Blackfoot: Mudanças de nome, troca de membros e intervenção divina

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Por Ben Ami Scopinho
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Antes de receber seu nome definitivo, o Blackfoot, como quase toda banda formada por músicos jovens, passou por inúmeras mudanças de nomes, trocas de membros e até mesmo, porque não dizer, uma curiosa intervenção divina. Sua formação começou a se estabilizar em 1969, em Jacksonville (Flórida), quando Charlie Hargrett (guitarra), Ricky "Rattlesnake" Medlocke (bateria e voz), Greg T. Walker (baixo) e Ron Sciabaraçi (teclados) montaram o Fresh Garbage, que passou a tocar pelo circuito de bares de sua região.

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Mas a vontade de vencer fez com que, em 1971, os músicos e seus roadies tentassem a sorte em Manhattan, já devidamente rebatizados como Blackfoot, numa alusão a uma tribo Sioux norte-americana, de onde supostamente descendem Walker e Medlocke, os "índios" da banda. Mas esta fase dura bem pouco, pois a constante falta de grana do Blackfoot fez com que Medlocke não pensasse duas vezes ao surgir uma oportunidade de fazer parte do grande Lynyrd Skynyrd, tocando bateria.

Os remanescentes Greg e Ron retornam para a Flórida, enquanto o insistente Hargrett monta o Max Rush com outros músicos, que também não dá certo. Então, no final de 1972, o Blackfoot é remontado tendo como membros Greg T. Walker no baixo, Jakson Spires (também um nativo norte-americano) na bateria e, oras vejam, o próprio Medlocke aparece novamente, agora como vocalista. Sua estada no Skynyrd foi breve, e sua participação na gravação de algumas canções com esta banda apareceria no "First & Last", lançado somente em 1978.

Por fim, a formação do novo Blackfoot se completa com a guitarra de Danny Johnson. Mas Danny descobriu que tinha um tumor no pulmão, e como a situação era delicada, recomendou-se uma cirurgia. E aí entram as "forças ocultas": Poucos antes da operação, novos exames de raios-X revelaram que o câncer havia desaparecido completamente! Bastante impressionado e acreditando que sua cura havia sido uma obra divina, o agora ex-guitarrista decide entregar sua vida a Deus, sendo atualmente um renomado ministro da Igreja Metodista. Com isto, resolvem chamar Charlie Hargrett de volta.



No Reservations

(1975 - Island Records)

Enfim, com esta formação e um tão aguardado contrato assinado com a Island Records, o quarteto entra em estúdio e libera "No Reservations" em 1975. Apesar de tantos entraves, o grupo era experiente e vinha tocando há anos pelas estradas, o que, aliado à sede de novas canções, fez deste álbum um bom primeiro passo.

Para o leitor se situar, há algumas aproximações com o ZZ Top, 38 Special e, naturalmente, apresenta uma compreensível vibração de southern rock do Lynyrd Skynyrd - talvez pelo fato de Medlocke ter passado um tempo com o pessoal do Skynyrd? - não dispensando também alguma distorção em suas canções, elemento importante que se tornaria ponto em comum em todos os seus registros subseqüentes.

Jakson Spires deve ser devidamente elogiado, pois além de sua técnica um tanto quanto intrincada de tocar bateria, se revela ainda um bom letrista. E, com alguma originalidade, "No Reservations" apresenta bons momentos como "Not Another Maker", "Big Wheels" e "The Railroad Song", esta com a participação de Shorty Medlocke, famoso bluesman e avô do vocalista.

De qualquer forma, a gravadora não honrou seus compromissos de divulgação e, consequentemente, o debut não atinge um grande público na época de seu lançamento. Aliado a esta frustração, havia o fato de os ares gélidos de Manhattan não estarem agradando a Medlock... Como tal, principalmente em função de sua insuficiência pulmonar, o Blackfoot resolve voltar para a Flórida logo depois de lançarem seu debut.



Flying High

(1976 - Epic Records)

Seu próximo registro, "Flying High", é lançado pela Epic e que segue basicamente a mesma linha de rock n'roll pesado com pitadas de southern rock de seu debut.

E, mesmo com sua característica simplicidade, há energia de sobra em excelentes canções Hard Rocks como a faixa-título, "Save Your Time", "Dancin'Man, além da bonita balada quase toda acústica "Mother", que fecha o álbum com promessas de um futuro promissor para o Blackfoot.

Mas ficou mesmo só na promessa. Novamente a história se repete e o Blackfoot padece com uma promoção ineficaz. Mesmo assim, o grupo consegue tocar em valiosas excursões com o Kiss, Peter Frampton, Ted Nugent, Mahogany Rush e Gary Wright.

Mas infelizmente o disco não atinge as grandes vendagens desejadas pela gravadora, que acaba por dispensá-los neste mesmo ano. A banda não aceita muito bem a situação, tanto que passaram por uma grave crise interna que se estendeu até 1978, culminando na dissolução do conjunto.



