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Josefus, The Dead Man From Texas

Musicalmente, ou melhor, "roqueirísticamente" falando, a maioria se lembra do Texas como sendo o local de onde vieram ZZ TOP, JOHNNY WINTER e STEVIE RAY VAUGHAN; alguns vão se recordar de JANIS JOPLIN, nascida na pequena cidade de Port Arthur (embora tenha "estourado" de fato em São Francisco), e os mais ligados às origens, com certeza mencionarão BUDDY HOLLY e ROY ORBISON.

Mas, como de praxe, sempre há aqueles que, apesar de terem um trabalho maravilhoso, permanecem praticamente ignorados pela maioria, caso do JOSEFUS, cujo álbum 'Dead Man' merece um lugar de destaque aqui nesta coluna...

"Carioca não trabalha, vive na praia", "Austrália só têm canguru", "Baiano é preguiçoso". Inúmeros são os estereótipos que carregamos vida afora, sem nos dar conta que vez por outra são o princípio de algum tipo de preconceito, e que as coisas não são bem assim...

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Sempre tive a impressão que o Texas, nos Estados Unidos, era um local onde só existiam homens durões, que resolviam tudo no murro ou à bala - culpa dos filmes de faroeste que assistia na televisão desde criança, e principalmente de gibis como Tex, que contam as aventuras de um Ranger (espécie de "justiceiro local" ligeiramente amparado pela Lei) implacável com os malfeitores!

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Mais tarde veio o seriado "Dallas", com o ator Larry Hagman no papel de JR, um inescrupuloso empresário texano (linhagem do qual descende diretamente o atual presidente dos EUA), personagem típico de uma região que até meados do século XIX era disputada por americanos e mexicanos, e que inicialmente se notabilizaria por imensos latifúndios onde a perder de vista pastavam sossegadamente manadas de bovinos, até a descoberta de imensos lençóis petrolíferos, que mudariam drasticamente o panorama econômico, embora a "selvageria" dos caubóis, pistoleiros e justiceiros prosseguisse.


Conheci Adão quando adolescente, em um campinho de várzea onde costumava bater umas peladas. Na realidade, havíamos "abrasileirado" seu nome, pois ele se chamava Adam, e havia nascido em Dallas, no Texas, tendo vindo para cá alguns anos antes, logo que seus pais se separaram (o pai era gringo, a mãe carioca).

Apesar de ser bem maior que nós, tinha um jeitão meio desengonçado, salientado ainda mais pelo português carregadíssimo de sotaque, e ainda por cima era totalmente contra violência física de qualquer espécie, sempre dizendo que tudo deveria ser resolvido na base da conversa, tanto que em mais de uma ocasião se valeu da imponência de seu porte para separar as habituais brigas que rolavam entre a garotada.

Achava que ele deveria ser diplomata quando adulto, minha mãe havia me dito que estes profissionais viviam "conciliando divergências" entre os povos. Cheguei a lhe dizer isto, mas ele retrucou afirmando que iria fazer medicina. Me calei respeitosamente, pois salvar vidas me soou muito mais nobre que apaziguar divergências.


História típica: em meados dos anos sessenta, dois adolescentes (o baixista Ray Turner e o guitarrista Dave Mitchell) se conhecem em uma banda chamada RIP WEST, que por volta de 1968 encerra atividades, tendo ambos resolvido montar o UNITED GAS, que contava ainda com o baterista Doug Tull e o vocalista e guitarrista Ray Hilburn.

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Pouco tempo depois, Hilburn é substituído pelo vocalista Pete Bailey, ao mesmo tempo em que ingressa o guitarrista Phillip White, que permaneceria durante algum tempo com a banda, nesta época já rebatizada de JOSEFUS, por conta de Doug (diz-se que um belo dia ele simplesmente pegou o microfone e se apresentou como "Douglas Josefus Tull", complementando que o grupo levava seu sobrenome - na realidade, seu nome real era Douglas Jack Tull).

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Seguem tocando em pequenos clubes, até que em uma ocasião estava na platéia um promotor de shows chamado Bob Gately, que gosta do que vê e os indica para Terry Knight, empresário do GRAND FUNK, a contratá-los para abrir duas apresentações que Mark Farner & Cia fariam em Austin e Houston (nesta última também estava presente o ZZ TOP).

Gately se interessa tanto pelo grupo que acaba convencendo um produtor musical de Phoenix chamado Jim Musil a contratá-los, e com isto lá vão eles para o Arizona, onde gravam algumas faixas para um álbum entre os dias 17 e 18 de dezembro, que seriam usadas por Musil para tentar convencer alguma gravadora a assinar um contrato.

