Em 10/04/2005 | Stress - Roosevelt Bala comenta os primórdios do thrash

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Stress - Roosevelt Bala comenta os primórdios do thrash


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Por Bruno Sanchez

O Stress é uma das bandas mais queridas dos headbangers brasileiros das antigas. Em primeiro lugar, os caras vieram de Belém do Pará (ainda nos anos 70) deixando o eixo comercial Sudeste / Sul para trás, fizeram shows para mais de 20 mil pessoas, foram a primeira banda nacional de Heavy Metal a gravar um álbum e, segundo alguns pesquisadores, ainda se destacaram como a primeira banda de Thrash Metal da história.

Para sanar essas curiosidades e tirar quase 30 anos de carreira a limpo, batemos um longo papo exclusivo com o baixista e vocalista Roosevelt Bala, que nos contou essa e outras histórias sobre o pioneirismo do Stress na cena nacional.



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Whiplash - Vocês começaram as atividades ainda na década de 70. Como era a cena roqueira brasileira naquela década, em especial no norte do Brasil e como vocês tinham acesso ao material das bandas internacionais já que grande parte dos discos não eram lançados por aqui?

Roosevelt Bala / Acredito que a semente do rock brasileiro foi plantada durante a “jovem-guarda”. Apesar do conteúdo ingênuo das letras e de muitas versões de músicas dos Stones e Beatles , principalmente, o movimento provocou uma certa revolução comportamental nos jovens da época. Com o fim dessa febre surgiram algumas bandas fazendo um rock mais maduro, bem elaborado e já com algumas libras de peso incluídas, é o caso do Made in Brasil, Pêso, O Terço, Casa das máquinas e até os próprios Mutantes que evoluíram bastante depois de fazerem parte da fase final da “jovem-guarda”. Rita Lee se juntou ao Tutti-Frutti e juntos criaram coisas muito boas e ainda teve o Secos & Molhados que revolucionaram com seu visual e levavam multidões aos shows. Esse era, em resumo, o panorama do rock brasileiro da primeira metade dos anos 70.

Roosevelt Bala / Em Belém o rock brasileiro dos anos 70 não tinha força. Exceto por Secos & molhados que foi um fenômeno- que não era tão rock assim - e Rita Lee que já era da poderosa Som Livre, pouco se ouvia da produção nacional. Com relação às bandas internacionais as rádios se limitavam aos sucessos do Creedence, Stones e Beatles. Mas, paralelamente às convenções, havia os remanescentes da era Hippie que foi cultuada em todo o mundo no final dos anos 60, cujo slogam Paz e Amor era propagado pelos quatro cantos. Essas pessoas continuavam sendo admiradores dos artistas e bandas que se apresentaram no Woodstock, festival que repercutiu em todo o mundo, e de alguma forma conseguiam os raríssimos discos de figuras como Jimmy Hendrix, The Who, Janis Joplin, Santana; e outros que começavam a surgir no cenário mundial como Yes, Pink e Led Zeppelin, este último abrindo as portas para o som mais pesado. Existia uma certa necessidade de repassar aos mais jovens alguns itens dessa “filosofia” de vida, poderíamos até viajar ná idéia de que na geração Hippie estaria o embrião do Underground brasileiro... O que achas?

Roosevelt Bala / A doutrina Hippie não vingou, mas a semente do rock certamente rendeu frutos, eu sou um deles. Eu já gostava de rock desde os 3 anos, usava cabelos longos e dava meus “bangers” empunhando uma vassoura na frente do rádio enquanto tocavam versões em português dos Beatles. Aos 9 anos já era um consumidor considerável de discos. Mas meu primeiro contato com o rock de verdade foi numa comunidade Hippie, lá pude ouvir enquanto admirava em minhas mãos as capas de Lps do Led, Yes, Pink, Jimmy, Janis, Edgar e Johnny Winter, Stones, Beatles e outros que não lembro mais. A partir de então me tornei um Roqueiro, essa era a “senha”, a palavra que deu início à cena underground de Belém.

