WHIPLASH.NET - Rock e Heavy MetalWHIPLASH.NET - Rock e Heavy Metal

FacebookTwitterGoogle+RSSYouTubeInstagramApp IOSApp Android
MenuBuscaReload

Krisiun: Show da banda é como uma ida ao inferno

Resenha - Krisiun (Sesc Belenzinho, São Paulo, 29/08/2014)

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+Compartilhar no WhatsApp

Por Miguel Júnior
Enviar correções  |  Comentários  | 

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Tenho 30 anos. O primeiro show que vi na vida foi o do KRISIUN, há quase 15 anos. Sim, o primeiro de todos. Nunca tinha visto um show de verdade, de qualquer estilo que fosse. No máximo algum cantor de rua, por acaso. E minha entrada na trajetória de expectador de shows foi com a esmagadora presença, tanto de som quanto de alma, desta grande banda. Hoje, 14 anos e meio depois, estou assistindo KRISIUN pela segunda vez. O que mudou e como está ainda mais fenomenal, é o que relato agora.

Arquivo KZG: Krisiun no Musikaos em 2000Shaman: baixista desabafa sobre cena brasileira

O riff que eu assobiei o dia inteiro abriu o show: "Kings of Killing". Não houve qualquer atraso e o local, a comedoria do Sesc Belenzinho, é um espaço para 500 pessoas, que tinha uma área livre cercada por mesas e cadeiras, onde alguns frequentadores do Sesc preferiram permanecer sentados. No entanto, quem estava ali para o show foi para a frente e ouviu de perto o som das caixas capazes de criar calafrios. São honrados 20 anos de história e aquilo era só o começo.

O show que assisti em 2000 foi numa casa chamada Cia Do Brasil, na região central de São Paulo. Estava com amigos da escola. Na lembrança achava que era sexta e que teríamos aula no noturno. Mas na verdade foi num sábado, dia em que também haveria atividades na escola. Faltamos. Vestia minha primeira camiseta emprestada de algo que fosse relacionado a metal: VENOM. No show de hoje, o guitarrista estava com a mesmíssima camiseta. O que eu procurava lá em 2000 era algo que expressasse o meu descontentamento com tudo. Uma música que fosse avassaladora o bastante para que eu pudesse me desprender de todo o lixo que nos cercava, seja na religião, na política, no mundo do trabalho. E o KRISIUN conseguiu fazer muito mais do que isso, ontem e hoje.

No show de hoje, passado os petardos "The will to potency", "Combustion inferno" e ˜Descending abomination", Alex manda seu recado: "ninguém é melhor do que ninguém, o metal nacional não está morto". De fato, com tal qualidade de audio para um show de pequeno porte como aquele, não há do que se reclamar. Alguém já começa a pedir "Black force domain", ao que ele responde ser inevitável: "essa vai rolar sim". Mais adiante, quando se preparava para executar a blasfêmica "Conquerors of armageddon", cujo verso "kill, kill, kil lord Jesus Christ" poderia assustar o desavisado, ele manda: "seja você mesmo" e ao dizer "religião" acena com o polegar para baixo.

A presença dos irmãos Kolesne e Camargo no palco já é impactante: trazem um semblante de quem veio da guerra e não tem algo a contar, mas sim a detonar: sua inércia. É impossível ficar estático num show do KRISIUN. A música é intensa o bastante para que você queira sair quebrando as paredes. Motivos para isso, no mundo de hoje, não faltam. Ainda mais se você tem 16 anos. Em 2000, foi quando ouvi pela primeira vez o som “Black force domain” e entendi que nem todo mundo na Terra seguia com fé a crença generalizada no que chamam de “o certo”, “o ético”, “o correto”. Eu poderia, sim, a partir daquele momento, furiosamente, blasfemar contra o sagrado.

Em três músicas eu já estava literalmente chorando de ódio. Era o choro de um garoto, de 16 anos, muito enraivado, sem saber mais do que tanto não gostava e se opunha. As coisas da vida se organizam de um jeito na cabeça que a próxima música fazia tudo ficar mais claro. A fúria completa. O mais alto alcance que uma forma de arte pode ter, fazer você encontrar sentido no que sente. Sentia raiva, ira, queria mesmo até me destruir. E a trilha sonora tinha que ser aquela, que envolvia e dava vazão a todo um furacão de conflitos e injustiças na minha cabeça. Por um momento pensei que estava diante de algo verdadeiramente sagrado, a música perfeita. Só que tudo que fosse sagrado, eu queria destruir. Nesse conflito, fui para a roda e sai batendo e levando ponta-pés até o último som.