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Apesar de toda liberdade que tinham em estúdio, Jim insistia que eles deveriam se chamar COME, tanto que chegou lançar pelo seu próprio selo (Dandelion) um compacto com "Crazy Man"/ "Country Boy", creditado à tal banda...

Já de volta a Houston, inicialmente o quarteto mantinha esperanças que algo aconteceria, mas o tempo foi passando e, apesar da boa vontade de Jim, continuavam na mesma. Com isto, os rapazes decidem levantar uma grana com a própria família para gravar um novo álbum.

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Como haviam gostado do tal estúdio no Arizona, para lá retornam e registram em 30 de março de 1970 o novo disco: "Dead Man", gravado praticamente ao vivo em apenas oito horas. Na realidade, o que eles fizeram foi somente regravar boa parte do material que já havia sido registrado quatro meses antes.

O álbum, lançado de forma independente (gastaram três mil dólares para no final prensar exatas 3.000 cópias) pelo próprio selo, ao qual batizam Hookah, trazia uma capa desenhada pelo pai do baixista Ray, um dos maiores incentivadores da carreira artística dos garotos.

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Com a ajuda de uma rádio local bastante conhecida, que resolve tocar o disco inteiro em um de seus programas, e principalmente graças às suas performances explosivas ao vivo, a banda começa a tocar com muitos "grandes" da época (fizeram turnês ao lado de TEN YEARS AFTER, JEFFERSON AIRPLANE, THE GRATEFUL DEAD, ROBIN TROWER e muitos outros), e com isto acabam assinando contrato com uma gravadora de Nova Iorque, Mainstream Records.

A idéia inicial era regravar pela terceira vez boa parte das composições que vinham tocando há algum tempo, mas como havia a possibilidade de Jim Musil lançar um álbum com as tais gravações que estavam em seu poder, a gravadora exige que eles gravem um disco inédito, e com isto eles acabam indo para um estúdio em Miami, onde é registrado o auto-intitulado "Josefus", lançado em outubro.

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Embora feito às pressas, o álbum traz algumas boas composições, porém perde pontos se comparado ao seu antecessor, e as vendas não são satisfatórias, além da gravadora não dispender a atenção necessária para o grupo (chegaram a lançar um compacto sob o nome "Josephus"!). E para variar, as costumeiras "divergências internas" minam o relacionamento entre seus integrantes, e o JOSEFUS original se despede dos palcos com um show em Houston, em dezembro de 1970.


Já no início de 1971 o vocalista Pete Bailey e o baixista Ray Turner montam uma nova banda chamada STONE AXE, que contava ainda com Mike "Wolf" Long na guitarra e Jerry Ontiberoz na bateria, e que dura menos de um ano, deixando como registro apenas um compacto com duas músicas: "Slave of Fear" e "Snakebite".

O guitarrista Dave Mitchell se muda temporariamente para a Califórnia, mas acaba retornando para Houston em 1974, onde dois anos depois começa a organizar e promover vários músicos locais em um projeto chamado THE GUITAR ORCHESTRA, que está na ativa até hoje (clique aqui para mais informações).

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Em decorrência de um destes shows organizados pelo guitarrista, o trio acaba se reunindo em 1978, junto com o baterista Jerry Ontiberoz, e registra no início do ano seguinte dois compactos ("Hard Luck"/ "On Account of You" e "Let Me Move You"/ "Big Time Loser"). Porém a receptividade do público já não era mais a mesma - "todos estavam mais interessados em ouvir disco-music nos clubes", diria Pete.

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E o baterista Doug Tull? Ao que tudo indica, ele sempre foi meio "atrapalhado", tanto que algumas fontes dizem que durante a tal turnê que a banda fez com o GFR em 1969 o empresário Terry Knight manifestou interesse em contratá-los, tendo deixado um número de telefone para contato assim que pudessem, mas Doug, além de ter discutido com Terry nos bastidores, consegue a proeza de desaparecer com o tal número durante uma bad trip! Pete Bailey disse inclusive em uma entrevista acreditar que o JOSEFUS poderia ter ocupado o lugar do BLOODROCK...

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Doug também participa do único álbum do CHRISTOPHER, lançado em 1970, mas não aparece na foto da capa, pois quando ela foi registrada ele havia cortado os pulsos (alguns dizem que acidentalmante, outros que se tratou de uma tentativa de suicídio), e naturalmente teve de ser internado.

