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SOAD, a melhor banda de rock do mundo

Fonte: No Mínimo |

Esta matéria foi publicada em 07/12/05. Procura matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

Por Arthur Dapieve

Vou me antecipar em três semanas ao final do ano e cravar qual o melhor novo álbum de rock que ouvi em 2005. Ele veio em duas metades, divididas no nascimento: “Mezmerize” e “Hypnotize”. O material gravado pelo quarteto californiano System of a Down e produzido por seu vocalista-guitarrista Daron Malakian e por uma lenda viva dos estúdios, Rick Rubin (créditos de Run-DMC a Johnny Cash), poderia ter sido lançado como um álbum duplo. Poderia até, mesmo sem nenhuma edição, virar um parrudo álbum simples.

Malakian, Serj Tankian (voz e teclados), Shavo Odadjian (baixo) e John Dolmayan (bateria) decidiram, porém, lançar suas 23 músicas em dois CDs. “Mezmerize” saiu em maio e “Hypnotize” saiu agorinha, no final de novembro, pela Sony & BMG. Foi uma decisão mui acertada. Em vez de afogar o ouvinte num tsunami de eletricidade e humor negro, o System of a Down deu-lhe tempo para surfar com calma as duas metades de sua obra magna. Metades cujos títulos dizem a mesma coisa: mesmerizar é igual a hipnotizar.

Se isso ainda não fosse o bastante para atestar a integridade conceitual da obra, o SOD abre “Mezmerize” com “Soldier side – Intro” e fecha “Hypnotize” com “Soldier side”. Isto de pouco adiantaria, entretanto, se a integridade não fosse mantida também musicalmente. O que se escuta nos quase 76 minutos dos álbuns somados é um rock inovador, inteligente e aguerrido que dosa – dentro das mesmas faixas – momentos de pura brutalidade com passagens de extrema delicadeza. Tudo pesado, sempre, no instrumental ou nos versos.

A mais bem-sucedida banda a atuar neste claro-escuro foi o Nirvana, que, todavia, não o inventou. As coordenadas para se localizar o SOD, aliás, passam longe de Seattle. São algo como o heavy metal do Judas Priest ao norte, o funk metal do Red Hot Chili Peppers ao oeste, o punk hardcore do Minor Threat ao sul e o metal progressivo do Queen ao leste. Metal paca, né? Sem traços, no entanto, dos muitos clichês do gênero, como os brilhantemente sacaneados pelo Massacration, do “Hermes & Renato” da MTV.

O novo metal – e aqui o termo de fato se aplica, o que não é o caso do Limp Park ou do Linkin Bizkit (ou será o contrário?) – do System of a Down se faz no estabelecimento dos próprios parâmetros. Cada canção muda tanto de andamento ou clima que é, em si, muitas. No caso de “Mezmerize/Hypnotize”, que tem as músicas quase interligadas, uma audição desatenta pode até sugerir que as trocas de faixas ocorrem nos lugares errados, ou seja, onde o SOD apenas introduziu uma mudança na dinâmica interna de cada uma delas.

É um pouco como se a banda americana oscilasse o tempo todo entre música para desenho animado e trilha sonora para pesadelo. As animações contemporâneas e o mundo dos sonhos (bons ou maus) são mosaicos de imagens as mais diversas, separadas por cortes abruptos. Na “objetiva” do SOD, além do metal, do funk e do punk, entram toques operísticos, melodias orientalizadas e muito, muito desespero e sarcasmo. Tudo articulado por um senso escatológico – na acepção apocalíptica do termo – extremamente aguçado.

Como as partículas “-ian” de seus sobrenomes indicam, Malakian, Tankian, Odadjian e Dolmayan têm uma origem comum: são descendentes de armênios. Durante a Primeira Guerra Mundial, os turcos (muçulmanos) assassinaram sistematicamente 1,5 milhão de armênios (cristãos) em nome da segurança nacional. A magnitude do genocídio dos judeus pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial acabou obscurecendo na memória ocidental a matança dos armênios. O System of a Down berra para lembrar-nos dela.

Desde o seu primeiro álbum, de 1998, o grupo fala dos seus antepassados. Em “Hypnotize”, uma das faixas faz menção direta ao genocídio armênio, “Holy mountains” (“Montanhas sagradas”): “Você consegue sentir sua presença assombrada?/ Mentiroso, assassino, demônio/ De volta ao Rio Aras.” Tal qual as montanhas para as quais os resistentes armênios progressivamente se retiraram, ao serem acossados pelos turcos, o rio hoje no Irã testemunhou inúmeras atrocidades contra a população civil. “Holy mountains” é, assim, um comovente canto de guerra, porque fala de uma guerra perdida quase um século atrás.

A consciência de que um mundo acaba a cada dia selecionou um universo poético para o System of a Down: suas canções falam de bombas, pornografia infantil, drogas, excesso de informação, perdição em geral. A grande música de “Mezmerize” – na minha opinião, aliás, a grande música de 2005 na categoria rock – era “Lost in Hollywood”. A balada pesada captava (im)perfeitamente o sentido de urgência, misticismo e fim de mundo da Califórnia. Aproximei-me de “Hypnotize” procurando uma nova “Lost in Hollywood”.

A inexistência dela, contudo, comprova a excelência do novo CD. “Hypnotize” tem é “Kill rock’n roll”, uma linda faixa-título, “Stealing society”, “Tentative” e“U-Fig”, um quinteto que traz a essência do SOD: explosões de fúria e calmarias renascentistas. Tem também “Vicinity of obscenity”, a faixa escolhida para as rádios. Somadas a “B.Y.O.B.”, “Cigaro”, “Violent pornography” e “Old school Hollywood”, outros expoentes de “Mezmerize”, elas me reforçam uma convicção. O System of a Down não nos deu apenas o melhor disco de rock em 2005: o System of a Down fecha o ano como a maior banda de rock do mundo.

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