Roosevelt Bala / Os roqueiros eram caras que se sentiam ótimos por serem “diferentes” das demais pessoas, no comportamento, no visual e sobretudo nas idéias e valores - mas isso dá uma discussão prolongada e não é o caso agora. Existia uma afinidade muito grande entre eles (nós), se tu ouvisses falar que havia um cara que tinha o último álbum do Black Sabbath, lá na PQP, tu botavas uns 10 discos bem legais debaixo do braço e ias até a casa do elemento, na certeza de que farias um novo amigo. Chegando lá a frase inicial era essa: Tu és roqueiro? ... Claro que sou! ... Daí já rolava uma sessão musical, na eletrola, cada um mostrando suas raridades e no final de tudo tu deixavas os teus discos emprestados e trazia outros. Esse fenômeno acontecia com muita freqüência e assim a coisa começou a crescer. Houve até uma época muito boa quando os Djs de boates agitavam a garotada só com as músicas mais dançantes das bandas de rock, Woman from tokyo e Highway Star (Deep), Satisfaction, Whole lotta love e Rock’n’roll (Led), Hair of the dog (Nazareth), Garry Glitter, David Bowie, Sweet (várias), The Hollies...e ainda tinha a hora do “amasso” embalada por “Since I’ve been loving you”, “Holly Man”, “I’m Down”, “Soon”... que era o momento do cara aplicar o 171 no ouvido da garota, dançando agarradinho. Isso durou até a chegada da Disco Music e dos temas de novela por volta de 75.

Whiplash! - Conte-nos um pouco do começo da carreira do Stress em um cenário nacional totalmente carente da música pesada.

Roosevelt Bala / Até o ano de 75 não havia nenhuma movimentação de banda de rock em Belém, o que havia era bandas de baile que tinham seus momentos para o rock, afinal um ritmo que agradava bastante aos mais jovens. Nesse mesmo ano colegas de escola, roqueiros, resolvem montar uma banda para tocar músicas de suas bandas prediletas. Escolheram os instrumentos que gostariam de tocar e começaram a aprender a tocá-los durante os ensaios. Esse seria o embrião da primeira banda de heavy metal do Brasil.

Roosevelt Bala / Como em todo começo o repertório era composto de covers internacionais. Não tínhamos nenhuma referência local e ao nível de Brasil pouca coisa fazia nossas cabeças, ouvíamos os discos e tocávamos o mais parecido possível dentro de nossas limitações, éramos todos garotos entre 14 e 15 anos .

Roosevelt Bala / Com a evolução do rock internacional começamos a dar atenção especial às bandas que faziam um som mais pesado, Deep,Black,UFO..., começamos a tocar em festinhas de 15 anos e festivais de colégio. Em 77 fizemos a primeira apresentação oficial, já com o nome Stress. Foi a primeira oportunidade que os roqueiros da cidade tiveram de se reunir, a partir de então os shows da banda se tornariam eventos de congraçamento entre os amantes do rock da cidade. Era motivo de satisfação e até de espanto para todos verem e ouvirem uma banda local interpretando clássicos do rock mundial com tamanha competência. Tínhamos o privilégio de conhecer os novos lançamentos mundiais quase que ao mesmo tempo em que surgiam no exterior, pois o tecladista viajava constantemente para os EUA e Inglaterra. Ouvíamos tudo, assimilávamos as novas tendências, ensaiávamos e tocávamos pra galera. O público sempre foi muito carente de shows, até mesmo as atrações nacionais não apareciam por aqui. Ao ver o Stress no palco, tocando clássicos do rock pesado internacional, os roqueiros da cidade podiam viajar na idéia de estarem assistindo um show com suas bandas prediletas. Foi assim que o Stress ganhou o apoio e a cumplicidade da até então pequena mas fiel tribo do rock de Belém. Hoje se pode dizer que a relação de afinidade do Stress com Belém é similar à dos Beatles com Liverpool, guardada as devidas proporções, é lógico.