Strikes

(1979 - ATCO Records)

Mas o Blackfoot já tinha feito alguns fãs importantes no meio musical. Al Nalli, empresário do Browsville Station, havia ficado impressionado com a atuação do quarteto quando este abrira alguns shows numa turnê pelo Texas e, sabendo da demissão da banda pela antiga gravadora, convence o grupo voltar à ativa e gravar um novo disco.

Aqui merece um parêntese: vale lembrar que a maior referência do rock sulista, o Lynyrd Skynyrd, havia passado em 1977 por maus bocados na famosa tragédia em que seu avião caiu, morrendo vários de seus integrantes e culminando no término do grupo. Em função deste fato, havia um vácuo neste gênero musical.

Embora a música do Blackfoot fosse ligeiramente mais Hard Rock, também era repleta de influências deste rock sulista. Assim sendo, "Strykes", seu terceiro álbum que chegou ao mercado em 1979 pela ATCO Records, preencheu muito bem este espaço e possibilitou que o Blackfoot fosse o primeiro a chegar perto do trono deixado pelo Skynyrd. E convenhamos, foi merecido, pois "Train, Train" (escrito pelo vovô Medlock), "Baby Blue" e "Road Fever" são clássicos eternos. Também há dois covers muito bem selecionados: "Pay My Dues" do Blues Image, e a magnífica "Wishing Well" do Free.

O sucesso foi estrondoso, possibilitando que "Strykes" recebesse discos de ouro e a cobiçada platina pelas ótimas vendas, ampliando os horizontes em excursões com grandes nomes, como The Who, numa bem-sucedida turnê pelos EUA, e ainda Blue Oyster Cult, AC/DC, Journey, Whitesnake, Ted Nugent e Foreigner.



Tomcattin

(1980 - ATCO Records)

Embora o quarteto estivesse cansado por estar tocando por muito tempo seguido, o clima era ótimo, impulsionado principalmente pelas vendas. Assim sendo, nesta ótima fase gravam mais um álbum chamado "Tomcattin", que sairia em 1980. Mesmo não emplacando nenhuma faixa para as rádios - o que necessariamente não é um problema para muitos dos amantes do rock n'roll - e não vendendo horrores como seu antecessor, consegue atingir novamente novos certificados de ouro e platina.

Este é outro álbum que garantia a consistência de sua inspiração em "Warped", "On The Run", "Dream On" (nada a ver com a faixa homônima do Aerosmith) e "Fox Chase". Suas letras, que sempre abordaram o cotidiano humano, estão primorosas na dramática "Reckless Abandoner".



Marauder

(1981 - ATCO Records)

Marauder, com sua magnífica capa, chega às lojas em 1981 e é, para muitos de seus fãs, um dos melhores álbuns de Hard Rock desta época. Rick Medlocke e cia estavam afiadíssimos, e nem se importaram em colocar "Good Morning" abrindo o álbum de forma tão pesada, que beirava o Heavy Metal daquela época.

Mas de resto era a já consagrada fórmula de sempre, mostrando fôlego mais do que suficiente para ocuparem o lugar do saudoso Skynyrd em petardos como as ótimas "Dry Country", "Diary Of A Working Man", "Rattlesnake Rock n' Roller" e "Searchin".

As apresentações estavam em seu apogeu. O Blackfoot sai em turnê ao lado do AC/DC pelos EUA e Inglaterra, que foi o ponto de partida para um giro por toda a Europa onde tocam ao lado do Scorpions na Alemanha e do Iron Maiden na França e Inglaterra. Algo muito lembrado pelos fãs ocorre no Redding Festival de 1982, quando rola uma mega-jam com todos os músicos do Blackfoot e do Iron Maiden, dividindo o palco numa versão de "Tush" do ZZ Top.

O sucesso pelo velho mundo era grande, assim como eram constantes os elogios referentes à sua energia sobre os palcos. Assim sendo, após esta excursão européia liberaram o álbum ao vivo "Highway Songs Live", lançado somente na Inglaterra em 1982. Lançado só na Inglaterra? Sim... Nos Estados Unidos as vendas de "Tomcattin" e "Marauder" não haviam sido tão grandes como as de "Strykes", e a gravadora nem quis saber de colocar este ao vivo em suas lojas.



Siogo

(1983 - ATCO Records)

Pois é... Mesmo com belos discos de platina, os lucros não foram os esperados. Então a ATCO começa a pressionar o Blackfoot por mudanças, tanto que em 1983 é acrescentado o conceituado tecladista Ken Hensley (Uriah Heep) à banda. Há comentários de que, para convencê-lo, lhe presenteiam com um Hammond B-3, vê se pode! E nem vou entrar em detalhes quanto à pentelhação da gravadora para que cortassem seus cabelos e se vestissem como cowboys, ou ainda com insultos diretos, dizendo que Hargrett parecia um índio velho. Detalhe: Hargrett não tem nenhum traço indígena, nem mesmo debaixo de sua barba...

