Rafael Bittencourt e o problema dos guitarristas brasileiros: "Nos EUA não tem isso"
Por Gustavo Maiato
Postado em 27 de julho de 2026
A guitarra sempre teve espaço privilegiado dentro do heavy metal. De solos longos a demonstrações de virtuosismo, diferentes gerações transformaram velocidade e técnica em parâmetros para avaliar instrumentistas. Para Rafael Bittencourt, porém, existe um problema quando a quantidade de notas passa a ser confundida com qualidade - especialmente entre músicos brasileiros.
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Em entrevista concedida a Charles Gavin no canal da Roland Brasil, o guitarrista do Angra comentou a maneira como enxerga a cultura da guitarra no país. Segundo Bittencourt, existe por aqui uma preocupação exagerada em demonstrar habilidade técnica, algo que ele afirma não perceber da mesma maneira entre músicos norte-americanos.
"O guitarrista brasileiro normalmente é muito obcecado por quantidade de nota, coisa que você não vê nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos não existe uma cultura assim: se você tocar um montão de nota, você é melhor do que o outro. Não existe isso", afirmou Rafael Bittencourt.
O músico explicou que, em sua visão, diferentes formas de tocar recebem reconhecimento nos Estados Unidos sem necessariamente existir uma hierarquia baseada em virtuosismo. "Se você se identifica com isso, você vai tocar, mas você não é melhor do que o blueseiro, não. Porque o blues é a tradição, você veio do blues. Os caras sabem os diferentes contextos e os caras são muito valorizados. Os guitarristas de funk, que estão com aquela mãozona solta e tal, são supervalorizados."
Para Bittencourt, a situação brasileira também estaria ligada ao chamado "complexo de vira-lata", expressão usada para descrever uma tendência de inferiorizar aquilo que é produzido no próprio país. "Aqui a gente tem a velha e boa síndrome, o complexo de vira-lata, que faz a gente achar que mais é mais. E: 'Se eu botar um monte de nota, aí eu não vou ser olhado como um sul-americano que é, vamos dizer, inferior', sabe?"
O guitarrista ampliou o argumento para além do instrumento e relacionou esse comportamento à maneira como parte do público do rock observa gêneros brasileiros. "É o que faz alguns roqueiros subestimarem o samba, subestimarem a nossa própria cultura. Faz alguns roqueiros acharem assim: 'Pô, os caras botaram lá o xaxadinho do Luiz Gonzaga... Que coisa, não tem a nobreza'."
Durante a conversa, Bittencourt chegou a definir esse comportamento como uma espécie de "xenofobia com a própria cultura". Para ele, o Brasil possui um patrimônio cultural que ainda não recebe o reconhecimento correspondente ao seu potencial. "A maior riqueza do Brasil não é nióbio, nem as terras raras. É a cultura."
Rafael encerrou o raciocínio defendendo que educação e valorização cultural poderiam ajudar a mudar esse cenário. "É a nossa riqueza cultural, cara, e a gente explora pouco. Por isso que eu falo que tem que ter mais educação, porque existe aí uma riqueza que não está sendo explorada."
Confira a entrevista completa abaixo.
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