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Whiplash - Além do pioneirismo da banda, vocês também se destacaram pelo lançamento do primeiro disco nacional de Heavy Metal em uma época sem produtores brasileiros no gênero. Como foi a gravação deste disco?

Roosevelt Bala / Os shows do Stress atraiam cada vez mais pessoas, à medida que a popularidade da banda aumentava. Os teatros da cidade se tornaram pequenos, a solução era fazer 3 dias seguidos. Depois os eventos passaram a acontecer em ginásios e ao ar livre em avenidas interditadas. Nessas alturas, em 79 e 80, já havia começado o processo de composições próprias, todas extremamente pesadas,rápidas e com letras fortes. O objetivo era simples: “Temos de ser mais pesados e mais rápidos do que qualquer outra banda no mundo. Vamos fazer o som que gostaríamos de ouvir”.

Roosevelt Bala / Em agosto de 82, com todas as músicas prontas , escolhidas e rearranjadas - nos arranjos iniciais as músicas eram muito longas e cheia de solos, fomos orientados por um produtor amigo a diminuí-las e viajamos pro Rio a fim de gravar o primeiro álbum. Foi uma verdadeira odisséia esse processo de gravação. Os custos de gravação de um LP na época eram altíssimos – algo em torno de uns R$ 50.000,00 atuais - Juntamos as economias, vendemos coisas e saímos de Belém pra encarar 3 dias de estrada, de ônibus. Ficamos todos “alojados” em beliches num mesmo quarto numa modesta pensão, no bairro do Catete. Quando contatamos o estúdio disseram que não precisávamos levar nada, que eles tinham tudo e tinham bastante experiência em gravar rock. Ao chegamos lá tivemos que “reconstruir” uma bateria que estava jogada num canto, pois não havia outra opção. Usamos barbantes e fitas adesivas pra fixar as partes, no final conseguimos deixá-la de pé. O tempo era curto, as horas eram caras e de cara percebemos que os “cabocos” lá não tinham a menor idéia de como gravar rock pesado. Depois ficamos sabendo que o “tudo” que eles disseram que tinham deveria ser alugado. Por sugestão deles alugamos uma guitarra do guitarrista do Roberto Carlos que foi pouco usada, pois o aluguel era uma facada. Teve um cara que assistia a gravação que emprestou a guitarra e a pedaleira , simplesmente porque tava gostando do som, ele seria mais tarde o gordinho vocalista do Dr. Silvana, o Cícero – “Eu fui dar, mamãe... - , gente boa o cara. Fizemos tudo ”nas coxas”, não tínhamos grana pra pagar muitas horas de estúdio. Assim, em dois dias, 16 horas , “concluímos” a gravação, com muitos erros e atropelos. Teve até um momento em que o técnico de gravação disse que poderíamos usar a guitarra sem a distorção do pedal, que ele a colocaria eletronicamente na mixagem, pode isso? Falando em mixagem, o resultado foi traumatizante pra nós, achamos uma porcaria, estávamos habituados a ouvir discos de bandas internacionais e imaginávamos que a nossa gravação ficaria compatível. Mas não tinha mais jeito, o cara queria cobrar horas extras pela mixagem já feita. Esperamos o cara ir no banheiro, pegamos a fita com aquela mixagem mesma e fugimos do estúdio, pois não tínhamos mais um “puto” pra pagar os extras da mixagem.

Roosevelt Bala / Mesmo com toda a decepção causada pelo resultado final , resolvemos fazer 1000 cópias , afinal já havíamos gastado uma grana preta com a viagem e a gravação. Fizemos a prensagem e pedimos apoio da Pepsi pra confecção das capas.

Whiplash - Muitos especialistas afirmam que o primeiro disco do Stress, lançado no final de 1982, foi o primeiro álbum de Thrash Metal da istória já que o Kill´em All do Metallica só sairia 6 meses depois. Você concorda com esta afirmação?

