Nova Friburgo: Celeiro de bandas na serra fluminense - parte 1
Por Antônimo Singular
Fonte: Site Cultura NF
Postado em 30 de janeiro de 2015
A atual CENA MUSICAL INDEPENDENTE de Nova Friburgo tem como principal característica a diversidade de estilos, estéticas e propostas sonoras. Com um número expressivo de bandas (notáveis pelos trabalhos de altíssima qualidade), neste momento a cena está buscando se consolidar e amadurecer, apesar de já estar atraindo os olhares de muita gente para a cidade serrana fluminense. Mas este processo não é nenhuma novidade.
Nova Friburgo é uma cidade que tem uma longa tradição de artistas independentes, tendo sido abrigo e/ou palco de diversos acontecimentos e de artistas que marcaram a cultura (e a contracultura) brasileira em várias linguagens artísticas. Temos até uma banda independente de rock que está na ativa há 40 anos. O texto, que será publicado em três partes, se presta a pensar um pouco sobre esta cena. Nesta primeira parte, analisaremos um pouco da história que ajudou a construir o contexto em questão. Fazendo uma retrospectiva bem resumida, podemos notar fatos históricos que, muitas vezes, passam despercebidos à maioria da população, e que fazem parte da construção do que a cidade é hoje, culturalmente falando.
Focando apenas na música, é uma cidade que tem três bandas sinfônicas centenárias (as quais formaram muitos músicos em atuação no país todo). Também é a única cidade fluminense (além da capital estadual) a sediar um curso superior de música, o qual também gerou uma orquestra sinfônica e uma Big Band jazzística. Em termos de contracultura, o punk e o heavy metal friburguenses dos anos de 1980 e início de 1990 constituíram uma cena que gerou referências nacionais e até internacionais, dentro de seus respectivos nichos.
Havia também uma vertente mais rock and roll nos ’80/’90 e até uma vertente mais MPB. Mas isso tudo já era sequência de uma movimentação que começara nos idos da década de 1960, com a GERAÇÃO BENDITA e as bandas de rock dos anos ‘60 e ’70. Desde então, passando pelas 24 HORAS DE ROCK nos anos ’80, pela cena PUNK (reverenciada em todo o país e fora dele), até o que vem se configurando como a atual CENA INDEPENDENTE , podemos notar uma constante profusão de trabalhos autorais e um grande engajamento de artistas locais em expandir os processos de criação estética e tomar as rédeas da produção cultural.
A cena musical de Friburgo sempre fervilhou independentemente.
A segunda metade dos anos ´90 e a primeira metade de 2000 foram o fim deste turbilhão. Esta nova cena rolou por mais ou menos uma década, mas não conseguiu se sustentar e entramos num período de entressafra, com poucas manifestações autorais e quase nenhuma identidade. Uma época em que as bandas da geração anterior saíam do foco e surgiam outras bandas. Hoje vemos que estava acontecendo uma oxigenação da cena, mas a nova cena ainda não tinha amadurecido a ponto de se tornar consistente.
O início da década de 2000 foi marcado por um declínio; os artistas de maior potencial deste período ainda não estavam maduros na época. Entre 2000 e 2008 desenvolve-se país afora um circuito novo (antes chamado de "alternativo") que, hoje, é chamado de "música independente".
Assistindo a este processo de transformação da produção musical e participando dele, muitas bandas foram se construindo e amadurecendo junto com a cena que estava também se construindo e amadurecendo, experimentando os diversos caminhos que a música independente abria. Esta primeira década do século XXI foi marcada pela forma com a qual a música independente conseguiu se solidificar e se tornar um grande mercado capaz de competir palmo a palmo com o velho esquema das gravadoras e seus artistas de mainstream.
Mas em Nova Friburgo o cenário era curioso na segunda metade da década de 2000. Apesar da história de movimentação intensa, a coisa não tinha corrido aqui como em outros lugares do Brasil. Toda a articulação do "do it yourself" e das redes independentes (já presentes na época do punk) tinha sido quase esquecida e a cena local estava bastante esvaziada. Havia uma carência muito grande de reaquecimento da cena. Havia poucos eventos e poucas bandas. Quase nenhum trabalho autoral era visto na cena local de rock desta época. Havia uma enorme dificuldade em conseguir capital, espaços, apoios e até público. Ao mesmo tempo, uma grande oportunidade. Faltava algo que desvelasse o norte.
Nosso papo continua. Este texto é a parte 1 de 3.
Mas, antes disso, para sintonizar o leitor, gostaria de lembrar: GERAÇÃO BENDITA é o nome do 1° filme hippie da América Latina, produzido independentemente em Nova Friburgo e cultuado no mundo inteiro, tornando-se uma das maiores pérolas da contracultura mundial. A banda Spectrum produziu e gravou independentemente a trilha sonora – outra raridade.
24 HORAS DE ROCK foi um evento realizado no terreno onde hoje encontra-se o Teatro Municipal Laércio Ventura, no qual as bandas da cidade acompanharam grandes nomes em um precursor das viradas culturais, com 24 horas de som rolando.
O PUNK Friburguense foi referência para diversas outras cenas punk do Brasil, com bandas que influenciaram até mesmo a cena de outros países, através de uma rede de troca de conteúdos culturais (fitas DEMO, Zines, adesivos, etc.) que – muito antes da internet – já estava conectada e sem fronteiras.
Já o que chamamos hoje de CENA INDEPENDENTE é, na verdade, uma recente sistematização (em adequação aos contextos de espaço e tempo presentes) de tudo o que vem sendo construído até então. Talvez, o maior ícone de todo este processo seja a imagem dos shows improvisados na Rua Portugal (que durou, com idas e vindas, dos anos 70 até o início dos anos 2000), no centro da cidade. A atitude colaborativa e o espírito do "do it yourself" possibilitaram o surgimento e ascensão de diversos artistas que fazem parte da cena atual.
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