Naquele dia, quando dormi, pensei ter visitado o próprio inferno.

Hoje, me dirigi ao Sesc Belenzinho de metrô. Tenho emprego, namorada, contas para pagar e toda a chateação que todo mundo tem. Só que a fúria interior nunca se apaga e parece querer ressurgir, visto que é preciso apenas de um estímulo certo. Esta é a verdadeira música malditamente sagrada e tenho a honra de que seja feita por brasileiros. E estas palavras, imprecisas, são a tentativa de dar conta do acontecido. Um show do KRISIUN é, como disse, uma ida ao inferno, com tudo de agressivo e transgressor que pode haver nisso.

Nada pode ser melhor do que um show de uma banda que você curte quando ela ainda executa dois covers que você também preza. A noite de hoje trouxe, no meio do setlist, uma versão rápida e pesada, praticamente thrash, de "Black metal", do Venom e, um pouco depois, um hit do Motorhead. Vários estavam com camisetas dessas bandas e a roda abria em praticamente todo som. Lá fora, diziam, era possível ouvir o grito de "to the gods rock n roll" da letra do Venom. Alex estava com um patch do Dio e se juntarmos as peças desse quebra-cabeça podemos ver que, mesmo sendo uma banda extrema, não há radicalismos, pois estamos diante de caras que curtem varias vertentes dentro do metal.

Quando você ouve uma guitarra pesada, uma bateria insana, um vocal doentio de uma banda como o KRISIUN, não é só Deus que você está mandando às favas. É um grito de revolta de toda uma geração, que viu seus pais trabalharem e não se aposentarem, sendo demitidos às vésperas da velhice; é um urro contra a hipocrisia de toda uma classe social que se diz correta, atrelada a príncipios caducos de moralidade e de falsa virtude; é o desespero transformado em correria, socos e chutes que trocam os garotos no meio das rodas, à procura de uma identidade que revele sua insatisfação generalizada. Não estou tentando politizar o “death metal”, mas quem há de negar o fato de que quem o consome, ouve, admira e cultua, não tem em si a fragil harmonia que apresenta os ouvintes de outros estilos de música e de vida. E enquanto arte extrema, eis o bastião nacional do caos.

Você acha que estou "pagando pau" demais? Desculpe, mas só estou tentando ser eu mesmo. E não vou deixar de proferir o meu registro daquilo que vejo de sincero, honesto e bem executado, um trabalho que tem de ser reconhecido sim, feito por gente que, como disse o Alex, a gente sabe de onde veio. A última faixa da noite, como nao poderia deixar de ser, foi "Black force domain", onde era possível notar a intensidade que ela vai alcançando até chegar no final, do verso do título. Preferi por os óculos e observar parado. Definitivamente, arte não tem explicação. E até quando eu puder, vou dedicar minha alma "to the gods rock n roll".

Setlist

Kings of Killing
The will to potency
Combustion inferno
Descending abomination
Vengeance revelation
Vicious wrath
Slaying steel
Slain fate
Conquerors of armageddon
Murderer
Minotaur
Ravager
Blood of lions
Bloodcraft
Black Force Domain
Covers:
Black Metal (Venom)
Motorhead

Imagem

Quer ficar atualizado? Siga no Facebook, Twitter, G+, Newsletter, etc

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+Compartilhar no WhatsApp

Arquivo KZG: Krisiun no Musikaos em 2000Todas as matérias e notícias sobre "Krisiun"

Krisiun
"Edu Falaschi não viveu o underground"

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

Todas as matérias da seção Resenhas de ShowsTodas as matérias sobre "Krisiun"

Shaman
Fernando Quesada desabafa sobre cena brasileira

Slash
Alucinações, sexo, dinheiro e armas de fogo no auge do vício

8 de Dezembro
A data mais macabra do rock

Led Zeppelin: O que a Rolling Stone achou do primeiro discoAirton Diniz - A coleção do editor chefe da Roadie CrewTwitter: contas que todo fã de rock deveria seguir

Sobre Miguel Júnior

Paulistano, não tem banda porque não sabe tocar, exceto tirar trechos de black metal no violão. Escreve basicamente resenhas de shows que assiste, e deve ter uns 50 ingressos de show já assistidos guardados. Ouve metal mais pelo som, permitindo-se ouvir bandas cuja ideologia não inteiramente concorde. Quer escrever sobre todos os shows extremos e sinceros que acontecem em São Paulo.

Mais matérias de Miguel Júnior no Whiplash.Net.

Link que não funciona para email (ignore)

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em agosto: 1.237.477 visitantes, 2.825.604 visitas, 7.034.755 pageviews.

Usuários online