Roosevelt Bala / Sobre o pioneirismo da banda acredito que se deve principalmente ao fato de conseguirmos os lançamentos internacionais quase que em tempo real, pois o Leonardo (teclados) que fazia intercâmbio cultural trazia nas férias escolares dele.Portanto, estávamos antenados com o que de melhor se fazia no resto do mundo - isso era privilégio de pouquíssimos já que via de regra os lançamentos só chegavam às lojas daqui com anos de atraso - assimilávamos rapidamente as novas tendências e na hora de compor, pretensiosamente procurávamos fazer algo mais elaborado - sem muita frescura pra não perder o peso - e ainda mais rápido do que os mais rápidos que conhecíamos. Não tínhamos pretensão de inventar nada, "só queríamos tocar do jeito que gostaríamos de ouvir". Foi uma surpresa pra nós quando começaram os rumores de que éramos os primeiros no Brasil a fazer aquele tipo de som, custamos a acreditar que fomos predestinados a começar tudo num país gigantesco como o nosso, vindos de um estado e cidade sem nenhuma tradição nem de consumidor de rock. Tudo isso é absolutamente incrível, mesmo. Embora a maioria das matérias que lemos contando a história do metal brasileiro reserve uma ou duas linhas pra falar do Stress - "acreditem! de Belém do Pará"...-, agora temos a consciência de que isso é um fato. Quer gostem ou não, se quiserem publicar a verdade ,eles sempre vão ter de nos incluir nela.

Roosevelt Bala / Quanto a ser os primeiros do thrash no mundo, também é difícil de acreditar, talvez com o passar dos anos isso venha a se confirmar, como aconteceu com o heavy. Se não tínhamos pretensão de ser heavy, pois nem existia essa nomenclatura quando fizemos o disco, thrash muito menos. Acho que levantaram essa questão pelo fato de o disco ser mais pesado que o heavy feito na época, além disso, os timbres meio "toscos" dos instrumentos, que tanto nos incomodaram quando fomos analisar a fita mixada , no final das contas acho que deu um peso extra às músicas e uma forte sensação de "crueldade" na interpretação. Apesar de todas as dificuldades que enfrentamos pra gravar esse primeiro disco a energia sonora que ele transmite é o mais puro reflexo da nossa imensa vontade de tocar nossas próprias músicas, que expressavam no som e nas letras toda nossa indignação contra as injustiças sociais que nos cercavam. Se ao longo dos anos ficar comprovado que fomos mais uma vez os primeiros certamente será um motivo de orgulho pra nós da banda, mas foi por mero acaso, não tínhamos tal intenção.

Whiplash - Para o lançamento deste primeiro disco, o Stress realizou um show histórico para cerca de 20 mil pessoas no estádio do Payssandu em Belém do Pará. Como foi a organização e quais as lembranças desta apresentação?

Roosevelt Bala / O show de lançamento do disco foi o maior show já acontecido em Belém até então. O local escolhido foi o estádio do Paissandu. Fora um ou dois festivais com bandas nacionais e um show do Roberto Carlos, até hoje (fev 2005) nenhuma banda local ou nacional ousou fazer um evento num lugar como esse em Belém. No dia 13 de novembro de 82, cerca de 20.000 pessoas participaram da maior reunião de roqueiros que já houve em Belém e testemunharam o lançamento de uma das mais importantes obras do rock brasileiro e mundial “Stress”, nosso primeiro disco. Sempre fomos um pouco “megalomaníacos”, sonhamos muito alto, demos passos maiores que as pernas, mas, ver e ouvir aquele mar de pessoas vibrando junto com cada riff, cada virada de bateria, cada solo de guitarra, já cantando os quase inéditos refrões das músicas da banda, nossas próprias músicas, cantadas em português, o que é importantíssimo, foi algo de deixar uma “cicatriz” lá naquela parte mais sensível e resguardada do banco de dados do cérebro – ou seria do coração ? – onde são armazenados os preciosos momentos que justificam tua passagem pela terra.

