Progressivo: análises exemplificando a guitarra progressiva
Por Flávio Siqueira
Postado em 01 de julho de 2013
Em relação à parte instrumental, o rock progressivo definitivamente adentrou caminhos antes inescrutáveis pela simplicidade do rock que durou até 1966. Em 1967 o The Nice já inseria uma complexidade musical jamais ouvida naquela época. Nos anos seguintes o prog rock se firmou como um gênero sem fronteiras musicais, um estilo no qual as bandas tinham total liberdade para experimentar elementos antes considerados ortodoxos e delinear o rock progressivo ora como um tipo de música simples — você pode pegar um violão e tocar "Wish You Were Here", do Pink Floyd, sem muito esforço —, ora como uma verdadeira explosão de sons complexos — uma banda certamente teria de passar algumas horas discutindo como executar "Firth of Fifth", do Genesis. Pode-se ter uma ideia da variedade do rock progressivo através de análises técnicas das progressões harmônicas e linhas melódicas de algumas músicas progs em relação à guitarra.
Abrindo caminho para tal análise, o emblemático solo de "Time", do álbum The Dark Side of the Moon, uma obra-prima do Pink Floyd. David Gilmour é notadamente um guitarrista que não toca em andamento rápido, o que não o desqualifica, muito pelo contrário; ele é considerado um dos reis da guitarra melódica. Cada nota dos seus solos foi minuciosamente pensada antes de ser inserida tanto em seu trabalho com o Pink Floyd quanto em sua carreira solo. Gilmour era um guitarrista de andamento lento ou médio numa época em que Alex Lifeson, do Rush, disparava notas de sua guitarra em invejável velocidade. Em "Time", Gilmour impõe uma de suas maiores influências ao projetar o blues como uma das bases do solo dessa canção. Ele fez um mistura de escala pentatônica menor — escala típica do blues —, escala menor eólio e arpejos. Tudo isso no campo harmônico de fá sustenido menor (F#m). Em Time, os bends de Gilmour parecem uivos noturnos de um lobo ferido.
Harmonicamente, uma linda canção do Yes tem uma peculiaridade especial. "Yesterday and Today" é uma música cujos acordes de violão seguem uma progressão no mínimo curiosa. Os primeiros acordes, lá maior com sétima maior, mi maior e si maior (A7#, E e B), seguem conjuntamente no campo harmônico de mi maior. O refrão, portanto, comporta duas mudanças bruscas. A primeira segue para o campo harmônico de sol maior e menor (G e Gm) ao mesmo tempo com os seguintes acordes: sol maior, si bemol maior, mi bemol maior (G, Bb e Eb). A segunda é a elevação desses acordes em meio tom, caracterizando os campos harmônicos simultâneos de sol sustenido maior e sol sustenido menor (G# e G#m), cujos acordes são sol sustenido maior, si maior e mi maior (G#, B e E). "Yesterday and Today" é um dos exemplos de que, no rock progressivo, progressões harmônicas são tão exploradas quanto no jazz.
Outra música interessante é "Cygnus X-1", do Rush, na qual Alex Lifeson acompanha simultaneamente a linha de baixo de Geddy Lee no riff inicial da canção. Assim como Geddy Lee, Lifeson executou três notas de sua guitarra: mi e sol. "Mas não são três notas?", deve estar se perguntando o caro leitor. Claro, mas o mi, inteligentemente, foi executado em duas oitavas, com a corda mi grave — o famoso "mizão" — solta e outro mi na casa sete da corda lá, seguido de sol na casa cinco da corda ré. Na próxima parte da introdução, Lifeson continua trabalhando com oitavas ao tocar a corda lá solta seguida da casa dois da corda sol — lá em duas oitavas — e a casa três da corda lá seguida da casa cinco da corda sol — dó duas em oitavas. A música tem dez minutos e 26 segundos e segue a todo a vapor com várias mudanças rítmicas e riffs geniais. Ainda no âmbito dos riffs de Lifeson, uma canção que vale ser ouvida certamente é "Working Man", cujo riff é emblemático na carreira do Rush, mas, mais sensacional ainda é o solo que Lifeson executa, fazendo "misérias" com a escala pentatônica de mi menor.
Numa música de dez minutos e 40 segundos, o guitarrista Andrew Latimer, da banda Camel, utiliza cerca de oito minutos para fazer brilhar os solos de sua guitarra. É na canção "For Today" que Latimer dá uma verdadeira aula de feeling; uma aula sobre como transferir todo o sentimento dos dedos para a guitarra. For Today contém um dos solos mais bonitos e expressivos do prog rock. Iniciado pela base de si menor (Bm), que ocupa vários compassos na canção, ainda há espaço para uma passagem para o acorde de fá sustenido, o que faz "For Today" sair da escala pentatônica para a escala menor harmônica, ambas mantendo si menor como campo harmônico. Ao final da música, o compasso harmônico muda para sol maior (G). Reiterando, são cerca de oito minutos de puro feeling, dos quais Latimer nos sufoca com pausas, bends e vibratos.
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