Escrever sobre o AC/DC não é uma simples tarefa. Aliás, antes pelo contrário: retratar com palavras a trajetória biográfica de um dos maiores patrimônios do rock n' roll reveste-se em uma missão determinantemente hercúlea. Este é o painel que a jornalista americana Susan Masino traçou em sua obra "Let There be Rock: A História da Banda AC/DC", que há pouco tempo atracou em livrarias tupiniquins. Por mais que a existência de uma obra deste tipo sobre um dos grupos de rock mais emblemáticos da história seja louvável, transformando-se em um indispensável item de colecionador, a obra trafega, em certos momentos, na contramão.

Susan Masino é considerada como uma das mais importantes jornalistas especializadas em rock nos EUA. Sua convivência próxima com grandes nomes da década 70 e 80 (como KISS, VAN HALEN e MOTLEY CRUE) impulsionou a manufatura de "Rock n' Roll Fantasy: My Life with AC/DC, Van Halen and KISS", sua primeira obra literária e editada originalmente em formato e-book e que alavancou sua carreira como escritora. De fato, Masino é uma amante incondicional do rock e, principalmente, do AC/DC, fator este que possibilitou à autora evidenciar suas andanças com as bandas acima referidas e, provavelmente por isso, ela seja uma das figuras mais queridas pelos grupos ao se tratar do meio jornalístico destinado à música.
Todavia, como se verá adiante, toda a paixão de Masino pelo rock e, em destaque, pela trupe dos irmãos Young acabou por comprometer o viés qualitativo do livro.
Como não poderia ser diferente, "Let There be Rock:..." inicia os trabalhos tratando da história de Angus e Malcom. Oriundos de uma família de músicos, Masino conseguiu captar com clareza a importância desta influência na formação dos irmãos Young. Desde a saída prematura da Escócia para a Austrália, até o sucesso peremptório do Easybeats (banda do irmão de Malcom e Angus, George, que até hoje é considerada como "os Beatles" australianos), a relação e evolução de Angus e Malcom com o rock n' roll é tratada com responsabilidade. Outro ponto importantíssimo que merece destaque é a narrativa da turbulenta infância e adolescência de Bon Scott, pedra fundamental e eterno ícone da banda.
É interessante ler a obra e acompanhar o desenvolvimento do AC/DC visto por "trás" das cortinas. Além de entrevistas com todos os membros do grupo, Masino lançou mão de diversos artigos, resenhas e comentários feitos sobre a banda em publicações de relevância, que vão desde o top de Creem, Kerrang! e Rolling Stone até os fanzines publicados na Austrália que, já em 1975, evidenciavam os primeiros passos do grupo. Tal prospecto é importantíssimo pois corrobora o peso das declarações que permeiam o livro.
Contudo, é nestas folhas iniciais que o leitor poderá encontrar as primeiras dificuldades. Logicamente, o AC/DC possui uma extensa carreira e, ao retornar até a infância dos principais membros da banda, esta observação se torna ainda mais alongada e densa. Logo, a indicação de datas nos títulos dos capítulos e no meio da narrativa auxiliariam a quem deita os olhos sobre a obra a se "localizar" na vasta história no grupo, que beira já quatro décadas.
No entanto, isso não ocorre: inúmeras são as vezes em que o leitor tem que parar a leitura, voltar duas ou três páginas, e então saber em qual ano a autora está concentrando sua atenção, uma vez que os capítulos levam somente o nome de discos e canções. Levando em consideração a intensidade do AC/DC, que desde seu "nascimento" passou anos excursionando sem pausas consideráveis, a indicação de datas é indispensável para que o leitor que ainda não decorou o ano de lançamento cronológico dos álbuns do grupo ou o tempo de duração de cada turnê possa se ambientar e apreciar com calma a obra.
Outro ponto negativo reside no hábito intermitente da autora em travar a narrativa para dialogar com o leitor. Essa técnica pode ter funcionado com a genialidade de Machado de Assis mas, para Masino, faltou no mínimo tato. Por vezes, parece que não estamos a ler a história do AC/DC, mas sim, uma confissão extensa de sentimentos da autora.
Talvez, ao incluir tantos pontos de vista extremamente pessoais (revestidos em piadas e comentários desnecessários), Masino tenha condenado à indiferença certos tópicos da história da banda, como a postura de palco de Angus no início da carreira e o fascínio que Bon exercia sobre o público. E, em outras oportunidades, pode-se perceber que a tradução e a edição também pecaram em certos aspectos. No decorrer do livro, algumas frases simplesmente não fazem sentido ao parágrafo que integram. Por sua vez, na relação de fotografias e imagens do livro, algumas delas surgem com legendas totalmente equivocadas (como em uma foto em que Brian Johnson aparece sozinho no palco e a legenda nomina a banda inteira "bebericando" em uma bar em Rhode Island).
Felizmente, o livro guarda momentos de êxito que compensam as falhas. Masino merece todos os méritos por captar singularmente a importância de Bon para a banda e o impacto que a sua prematura perda representou ao AC/DC. Adiante, ela narra com maestria o esforço empenhado por Johnson ao substituir Bon Scott e, mesmo todos já sabendo que ele lograria sucesso nessa missão, nós acompanhamos a narrativa como se desconhecessemos o seu final, tal qual em um bom suspense relido. Vale, de fato, muito a pena.
Igualmente, Susan demostrou a importância da influência de George Young para que seus irmãos mais novos sempre respeitassem a essência do rock n' roll. Se o AC/DC é (re)conhecido e respeitado por nunca ter deturpado a fórmula de sua música ao longo de sua carreira, devem isso certamente à George.
Outro ponto interessente é o invejável fôlego da banda: desde 1975 até a segunda metade da década de 80 o grupo simplesmente não parou de excursionar. Nem mesmo a morte de Bon obstou por muito tempo o vigor de trabalho do AC/DC (muito embora, nesse caso particular atinente à perda de Bon e o lançamento quase contínuo de "Back in Black", a banda admita ter se "afundando em trabalho" para suportar o falecimento do amigo), o que ressalta ainda mais o compromisso do grupo com a música e, principalmente, com seu público.
Em suma, diante dos possíveis prós e contras, "Let There be Rock: A História da Banda AC/DC" vale a pena ser adquirido como item de coleção (pois é a primeira biografia do grupo traduzida para o português) e estudado com empenho. Talvez, o único problema do leitor resida na superação da nítida limitação da redação da autora e da tradução falha desta primeira edição em solo brasileiro. Mas, fora isso, a obra apresenta uma visão interessante do grupo e reforça ainda mais a sua importância. Afinal, AC/DC é um sinônimo forte e eterno de rock n' roll.
LET THERE BE ROCK!!!
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