"Falling Into Infinity", o álbum mais injustiçado do Dream Theater?

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"Falling Into Infinity", o álbum mais injustiçado do Dream Theater?


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Você já deve ter ouvido, lido ou até mesmo falado em algum lugar, quando o assunto era o Dream Theater, coisas como “ame-o ou odeie-o”, “oito ou oitenta” ou “não tem meio termo”. O pior é que, em se tratando da famosa banda norte-americana, a coisa funciona mais ou menos desse jeito mesmo. Tão comum e recorrente quanto as citações acima em relação à banda é a afirmação de que o grupo esbanja técnica mas deixa a desejar quando o negócio é ‘feeling’, aquele fator subjetivo que, possivelmente, é o que há de mais importante quando o negócio é fazer música. Mas será que eles não têm mesmo nem um pouco desse tal de ‘feeling’? E se chegasse alguém um dia e dissesse que um dos álbuns mais criticados da carreira da banda é justamente aquele que mais tem ‘coração’, ‘alma’? Esse dia chegou...

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Eu tenho noção da confusão que estou criando ao escrever essas linhas, já que o Dream Theater é uma banda que tem uma enorme quantidade de fãs, os quais estão entre os mais fiéis que se conhece. Só que tamanha quantidade de fãs rivaliza em número com a também enorme quantidade de detratores do grupo. O problema é que o álbum que vamos comentar aqui, além de não ser visto com bons olhos pelos críticos da banda, também não é muito bem avaliado por uma boa parte dos fãs, inclusive aqueles mais fanáticos. Vamos falar hoje sobre o álbum “Fallling Into Infinity”.

A trajetória do Dream Theater até o ano de 1997 lhe gabaritava para ser reconhecido como o grande nome do prog metal mundial. O começo com “When Dream And Day Unite” foi mais do que promissor, com a banda mostrando o embrião da mistura de estilos e influências que se tornariam sua marca registrada através do tempo. Os trabalhos seguintes, “Images And Words” e “Awake”, não só viriam a levar o nome da banda a ser conhecido no mundo e consolidar sua carreira, como também são considerados por muita gente até hoje como as duas melhores obras já realizadas pelo grupo. O EP “A Change Of Seasons” foi um excelente brinde para o fiel público do Dream Theater, com sua épica faixa-título em meio a ótimos covers de canções de artistas que influenciaram e influenciam o som dos caras até os dias atuais. Nesse meio tempo, ainda durante as gravações de “Awake”, a saída do tecladista Kevin Moore seria um fato que, pra muita gente, viria a influenciar de maneira definitiva toda a obra dos americanos nos anos posteriores, já que não são poucos os que consideram que Moore era a força criativa principal por detrás da banda e que seu desligamento do grupo acabou com uma química que eles nunca mais conseguiram reproduzir em trabalhos subseqüentes.

Para o lugar de Moore, foi chamado o tecladista Derek Sherinian, que já havia tocado com gente como Alice Cooper e Kiss. O primeiro trabalho oficial de Sherinian com a banda foi em “A Change Of Seasons”, mas este, embora contivesse uma faixa inédita de mais de 26 minutos, não podia ser considerado como um álbum inédito de estúdio. Com isso, a primeira real incursão do músico num álbum de inéditas do Theater se deu mesmo com “Fallling Into Infinity”.

Bem, a maioria das pessoas concorda que a banda vinha num crescente contínuo desde seu primeiro disco, ainda que as preferências entre o segundo e o terceiro trabalho deles sejam bem divididas, mas ninguém discorda que são álbuns de um mesmo nível. Com isso, as expectativas para “Fallling Into Infinity” eram enormes e as melhores possíveis. Acrescente ainda o fato de que o Dream Theater já deixava de ser uma novidade ou uma revelação e passava a carregar as responsabilidades e cobranças com as quais um grande nome de qualquer estilo musical precisa conviver. Mais que isso, a banda já passava a sofrer pressão para que atingisse certos objetivos em termos comerciais, dado o patamar ao qual haviam sido alçados. Essa conjunção de coisas, aliada às já conhecidas exigências que os fãs, sobretudo os mais antigos, costumam cobrar de seus ídolos, e ainda somada a alterações um pouco mais radicais que a banda levou adiante em seu som, fizeram com que “Fallling Into Infinity”, desde o seu lançamento, já fosse reconhecido como a ‘ovelha negra’ dentre os álbuns do Dream Theater. As músicas de estruturação mais simplista, um pouco mais melódicas e sem toda a agressividade vista, por exemplo, em “Awake”, fariam com que a maioria apontasse o dedo para a banda e a acusasse de ter tornado o seu som comercial. Eles próprios nunca fizeram questão de negar com veemência que tivessem sofrido pressão para produzir algo que fosse mais fácil de ser colocado no mercado e mais palatável para uma fatia maior de público.

