A banda de metal que conquistou Motörhead, Iron Maiden e George Michael
Por Bruce William
Postado em 25 de janeiro de 2026
O tipo de trio que não costuma caber na mesma frase - Motörhead, Iron Maiden e George Michael - acaba se encontrando quando a conversa é Girlschool. Na cena britânica do fim dos anos 70 e começo dos 80, o clima era de "clube fechado", e o texto do Louder/Metal Hammer lembra que o recado na porta era direto: "No Girls Allowed." Kim McAuliffe, guitarrista e vocalista, rebate do jeito que se espera de quem estava ali pra tocar: "Besteira. Tinha um monte de garotos em bandas, mas eles nunca fizeram a gente se sentir desconfortável. A gente teria dado uma surra neles se fizessem."

A história começa bem longe do glamour: 1977, Wandsworth (sul de Londres), um emprego no Lloyds Bank e a ideia fixa de montar uma banda. Kim conta que o pai topou emprestar dinheiro pra ela comprar uma guitarra, com uma condição prática: "Meu pai disse: 'Eu te empresto o dinheiro pra comprar uma guitarra, mas você tem que arrumar um emprego pra me pagar'." Pouco depois, ela e Enid Williams formaram a Painted Lady, largaram boa parte dos covers, mudaram o nome pra Girlschool em 1978 e estrearam ao vivo em abril daquele ano, no White Lion pub (Putney).
Em um ponto, Kim conta algo que explica muito do "motor" do grupo, sem precisar de discurso bonito: "A gente acabou virando uma 'girl band' porque nenhum garoto queria tocar com a gente... eles não queriam garotas na banda... então a única forma era encontrar garotas com a mesma cabeça. Aí percebemos que isso era uma coisa bem boa." E, no embalo daquele período, o punk entrou como gasolina: "Punk foi ótimo. Qualquer um podia subir e tentar. E algumas músicas eram brilhantes. Nosso disco favorito pra colocar antes de sair era o Sex Pistols' Never Mind The Bollocks."
A "virada" veio do jeito mais anos 70 possível: gravação em porão e rádio. Um amigo ofereceu lançar o single "Take It All Away", e Kim lembra: "A gente achou que ia ser glamouroso, mas acabou gravando numa tarde bem fuleira num porão em Soho... e quando saímos na luz do dia, o radialista John Peel estava no topo da escada." Peel começou a tocar a faixa na BBC Radio 1, e um dos que ouviram foi Lemmy. O ex-guitarrista do Motörhead Fast Eddie Clarke resumiu a reação do chefe: "Ah, o Lem amava elas. Ele curtia qualquer coisa rápida, empolgante e barulhenta. E elas sabiam tocar seus instrumentos, diferente daqueles punks de merda."
Quando veio o convite, Kim conta que foi atrás de um 12" com a faixa "Motörhead" pra sacar com quem estavam lidando. A reação foi imediata: "A gente colocou [o disco] e não acreditou: 'Caramba, é meio parecido com a gente!'" O Motörhead levou a Girlschool pra estrada como banda de abertura na turnê do "Overkill" (1979), e Kim insiste num detalhe que, no papel, muda tudo: "Ele tinha reputação de arruaceiro. E era! Mas ele sempre foi um cavalheiro com a gente. E nunca falou nos olhando de cima pra baixo." Nessa fase, Londres era território de guerra: lugares como o Bridgehouse, onde Steve Harris aparecia pra ver o que estava rolando, e a vida de van com orçamento de sobrevivência. "A gente tinha, tipo, uma libra por dia... era ou uma cerveja ou uma torta. A gente vivia de Bounty", se referindo a uma barra de chocolate barata e comum no Reino Unido.
Em abril de 1980, elas gravaram o debut "Demolition" com o produtor Vic Maile (associado ao Motörhead) e, no ano seguinte, veio a parceria mais visível: o EP "St Valentine's Day Massacre" (fev/1981), creditado como Headgirl, com um cover de "Please Don't Touch". O Louder/Metal Hammer diz que o disco chegou ao nº 5 nas paradas britânicas - o melhor resultado que qualquer um dos dois alcançou - e ainda rendeu Top Of The Pops. Kim lembra o peso disso: "Top Of The Pops era um objetivo pra qualquer banda... lembro de todo mundo num mini-ônibus no caminho... e a gente não conseguia acreditar."
A partir daí, surgem os "personagens colaterais" que deixam a história mais saborosa. O texto diz que elas circulavam com gente do Led Zeppelin, Status Quo e Pink Floyd, e que um frequentador de pub na vizinhança do estúdio virou presença conhecida. Kim conta a cena com simplicidade: "Ele ficava tipo: 'Hello girls!' sempre que a gente entrava... Era um cara adorável... O nome dele era George Michael." Depois, elas lançaram o "Hit And Run" (1981) e, no ano seguinte, tocaram nos EUA com Scorpions e "os velhos conhecidos" do Iron Maiden. Kim é bem objetiva sobre a diferença de estratégia: "Você tinha que estar lá o tempo todo pra estourar na América, como o Iron Maiden... A gente fez três meses e meio com eles e o Scorpions e isso foi duro."
O resto não é conto de fadas: os anos 80 seguiram com mudanças de direção e o grande sucesso escapando pelos dedos, e o próprio Fast Eddie resumiu isso como "sorte do jogo". Kim, por outro lado, dá uma explicação que não tenta reescrever nada: "Talvez a gente não tenha levado isso a sério o bastante… A gente só estava ali pra se divertir."
A banda continuou ativa por décadas, com Kim e Denise Dufort à frente, e um capítulo que diz muito sobre a relação delas aparece quando Kelly Johnson morreu de câncer, em 2007: no disco seguinte, "Legacy" (2008), as colegas sacudiram as cinzas dela como se fossem maracas na faixa "Everything's The Same". Aí a Kim emendou, com aquele humor seco de quem viveu tudo junto: "Ela queria fazer uma participação especial… Ela fez uma participação fantasma."
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