Paul McCartney: estrada longa e virtuosa

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Por Luís Bissigo, Fonte: Jornal Zero Hora (RS)
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Depois do fim dos Beatles, Paul McCartney seguiu a carreira solo mais produtiva do quarteto, lançando no caminho 22 discos de estúdio. Entre 1970 e 1980, por exemplo, ele empilhou 10 discos de inéditas, mais um ao vivo e um projeto alternativo, superando numericamente os ex-companheiros – no mesmo período, John Lennon e Ringo Starr lançaram sete álbuns de estúdio cada um, e George Harrison, seis. No total, Paul assina pelo menos outros 18 álbuns – incluindo aquele que é considerado seu trabalho individual mais antigo (a trilha sonora do filme “Lua-de-Mel ao Meio-Dia”, lançada em 1967) e o mais recente (“Good Evening New York City”, ao vivo, de 2009). Não entram na conta coletâneas, DVDs e versões alternativas de discos ao vivo.

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Matéria que traça um perfil da discografia solo de Paul McCartney, originalmente publicada no jornal gaúcho Zero Hora, em 18/10/2010, e gentilmente cedida pelo jornalista Luís Bissigo (luis.bissigo@zerohora.com.br) para publicação no site Whiplash!

Este solo tem dono

Alguns dos títulos mais importantes da discografia de Paul McCartney são projetos em que ele trabalhou praticamente sozinho, cantando e tocando todos os instrumentos, ou quase isso. Um exemplo é seu primeiro lançamento pós-Beatles: “McCartney” saiu em abril de 1970. Algumas das faixas são rascunhos de ideias que, mais trabalhadas, poderiam virar canções propriamente ditas. Nada, no entanto, que soe mal – há belos momentos (“That Would Be Something”, “Every Night”, “Momma Miss América”) e também um dos grandes hits de Paul, “Maybe I’m Amazed” – que ele andou citando como sua favorita em entrevista no ano passado.

O passo seguinte foi “Ram” (1971), em que Paul teve a colaboração da esposa Linda e de músicos recrutados meio às pressas – entre eles, o baterista Denny Seiwell, depois integrante da primeira formação da banda Wings, que acompanhou Paul nos anos seguintes. Com produção bem mais cuidadosa, “Ram” (“carneiro”, em inglês) tem melodias belas e suaves (“Uncle Albert”, “Back Seat Of My Car”), mas o destaque é uma canção mais áspera, “Too Many People”. A letra trazia uma farpa para John Lennon (‘Foi seu primeiro erro / Você pegou seu golpe de sorte e o partiu em dois’) – respondida pelo ex-parceiro meses depois em “How Do You Sleep?” ('“Como você dorme?”), no álbum “Imagine”.

O conflito em “McCartney II” (1980) seria de ordem estética. Já sem os Wings, Paul voltou a se aventurar sozinho no estúdio, disposto a incorporar um pouco da estética new wave da época – leia-se sintetizadores e baterias eletrônicas. A experiência não deu muito certo: algumas faixas ficaram muito repetitivas, e as canções normais não chegam a empolgar.

Talvez por isso, o ‘Bloco do Paul Sozinho’ tenha demorado 25 anos para reaparecer – mas com ótimos resultados. “Chaos And Creation In The Backyard” (2005) e “Memory Almost Full” (2007) mostram o ex-beatle tocando quase todos os instrumentos em boa parte das canções – e ambos estão entre os melhores momentos de toda a obra dele. O primeiro, mais introspectivo, teve produção de Nigel Godrich (colaborador do Radiohead) e gerou um primoroso espetáculo, “Chaos And Creation At Abbey Road” (infelizmente, indisponível em DVD), em que Paul chega a gravar uma canção sozinho diante da plateia. O segundo pende mais para rock – uma das músicas, “Only Mama Knows”, tem aparecido nos shows da “Up And Coming Tour”.

As próprias asas

Em 1971, Paul resolveu montar seu grupo pós-Beatles: os Wings, com quem estaria constantemente na estrada e viria a produzir dois de seus melhores e mais vendidos álbuns, “Band On The Run” (1973) e “Venus And Mars” (1975). “Band”, gravado na Nigéria, reúne canções como “Jet, Let Me Roll It, Mrs. Vandebilt” e a faixa-título. Assim como muitas músicas de “Vênus”, álbum que chega a superar o antecessor em termos de regularidade e inspiração graças à singeleza da faixa-título, à energia de “Rock Show” e à sutileza classuda de “Letting Go”.

Menos inspirados, os demais LPs dos Wings também têm seus méritos. “Wild Life” (1971), o primeiro, traz experiências com reggae, ritmos africanos e flautas andinas. “Red Rose Speedway” (1973) é um aperitivo para “Band On The Run”, enquanto “Wings At The Speed Of Sound” (1976) e “London Town” são belos álbuns, embora um tanto arrastados. O último, “Back To The Egg” (1979), tem como curiosidade duas músicas gravadas pela Rockestra – combo que inclui os guitarristas David Gilmour (Pink Floyd) e Pete Townshend (The Who) e a cozinha do Led Zeppelin (John Paul Jones no baixo e John Bonham na bateria).

