foi livre e de sua própria responsabilidade.

O existencialista opõe conformidade para fins de conformidade. Seguir a multidão em sua escolha de valores, o faz perder a visão de si mesmo como um indivíduo livre. Apesar do desespero existencial não ser uma coisa boa, muitas pessoas o evitam somente por não serem indivíduos genuínos. Em vez disso eles simplesmente vivem, agem, escolhem e decidem conforme o resto da multidão faz. Estes são os tipos de pessoas que “Never Say Die” expressa desaprovação, pessoas que são lideradas pelas normas da sociedade. “People going nowhere (Pessoas indo a lugar algum)/ Taken for a ride (sendo enganadas)”. Da mesma maneira, “Under the Sun (Sob o Sol) / Every Day Comes and Goes (Todos os dias vem e vão),”um título que faz alusão ao livro de Eclesiastes, que também apresenta a imagem de pessoas em nossa volta vivendo vidas inautênticas em “má fé”, um tipo de auto-desilusão e negação da liberdade de escolher a própria identidade individual: “People hiding their real face (Pessoas escondendo sua verdadeira face) / Keep on running their rat race (Continuam correndo sua corrida de ratos)/ Behind each flower grows a weed (Por trás de cada flor cresce uma erva daninha) / In their world of make-believe (Em seu mundo de faz de conta).”

É claro que há a tentação de se sentir superior às massas de pessoas que vivem como membros anônimos do rebanho, mas no final o foco deve ser em si mesmo, deixando os outros levarem suas vidas superficiais. "Cornucopia" capta bem a forma como as pessoas vivem em má-fé, enganando a si mesmos: “Too much near the truth they say (Exageradamente eles dizem) / Keep it ’til another Day (Aguente até o próximo dia) / Let them have their little game (Deixe-os fazerem seu joguinho) / Delusion helps to keep them sane (A ilusão ajuda a mantê-los são)/ Let them have their little toys (Deixe-os terem seus brinquedinhos) / Matchbox cars and mortgaged joys (Miniaturas de carros e alegrias hipotecadas) / Exciting in their plastic ways (Excitante em seu lugar de plástico)/ Frozen food in a concrete maze (Comida congelada em seu labirinto de concreto).” Afinal, há um preço a ser pago por aqueles que enfrentarão a realidade e farão significativas obras de arte de suas próprias vidas. Um artista deve sofrer por sua arte e isso não é menos verdadeiro que as pessoas que esculpem a si mesmos em um indivíduo autêntico. “Cornucopia” captura esta luta criativa com as linhas, “I don’t know what’s happening (Eu não sei o que está acontecendo) / My head’s all torn inside (Minha cabeça está toda rasgada por dentro)/ People say I’m heavy (As pessoas dizem que sou casca grossa) / They don’t know what I hide (Elas não sabem o que eu escondo).” E o narrador de “Under The Sun (Sob o Sol) / Every Day Comes and Goes (Todos os dias vem e vão),” nos deixa este conselho existencial: “Just believe in yourself (só acredite em você) / you know you really shouldn’t have to pretend (Você sabe que realmente não deveria ter que fingir) / Don’t let those empty people try to interfere with your mind (Não deixe estas pessoas vazias tentarem intervir em sua mente) / Just live your life and leave them all behind (Viva sua vida e deixe todos eles para trás).”

Em um mundo que desafia nossos desejos, um mundo povoado por pessoas de plástico, é fácil ser vítima da justa indignação. Aprendemos que Johnny Blade é “uma vítima da frustação moderna / Esta é a razão pela qual ele está pronto para lutar”. Nós também aprendemos que “He’s the one that should be afraid (Ele é o único que deveria ter medo),” quando o narrador se pergunta, “What will happen to you, Johnny Blade? (O que irá acontecer com você, Johnny Blade?)”. Na visão de Camus, nós queremos dar sentido a um mundo que não faz sentido. É o mesmo impulso que nos faz procurar por formas e figuras nas nuvens. Não há formas ou figuras lá falando objetivamente, mas se olharmos com persistência nós podemos achar que nós as vemos. Através de hábitos e ilusões nós podemos ver coisas no mundo que não estão objetivamente lá, mas se esses hábitos e ilusões são arrancados, então nosso mundo é desfeito. O ponto é o de superar a sensação de que a vida neste planeta é hostil e absurda e, ao invés de apenas aceitar "a indiferença gentil do mundo", como Camus a chama. É preciso notar que o próprio universo não é absurdo; somente nosso relacionamento com ele é absurdo. O mundo não é injusto ou irracional; as nossas expectativas que o fazem parecer assim.