Whiplash - No começo da década de 80, a banda estourou na cena nacional e ganhou grande destaque da mídia especializada. Mesmo assim, vocês enfrentaram algum tipo de preconceito no Sudeste/Sul por ser uma banda originalmente do norte do Brasil?

Roosevelt Bala / O termo Heavy Metal ainda não era amplamente difundido quando o Stress lançou seu primeiro disco, até então chamávamos simplesmente de “Rock Pesado”. Foi após o primeiro show da banda no Rio, em abril de 83, no circo voador, que o título de primeira banda de heavy metal do Brasil foi definitivamente concedido ao Stress. Da mesma forma que acontecia em Belém, os roqueiros do Rio, sempre unidos e antenados com o underground emergente na época, já tinham tomado conhecimento do Stress através de contatos entre fanzines que divulgavam a banda através de fitas cassete e informações enviadas por colaboradores de Belém. O show foi conseguido quando o batera André, numa viagem ao Rio, entregou o Lp da banda pra produtora do circo voador, Maria Juçá – que ainda toma conta até hoje - assim que ouviu o disco, impressionada com o peso do som, ela marcou o show. Quando chegamos no dia do show não tínhamos idéia da popularidade que a banda tinha no Rio. A rádio Fluminense, “A Maldita” , veiculava insistentemente uma chamada de 1’ na qual anunciava “Direto do inferno amazônico ... O Judas Priest brasileiro ... A banda mais pesada do Brasil ...”, e por aí foi. Teve até um especial à tarde onde tocaram todas as músicas do disco. O evento foi bem divulgado, mesmo. Já na passagem de som dezenas de roqueiros se aglomeravam nas grades em volta do circo pra conferir se era tudo verdade mesmo. No final desta fomos abordados por eles que incrédulos com o que tinham ouvido queriam saber mais coisas da banda. Ficaram “embasbacados” e absolutamente atônitos quando souberam que éramos de Belém do Pará. Tive de confirmar várias vezes pros mesmos caras, que tinham a cara-de-pau de me perguntar novamente se eu tinha certeza disso. Nesse primeiro momento senti que a incredulidade devia-se à imagem deturpada que a grande maioria dos “sulistas” tinham – ainda tem , embora menos – do norte e nordeste em geral. Mas, foi só nesse primeiro contato, depois sempre fomos bem tratados pelos cariocas que nos adotaram como se fossemos de lá.

Roosevelt Bala / O Show foi inesquecível, o Circo tava lotado, com pessoas posicionadas até nas estruturas metálicas que sustentavam a lona. Nesse dia fizeram a abertura o Água Brava – um ótimo trio de rock´n’roll quase hard - e o Dorsal Atlântica, que fazia covers de Judas , Motorhead – tocadas esquisitamente com uma batida de rock’n’roll - e algumas composições próprias na mesma linha. Era a primeira vez que víamos amplificadores Fender Twin – aquele pequeno – , guitarras Gibson e baixo Fender, a nossa realidade só nos permitia, com muito sacrifício, manusear instrumentos e equipamentos nacionais. Ficamos impressionados, mesmo, além do que os caras tocavam muito bem. Mas, só tinha um detalhe: não tocavam heavy metal . Era difícil de acreditar, todos ali estavam esperando o Stress, parecia que estávamos sonhando, tocar no Rio, nossas próprias músicas, pra uma casa lotada de pessoas pra nos assistirem, era incrível. Entrei no palco fazendo a aquele gesto que o cara do Manowar faz segurando o punho esquerdo com a mão direita, à cima da cabeça – eu nem sabia que existia Manowar, existia? Foi algo instintivo, mas todo mundo fez comigo, ali eu senti o carinho da galera. Abrimos o show com “Mate o Réu”, hoje um verdadeiro clássico do metal brasileiro, a porrada foi seca, certeira, a galera se assustou um pouco mas logo entrou no clima. Ouvíamos os refrões e víamos os braços erguidos numa sintonia perfeita. Quando entrou o riff inicial de “O Oráculo de Judas” a galera pirou, depois fiquei sabendo que a música tocava direto na Fluminense. No final da última música a emoção dominou, instintivamente destruímos a bateria e o baixo, a la The Who. Quando terminou o quebra-quebra veio o silêncio, a platéia começou a invadir o palco, achei que fosse levar um bocado de porrada, mas, ao contrário, nos levantaram e carregaram feito troféu. Ali tive a certeza de que tínhamos feito algo de importante, ainda não sabia exatamente o que. Depois descobri que naquela noite tínhamos recebido o “carimbo” de confirmação do nosso pioneirismo, pois, até então, achávamos que existiam muitas bandas pesadas espalhadas pelo Brasil, o que não era verdade. O Stress de Belém do Pará na Amazônia era a única banda de heavy do Brasil.