Neste clima e como um quinteto, em 1983 chega às lojas o "Siogo". Não deixa de ser um bom disco, mas tudo se tornou bem diferente de seus álbuns do passado ao tentar atualizar sua música aos novos tempos. Havia muitos dos teclados e sintetizadores clichês que infestavam boa parte dos grupos da época, e toda a sonoridade estava numa indecisão gritante entre o conhecido Hard Rock e o apelo comercial pedido pelas rádios dos EUA.

"White Man's Land" com certeza remete ao conhecido Blackfoot e, entre as boas faixas temos "Send Me An Angel", "Run For Cover", "Drivin' Fool" e ainda um cover do Nazareth em "Heart's Grown Cold". Para a divulgação, excursionaram de forma eficaz com o Molly Hatchet, mas que não rendeu muita coisa também.

Curioso notar que, embora o nome "Siogo" tenha sido extraído das iniciais de 'Suck It Or Get Out!' (simpática frase que adornava a frente do ônibus com o qual excursionavam pelos EUA, e que com certeza não representa a profundidade espiritual de sua cultura indígena), há comentários de que Siogo também signifique num dialeto indígena "irmandade" ou "próximo a alguma coisa".



Vertical Smiles

(1984 - ATCO Records)

Bom, se for realmente 'próximo a alguma coisa', este próximo aí seria o fim da banda. Há óbvias e diversas razões para tal, como a mudança de estilo ocasionada pela entrada de Hensley, além da insistência dos empresários pela adoção de um visual considerado mais moderno para a época.

As gravações de "Vertical Smiles" foram caóticas, tanto que a gravadora simplesmente recusou o trabalho, dizendo que estava horrível, obrigando a banda a voltar ao estúdio e começar tudo novamente. Hargrett, um dos fundadores do grupo, saturado com todas as exigências empresariais que prejudicavam sua música, decidiu cair fora, não participando da segunda fase destas gravações.

Contando com a contribuição do guitarrista Bobby Barth, do Axe, em 1984 fica pronto "Vertical Smiles" - sacaram o que são os 'sorrisos verticais' entre as coxas das mulheres da capa? - e a pergunta mais freqüente era 'O que aconteceu com o Blackfoot?'... Mesmo bastante descaracterizado ao continuar em sua tendência pelo território do AOR, há canções de grande energia como "Ride With You" e "In For The Kill", além de covers para Peter Cetera em "Livin' In The Limelight" e "A Legend Never Dies" do RPM.

Na capa do álbum há uma nota de agradecimento a Hargrett pelos 'quatro anos de dedicação e agonia'. Agonia que, naturalmente, se estendia aos outros integrantes, tanto que durante a turnê de "Vertical Smiles" é a vez de Greg, Jakson e Hensley debandarem, pondo fim a uma das mais empolgantes bandas do Southern e Hard Rock daquela época.

No decorrer dos anos, sairiam outros trabalhos sob o nome "Rickey Medlocke & Blackfoot" - por onde passaram os mais diversos músicos, como o baixista Mark 'The Animal' Mendoza (Twisted Sister) ou o guitarrista Neal Casal (Lizzy Borden), entre muitos outros - tendo liberado um auto-intitulado álbum em 1987, o "Medicine Man" em 1990 e o "After The Reign" em 1994. Em 1998 sai o "King Biscuit Flower Hour Blackfoot Live At The Palladium", trazendo uma apresentação gravada em 1983.

In 1996 Medlocke encerrou de vez as atividades do Blackfoot, e passou a fazer parte do Lynyrd Skynyrd, que ensaiava um retorno com novos músicos desde a segunda metade da década de 80. E, assim mesmo, em meados de 2004 o Blackfoot finalmente se reúne com três quartos de sua formação original. Greg T. Walker, Jackson Spires, Charlie Hargrett e ainda Bobby Barth, do já citado Axe. Esta formação seguiu tocando pela Europa e EUA, mas em 16 de março de 2005 o baterista Jackson Spires veio a falecer em função de um aneurisma. O Blackfoot ainda está tocando por aí, tendo como baterista Mark mcConnel e Jay Johnson na guitarra, com planos para lançar um DVD ao vivo.

E bem que este retorno do Blackfoot poderia alavancar o lançamento de um box com, pelo menos, seus cinco primeiros e clássicos registros. Qualquer colecionador sério que curta Lynyrd Skynyrd, ZZ Top, Cactus ou Steppenwolf deveria ter em sua prateleira alguns destes álbuns, que deixaram sua marca no mundo do rock n'roll.

Homepage: www.blackfootrocks.com


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Sobre Ben Ami Scopinho

Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".

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