O personagem mitológico Sísifo é um emblema da “frustação moderna”. Ele é condenado pelos deuses a rolar uma rocha do topo de uma colina todos os dias só para a rocha rolar de volta novamente. Ao recontar o mito, Camus diz a famosa frase, “ A própria luta em direção às alturas é o suficiente para preencher o coração do homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”. Isto significa que não precisamos de grandes objetivos. Nós não somos tão afortunados como Sísifo a ter deuses tão interessados em nossas vidas para nos punir. Nossa existência não tem um sentido pré-determinado, mas está tudo bem. Nós não precisamos de um propósito pré-determinado, e nós podemos lidar com um universo que é indiferente a nós, um mundo que permite que nossas pedras rolem colina abaixo. A luta para viver em face de tudo isto é suficiente para preencher nossos corações e nos fazer felizes. Nós estamos livres para escolher como nós viveremos nossas vidas; nada necessariamente nos obriga a fazer uma coisa ou outra. Ao fazermos nossas livres escolhas nós definimos quem somos. Ao longo destas linhas Under the Sun (Sob o Sol) / Every Day Comes and Goes (Todos os dias vem e vão)” apresentam uma declaração existencialista de independência: “Well I don’t want no preacher (Bem eu não quero nenhum pregador) / Telling me about the God in the sky (Me contando sobre Deus no céu) / No I don’t want no one to tell me (Não, eu não quero que ninguém me conte) / Where I’m gonna go when I die (Para onde vou quando morrer) / I wanna live my life with no people telling me what to do (Eu quero viver minha vida sem que as pessoas me digam o que fazer) / I just believe in myself, ‘cause no one else is true (Eu só acredito em mim mesmo, porque ninguém mais é verdadeiro).”

Sinfonias Inacabadas

Como sabemos, conforme a história do Black Sabbath, o progresso na superação da alienação, opressão e desespero através da liberdade e autocriação nem sempre é simples. Há deslizes existenciais que levam ao conforto das drogas, religião e má fé. Nós não costumamos ter os finais felizes de Hollywood ou romances existencialistas nas canções do Black Sabbath, mas nós temos esperança. E nós temos o sintoma do universo, um amor que nuca morre. Mesmo que muitas vezes as outras pessoas nos oprimam, estigmatizem, decepcionem, nós não podemos viver sem elas. Nós precisamos de amor tanto romanticamente como de outra forma para ter esperança. Assim como um trabalho artesanal, os Sabs são um trabalho em construção, sinfonias inacabadas. Ao encarar seus demônios, eles nos ajudam a encarar os nossos. O que mais se pode pedir?

Notas:

* The Wild One (O Selvagem) é um filme americano de 1953 do gênero Drama dirigido por László Benedek, produzido por Stanley Kramer e estrelado por Marlon Brando.

* A citação Whaddya got? Significa o mesmo que What do you have? (Oque é que você tem?) A resposta do personagem, “O que é que você tem?, quer dizer que ele irá se rebelar contra tudo e contra todos não importa o motivo.

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Sobre Alcides S. Maia Júnior

Conheceu o rock ainda moleque através do futebol, ao escutar We Are The Champions do Queen, a partir daí foi conhecendo diversas bandas clássicas como Black Sabbath, Deep Purple, Pink Floyd, Led Zeppelin, Rainbow, Judas Priest, Iron Maiden, Candlemass, entre outras.

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