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Whiplash - Em 1987, a banda resolveu parar suas atividades e esperar uma reviravolta na cena brasileira. Por quê essa decisão?

Roosevelt Bala / Em meados de 86 as gravadoras começaram a querer “moldar” o som das bandas para uma tendência que, na opinião deles, seria comercialmente mais rentável. Em síntese seria o seguinte: a música tem de ser fácil, pegajosa e se tiver guitarras têm de ser sem distorção. Ainda tentamos fazer algo menos pesado do que costumávamos fazer, mas quando mostrávamos ao produtor ainda era muito pesado pro mercado. Nesse contexto bandas como Legião, Paralamas, Kid Abelha e outras do tipo despontaram pro sucesso. Os shows foram ficando menos freqüentes e chegou um momento em que ficou difícil nos mantermos no Rio. Resolvemos que ao invés de mexer radicalmente no nosso estilo musical – em respeito aos nossos admiradores e pricipalmente a nós e nossas idéias - o melhor seria esperarmos uma reviravolta nesse “esquema” montado entre gravadoras e Fm’s, pra que pudéssemos voltar a tocar e compor com toda a liberdade que tínhamos antes.

Whiplash - O Stress lançou seu último álbum em 1995, o experimental Stress III, mas todos os anos os integrantes se reúnem para alguns shows comemorativos em Belém do Pará. Vocês têm planos de uma volta efetiva da banda para a gravação de algum novo trabalho ou uma turnê nacional?

Roosevelt Bala / Não chega a ser uma cobrança, mas existe uma certa “conspiração” em favor da volta da banda, mesmo quem nunca teve a chance de ver ou ouvir se une nessa corrente metálica positiva pra que o Stress retome seu caminho e seu posto de “Pai” do heavy metal Brasil. Como ninguém da banda morreu, podemos dizer que “o sonho não acabou”. Por conta do relançamento do primeiro disco da banda em CD, pelo selo alemão Dies Irae, e do lançamento do site oficial da banda, a tão esperada volta aos palcos está sendo cuidadosamente planejada para que os shows aconteçam sem afetar a vida pessoal dos componentes da banda, que moram em estados e cidades diferentes e exercem atividades paralelas à música, de onde provém o sustento de suas famílias atualmente. Sendo assim, os shows serão agendados para os fins de semana, para que os membros da banda possam passar os dias úteis nas cidades onde residem. Os dois primeiros shows acontecerão em Belém, lógico, e Rio de Janeiro, os demais ainda estão sendo “encaixados”, obedecendo à estratégia mencionada acima, à medida em que as datas sejam confirmadas anunciaremos no site. Portanto, o Stress voltará aos palcos em breve.

Whiplash - Vocês passaram por quase 3 décadas de Rock e Heavy Metal e presenciaram muitas transformações na cena, o surgimento e o desaparecimento de vários estilos. Como você enxerga a cena Metal dos anos 70, dos anos 80, dos anos 90 e atualmente, e qual é a diferença entre as gerações de bangers nessas décadas?