Espinhos e flores

A década de 1980 não foi das mais inspiradas para Paul McCartney. Embora tenha emplacado vários hits, como as baladas “No More Lonely Nights” e “Once Upon a Long Ago”, ele produziu álbuns que não disputam vaga entre seus melhores trabalhos, muito pelo flerte com a estética tecnopop daqueles tempos. Algo que aparece de leve em ”Tug Of War” (1982) e “Pipes Of Peace” (1983) e torna-se mais forte em “Press To Play” (1986). As curiosidades são os duetos com Stevie Wonder (“Ebony And Ivory”, 1982) e Michael Jackson (“Say, Say, Say”, 1983) e os LPs “Give My Regards To Broad Street” (trilha sonora do filme homônimo, dirigido por Peter Webb e com roteiro do próprio Paul, em 1984) e “Back In The USSR” (coleção de covers de rocks antigos, lançada inicialmente na antiga União Soviética em 1988). A redenção veio com “Flowers In The Dirt” (1989): Paul acertou a sonoridade e escreveu uma série de boas canções, algumas em parceria com Elvis Costello. Com hits como “This One”, “Put It There” e “My Brave Face” na manga, o ex-beatle embarcou em sua primeira turnê mundial desde os anos 1970 – e veio pela primeira vez ao Brasil, em 1990.

Fora do roteiro

Paul McCartney tem uma discografia paralela de projetos especiais e experiências inusitadas. Entram nessa lista, por exemplo, as trilhas sonoras que ele compôs para os filmes “Lua-de-Mel ao Meio-Dia” (o disco, lançado em 1967, foi seu primeiro trabalho extra-Beatles) e “O Cônsul Honorário” (1983). E também o instrumental “Thrillington” (1977), com refinadas versões big band para as canções do álbum “Ram”.

O interesse pela eletrônica resultou no projeto The Fireman, em duo com o produtor Youth, com três curiosos álbuns: o mantra dançante “Strawberries Oceans Ships Forest” (1993), o viajandão “Rushes” (1998) e o explosivo “Electric Arguments” (2008), mais voltado para canções convencionais – tanto que duas delas, “Sing The Changes” e “Highway”, têm aparecido nos shows da “Up And Coming Tour”. Outros flertes com a eletrônica estão nos álbuns “Liverpool Sound Collage” (2000) e “Twin Freaks” (2005), colaborações com nomes como Super Furry Animals, Roy Kerry e o próprio Youth.

Chama reacesa

Os quatro álbuns seguintes, a “Flowers In The Dirt” (1989) mostram ‘Macca’ em boa forma, à vontade para fazer suas canções pop com simplicidade e qualidade. “Off The Ground“ (1993) apresentou novas e belas colaborações com Elvis Costello, além do hit “Hope Of Deliverance”. “Flaming Pie” (1997) trouxe um toque nostálgico – especialmente pela presença de Ringo Starr em “Really Love You” e “Beautiful Night” (esta, orquestrada por George Martin). Mais nostalgia veio com “Run Devil Run” (1999), voltado ao rock dos anos 1950, com covers e canções novas – o disco gerou um show especial no Cavern Club, com banda incluindo o guitarrista David Gilmour (Pink Floyd) e o baterista Ian Paice (Deep Purple). No final de 2001, a resposta de Paul ao 11 de Setembro foi o CD “Driving Rain”, outro bom álbum pop – temperado com alguma perturbação pacifista em canções como “Lonely Road” e “Freedom”.

Paul está vivo

Emoção de palco e plateia não faltam nos registros de shows de Paul McCartney – desde o primeiro, lançado ainda nos anos 1970. “Wings Over América” (1976) registra a vitoriosa excursão do grupo pelos Estados Unidos naquele ano e mostra como o momento era importante para Paul afirmar sua própria identidade junto aos fãs: a maior parte do roteiro é de canções pós-Beatles.

Paul só voltou a lançar discos ao vivo bem depois: “Tripping The Live Fantastic” (1990, em CD duplo e simples) é resultado da turnê mundial que trouxe ‘Macca’ ao Brasil pela primeira vez, naquele mesmo ano. Em 1991, Paul tornou-se um dos primeiros artistas pop a investir no formato acústico, com um belo “Unplugged” no qual releu clássicos do rock (“Be-Bop-A-Lula”) e temas do cancioneiro beatle (“We Can Work It Out”, “Here There And Everywhere”) com segurança e bom gosto.

Seguem-se mais registros de turnês, como “Paul Is Live” (1993) e a dobradinha “Back In The U.S.” (2002) e “Back In The World” (2003). “Good Evening New York City” (2009), item mais recente da discografia ‘mccartneyana’, tem roteiro bem próximo do da turnê atual, enfatizando hits antigos e, claro, muitas canções dos Beatles.

Verdadeiros clássicos

Prenunciado ainda nos Beatles (nos arranjos camerísticos de “Yesterday” e “Eleanor Rigby”) e nos anos 1980 (na peça sinfônica “Eleanor’s Dream”, do disco “Give My Regards To Broad Street”), o interesse de Paul pela música erudita começou dar resultados mais concretos em 1991. Foi quando ele e o maestro Carl Davis compuseram “Liverpool Oratório”, obra de acento religioso e texto ligeiramente autobiográfico, gravada pela Royal Philharmonic de Liverpool com coro e solistas. A experiência seguinte foi o grandioso poema sinfônico “Standing Stone” (1997), para coro e orquestra. “Working Classical” (1999) foi mais pragmático – uma coleção de versões orquestrais para canções da carreira solo, como “My Love” e “Maybe I’m Amazed”. Paul incluiria um tema no disco-tributo “A Garland For Linda” (2000) e voltaria a lembrar a esposa falecida em 1998 no pungente oratório “Ecce Cor Meum” (2006) – o título significa, em latim, “eis meu coração”.

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