Desde então, o álbum passou a ser considerado aquilo que cai como uma verdadeira maldição para qualquer fã de vertentes mais pesadas ou mais elaboradas do rock: um disco ‘pop’. No entanto, ninguém (a não ser a própria banda) jamais poderá dizer até que ponto esse disco foi planejado visando apenas ser um sucesso comercial e com o intuito de abrir portas em mercados com outros perfis que normalmente não se interessariam pelo que a banda fizera em seu passado até então. Por mais que o disco seja mais acessível, ele poderia e deveria ser visto como uma espécie de evolução, uma busca por novos horizontes, já que esse álbum, sob hipótese alguma, veio para descaracterizar o som da banda. Pelo contrário, as raízes prog metal podem ser observadas nas canções desse trabalho sem a menor dificuldade. Por outro lado, a eterna acusação de que seus músicos sempre foram extremamente exibicionistas perde força aqui, já que as músicas desse disco são mais simplistas, ainda que o virtuosismo de Portnoy e cia continue saltando aos olhos (e ouvidos) da primeira à última faixa. E o principal, o ‘feeling’, justamente aquilo que meio mundo fala que o Dream Theater não tem. “Fallling Into Infinity” é carregado de sentimento. Embora seja um disco mais calmo e não muito agressivo, as melodias, a entonação do vocal em harmonia com as letras, são coisas que transmitem uma carga de sentimento maior do que o que eles já haviam feito antes. Não é questão de dizer que o álbum é melhor que seus antecessores, mas de dizer que este é um disco mais passional.

“New Millennium” mostrou-se uma ótima faixa de abertura, já iniciando com o excelente clima ditado pelo baixo de John Myung. O riff empolgante e a hesitação entre o peso e a introspecção, aliado a já famosa técnica dos músicos fazem dessa uma excelente música. E Derek Sherinian mostra que tinha muito a dar à banda em termos de técnica e criatividade. Quem acusa o álbum de ser comercial deve ter começado a pensar assim após ouvir a segunda faixa, “You Not Me”. Música muito bem executada, sobretudo por John Petrucci, mas com um daqueles refrões pegajosos, que são capazes de grudar na sua cabeça durante um dia inteiro, seja onde você estiver e seja o que estiver fazendo. Quando se iniciam as primeiras notas de “Peruvian Skies”, a impressão é de que teremos uma nova balada, dado o seu início tranqüilo e melódico. No entanto, a música vai se tornando pesada, forte e acaba por desembocar num heavy metal daqueles, que caberia muito bem no “Awake”. Excelente canção. Em “Hollow Years” temos uma balada de verdade, com uma grande letra e um enorme potencial radiofônico, coisa da qual a agressiva “Burning My Soul” passa longe. Esta é, fácil, a mais pesada do disco, onde a banda mostra que velhas influências do universo do metal, como Black Sabbath, Metallica e Iron Maiden, ainda podiam se fazer presentes. A banda inteira faz bonito, mas há de se destacar a guitarra de John Petrucci e o excelente trabalho vocal de James LaBrie.

“Hell's Kitchen” destaca-se como talvez a melhor música do álbum, onde a banda mostra todo o seu talento e coesão. Petrucci dá outro show à parte, sobretudo nos solos. Clássico, e que já emenda, na seqüência, com outra canção primorosa, que é “Lines In The Sand”. Aqui, a banda dá ainda mais vazão à sua veia progressiva, com belos arranjos e com outro ótimo trabalho de Sherinian. Além disso, essa é uma das grandes letras da carreira do Dream Theater. “Take Away My Pain” é uma bonita balada, com mais uma boa letra e uma atmosfera agradável, que acabaria se tornando um dos destaques do disco. “Just Let Me Breathe” é outra faixa que merece destaque, mais pelo instrumental e, principalmente, pelo clima agressivo que emana da canção. A balada “Anna Lee” deve figurar entre as mais famosas de “Fallling Into Infinity”. É uma boa música, mas falta alguma coisa, talvez o ‘sentimento’ tão necessário em uma música com esse tipo de proposta e que pode ser percebido nas outras canções, até mesmo nas mais pesadas do trabalho. Mas não deixa, de toda forma, de ser uma boa canção. Pra terminar a história, somos brindados com “Trial Of Tears”, a maior e mais progressiva do disco. Essa é a que mais lembra o som que a banda levara adiante em álbuns anteriores e também em posteriores. Dividida em 3 partes, é nessa música que o virtuosismo dos músicos mais aparece, com mais uma performance impecável de John Petrucci, John Myung e Derek Sherinian.