Roosevelt Bala / Sem nenhum arrependimento posso dizer que sou um cara privilegiado: Fui concebido nos anos 60 – a década do rock’n’’roll - encarei a adolescência nos anos 70 – quando surgiu o heavy metal - atravessei os anos 80 como espectador e um dos personagens da história do rock brasileiro, nos anos 90 ..., bem..., hum ...Ah! já sei... tem uma coisa boa: conheci minha esposa. Brincadeiras à parte, existem diferenças básicas entre os roqueiros dos anos 70, os metaleiros dos anos 80 e os bangers da atualidade. Os primeiros eram quase como irmãos e a música que os unia era o rock, existia uma grande felicidade em compartilhar discos, revistas ou qualquer coisa que tivesse relação com o rock, talvez tenha sido o melhor momento, onde tudo era novo e as perspectivas de inovações alimentavam os sonhos. O início dos anos 80 ainda preservou as características da década anterior, porém sua segunda metade traria algumas mudanças. O heavy metal começava a predominar sobre o próprio rock, a nova geração já ia direto ao “ponto”, o velho rock do final de 60 não fazia mais parte da “iniciação” do “novato”. Após o Rock’n’Rio I a exploração dos “metaleiros” pela Globo, destacando seu visual chocante e seu comportamento agressivo, indiretamente influenciou milhares de jovens no Brasil todo, muitos achavam que curtir heavy metal implicaria em se transformar naquele estereótipo que, não foi criado, mas “enfatizado” pela TV. Coincidência ou não, a partir daí começaram a surgir os radicalismos e as sub-divisões do heavy metal – death, black, power, speed ... metal - o que viria a enfraquecer o movimento gradativamente até deixá-lo com pouca expressão em quase todo o país no final da década. Os anos 90 não foram muito significativos para o metal, pouca coisa nova surgiu que pudesse ser destacada como fortalecedora do movimento pesado. Exceto pelo heavy melódico - onde os músicos mostram toda sua habilidade, velocidade, virtuosismo e influência clássico-erudita aprendida nas modernas escolas de música e pelo destaque de bandas brasileiras no cenário mundial, a década de 90 passou sem grandes mudanças. Os jovens bangers que surgiram de uns 5 anos pra cá voltaram a procurar “consolo” nas bandas antigas, como que tentando experimentar as emoções tão decantadas pelos seus pais, os “velhos” roqueiros de 70, ou até mesmo, quem sabe? Descobrir onde e porque foi que os caminhos do rock se desvirtuaram.

Whiplash - Roosevelt, muito obrigado pela entrevista e gostaria que você deixasse uma mensagem para os leitores do Whiplash! e os bangers que acompanham a banda há décadas.

Roosevelt Bala / Pra galera do Whiplash eu deixo o meu obrigado pela oportunidade de contar resumidamente um pouco da história do Stress, pra que a nova geração de bangers espalhada pelo Brasil saiba como foi que tudo começou, das dificuldades que envolveram esse processo inicial de nascimento do metal brasileiro. Espero que nossa experiência sirva de referência para que os que estão atravessando momentos difíceis nunca desistam de seus objetivos, as duras batalhas só servem pra temperar o sabor da vitória e a realização de um sonho ...essa não tem preço, cara.

Roosevelt Bala / Nessa oportunidade parabenizo toda a equipe do site pelo trabalho desenvolvido com muita competência, profissionalismo e imparcialidade, que tornou o Whiplash o site favorito dos roqueiros e bangers brasileiros.

Roosevelt Bala / Não poderia deixar de expressar meus sinceros agradecimentos aos amigos e admiradores de Belém e do resto do país, pelo incondicional apoio que vêm nos dando desde os primeiros shows da banda nos anos 70 até os dias de hoje com mensagens de incentivo diárias deixadas no site. Espero que a gente se encontre pessoalmente em breve, quem sabe aí na tua cidade, num desses shows que o Stress vai fazer este ano.

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