Por outro lado, nas entrelinhas fica claro que ele era um dos responsáveis por fornecer "substâncias ilícitas" para os companheiros, conforme dá a entender Dave Mitchell em outra entrevista, quando perguntado sobre a inspiração para os shows energéticos que faziam: "(...)dependíamos basicamente do tipo de drogas que Doug tivesse em mãos. Ele poderia tanto nos fazer atingir nosso limite quanto 'empacarmos' como uma âncora(...)"

Doug morreu em 14 de setembro de 1990 (véspera de completar 45 anos) em uma prisão de Austion, no Texas, onde estava por dirigir sob efeito de entorpecentes. Oficialmente o baterista cometera suicídio, embora exista uma suspeita que ele tenha sido vítima de violência por parte da polícia (essas coisas não acontecem só no Brasil...).

Coincidentemente ele foi enterrado no dia 18 de setembro, 20º aniversário da morte de Jimi Hendrix, e estiveram presentes no enterro seus ex-companheiros de banda, que na ocasião haviam se reunido com uma baterista chamada Leesa Harrington-Squyres, tendo inclusive sido lançado neste mesmo ano um álbum chamado "Son Of Dead Man", por uma pequena gravadora chamada Paradise Lost Records.

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Este último disco, lançado apenas em LP e com uma prensagem de 500 cópias, é considerado pela própria banda como somente uma forma de não deixar o nome JOSEFUS desaparecer...


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Em 1983 uma gravadora francesa solta no mercado uma edição "pirata" do "Dead Man", que percorre o mundo. Algum tempo depois começam a pipocar outras edições devidamente pirateadas em vinil, até que na década seguinte surgem as primeiras prensagens em CD, todas extra-oficiais. E com 24 anos de atraso sai pela primeira vez o álbum que foi gravado em 1969, sob o nome "Get Off My Case".

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Em 1999, "Dead Man" e "Get Off My Case" são lançados em CD, numa edição dois-em-um pela gravadora Sundazed, com qualidade de som impecável (remasterizado a partir das masters) e um livreto recheado de fotos e histórias da época.

Clique aqui para ouvir trechos do CD no site da Amazon.

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E em junho de 2002 é a vez do "Dead Man Alive", editado pela Hookah Records, trazendo inúmeras raridades e faixas ao vivo, mais uma vez com um excelente livreto com fotos e histórias divertidas, relatadas por um sujeito fictício chamado Joe C. Fuss! Alguns dos registros ao vivo não têm boa qualidade sonora, pois foram feitos de forma amadora pelo pai do baixista Ray (o mesmo que desenhou a capa do "Dead Man"). Trechos podem ser conferidos no CD Baby.

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Os mais abonados podem partir direto para o "Dead Box", lançado pela gravadora italiana Akarma, que traz os três álbuns ("Dead Man", "Josefus" e "Dead Man Alive"), além de quatro faixas extraídas dos dois compactos gravados em 1978. Porém o box não traz o "Get Off My Case", portanto os "completistas" terão de adquirir a versão da Sundazed - a não ser que prefiram encarar a versão em LP, que quando aparece no Ebay bate na casa dos duzentos dólares...

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Na época em que saiu o "Dead Man Alive", Bailey, Mitchell e Turner, juntamente com a velha amiga Leesa Harrington, fazem alguns shows em Houston, para comemorar as mais de três décadas de estrada.

Ah, e eles têm um website, que fica no link www.josefusmusic.com.


Como o mundo é pequeno, anos mais tarde reencontrei na rua um cara que também fazia parte daquela "turma" que jogava bola naquele campinho de várzea, e que continuava morando por lá (eu havia saído antes de completar os 15 anos). Papo vai, papo vêm, fiquei sabendo que fulano havia se casado com bertana, sicrano estava trabalhando em tal lugar, bertano sumira, etc.

Até que lhe perguntei sobre Adão. Morto aos vinte anos de idade, em decorrência de uma bala perdida. Maneira estúpida e imbecil de partir.

Para ti, meu amigo "Dead Man From Texas", que não teve tempo de salvar vidas, esteja onde estiver, dedico este texto...

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Sobre Marcos A. M. Cruz

Nascido no milênio passado. Empresário falido, atualmente sobrevivendo de "bicos" diversos (dentre eles, professor de contabilidade - tenho cara?). Fanático por hard-rock e congêneres das décadas de 60/70, Hendrixmaníaco de carteirinha. Acha que apenas três coisas valem a pena na vida: Mulheres (mas dão um trabalho!), Rock'n'roll em geral e Motocicletas. Quando morrer, conforme combinado com o saudoso Heavyman (RIP), vai ser enterrado com um CD do Black Sabbath (ele levou um do Jimi Hendrix para a eternidade...)

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