O disco, como era de se supor, foi chamado de ‘pop’, ‘comercial’ e outras coisas ainda menos elogiosas. Logo surgiram aqueles que identificaram na ausência de Kevin Moore o real motivo daquela suposta mudança de rumos. Até hoje tem quem diga que Kevin era a alma da banda. Derek Sherinian passou a ser responsabilizado por ter modificado sutilmente o som do grupo, numa tentativa de pasteurizá-lo. Falar isso é tão injusto quanto não reconhecer toda a qualidade desse trabalho. Basta ver os trabalhos solo do tecladista ou suas contribuições com outros músicos e perceber que ele não é um instrumentista essencialmente voltado para sons comerciais. Sherinian, na verdade, é responsável pela execução dos momentos mais complexos e, em conseqüência disso, menos acessíveis de “Fallling Into Infinity”. No entanto, ele definitivamente não caiu no gosto de boa parte dos fãs e acabaria por sair da banda pouco tempo depois, sendo substituído por Jordan Rudess. Tecnicamente falando, embora as canções desse álbum sejam excepcionalmente bem executadas, o Dream Theater tem em sua história trabalhos com maior complexidade instrumental. E então caímos naquela questão de que se a banda abusa do virtuosismo, é acusada de ser exibicionista, se faz algo mais simples, está mudando a essência de seu som e apelando para um lado mais ‘mainstream’. Os ‘Johns’ (Petrucci e Myung) comparecem com a técnica e competência de sempre. James LaBrie faz bem o seu papel na banda e é, inclusive, o responsável por alguns dos momentos mais empolgantes desse álbum. Mike Portnoy, estranhamente está bem mais contido nesse disco, só que o ‘contido’ de Portnoy já é suficiente para deixar boquiaberto qualquer um que se liga numa bateria bem tocada. O famoso ‘feeling’ que tanto se cobra de todo artista é presente em todas as faixas desse álbum, em algumas de forma mais intensa. Só que falar isso é algo totalmente subjetivo, pois o mesmo som que pode hipnotizar um grupo de pessoas pode não representar absolutamente nada para outras.

Este álbum consegue ao mesmo tempo ser coeso e heterogêneo. É um trabalho que traz em si uma grande diversidade, com várias possibilidades e influências diferentes a serem exploradas. Aqueles que defendem o disco dizem que ele talvez seja o único onde não existem momentos sonolentos derivados das viagens instrumentais da banda. Com o lançamento do ainda mais polêmico “Train Of Thought”, muita gente até passou a pegar mais leve nas críticas a “Fallling Into Infinity”, voltando sua fúria para o dito “álbum new metal” do Dream Theater, só que isso é conversa para um outro dia. Entretanto, não é difícil achar quem ainda coloque “Falling” entre os discos ‘indesejáveis’ da banda.

A verdade é que, com esse trabalho, os norte-americanos mostraram que são capazes de esbanjar técnica sem ter que apelar para malabarismos instrumentais. Mostraram que são capazes de colocar boas doses de ‘sentimento’ em uma obra. Mesmo que se considere que as músicas da banda não trazem emoções ‘à flor da pele’, deixaram claro que virtuosismo e intensidade podem sim andar lado a lado, e ainda provaram que não é porque um trabalho pode ser classificado como comercial que ele é necessariamente ruim. Qualidade é algo que não tem nada a ver com isso e, sim, com sinceridade e crença naquilo que se está fazendo. Este não é o melhor disco da carreira da banda, mas é, sem dúvidas, um álbum essencial em sua discografia, que lhe propiciou a oportunidade de evoluir e alçar outros vôos, como em “Scenes From a Memory” e “Six Degrees Of Inner Turbulence”. Justamente por não ser merecedor de tantas críticas é que este disco é mais um que entra nessa lista de obras injustiçadas historicamente no rock e no metal. Se você concorda ou não, isso você deverá dizer, de preferência após pelo menos mais umas 2 ou 3 ouvidas nesse disco.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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