Quando os Paralamas estiveram em Porto Alegre em maio de 1999, tive a oportunidade de realizar algo quase inédito. Entrevistar Bi Ribeiro, baixista do conjunto. Conhecido como o integrante quieto da banda, Bi foi muito simpático e contou detalhes interessantes sobre o grupo, Brasília, ritmos nacionais e muitos outros.
Agradecimentos especiais à produção do Paralamas, especialmente para Pedro Ribeiro.
Angela / Baixista bom é baixista quieto?
Bi Ribeiro / Isso é uma pergunta? Não, não tem nada a ver, não. O Baixista do Kiss é o cara da língua grande e é a cara do Kiss, e ele não é nada quieto, muito legal. Mas eu acho que os instrumentos puxam pra personalidade das pessoas. Vão sendo atraídas pelos instrumentos assim também, né? No meu caso não foi bem isso. É que eu queria tocar numa banda, queria tocar, fazer alguma coisa, e eu não sou um bom instrumentista, então, na hora o mais fácil era tocar baixo. E acabou que tem a ver. Se eu pudesse escolher um instrumento pela minha personalidade, acho que seria o baixo mesmo. Baterista tem que ser um cara mais circense, o guitarrista tem que ser exibicionista.
Angela / Qual o baixista que influenciou mais no seu trabalho?
Bi Ribeiro / Posso falar que o baixista que mais me influenciou na forma que eu toco hoje foi o Robbie Sheakspere, que é um jamaicano que já tocou com Deus e o mundo aí, que eu considero o melhor baixista.
Angela / Será que essa coisa de ser quieto não é mais ou menos uma mediação entre os outros integrantes da banda? Será que não é o Bi Ribeiro que faz o contraponto?
Bi Ribeiro / Eu sou isso mesmo. Os outros dois são muito mais quentes, assim, sabe. Eles entram em atrito bastante, numa boa, né?! Eu sou o mediador e fio terra.
Angela / Os Paralamas e o movimento musical de Brasília:
Bi Ribeiro / Os Paralamas começaram no Rio. Eu e Herbert moramos no Rio desde 77, 78. E quando essas bandas começaram foi justamente nessa época. A gente não morava mais lá. Eu ia muito. Meus irmãos moravam lá, meu pai morava...A gente não participou como banda desse movimento. Mas realmente a gente nunca se encaixou nesse negócio. Cara, tinha esse negócio do punk que me atraia muito pela coisa de qualquer um pegar um instrumento e sair tocando. Eu tinha um cabelo enorme, sabe? Todo mundo usava cabelo raspado e eu tinha um cabelo assim, ó! (abre os braços sobre a cabeça) Algodão doce, branco de sol. E eu andava com eles também. Porque eu gostava muito da geração anterior a minha, né? Dos anos 60, Jimi Hendrix, que tinha a ver com os hippies. Eu acho que eu era mais hippie dentro dos punks do que qualquer outra coisa. E quando nós chegamos no Rio e virou Paralamas, a gente não conhecia ninguém no Rio. Então realmente a gente fez a nossa galerinha ali, a partir das pessoas que tocavam com a gente. Tinha dois caras que cantavam de brincadeira. Era só uma forma de se juntar. A gente tocava porque erámos amigos e era uma atividade boa, a gente gostava de música e tal.
Angela / E a volta do SKA é saudável? O Specials está voltando, o Madness está voltando, e não nasceu morto o re-movimento?
Bi Ribeiro / Re-re-movimento. Teve SKA nos anos 50, 60. Depois teve a volta no fim dos anos 70 e agora voltou de outra forma, mais agressiva até. Eu acho muito legal as bandas novas.
Angela / O Paralamas sempre foi conhecido por fazer essa mistura de ritmos e tal. Eu ouvi em uma entrevista do Herbert que vocês conheceram os ritmos mais brasileiros em uma turnê, depois do primeiro disco, e daí depois surgiu Selvagem e todos os outros...
Bi Ribeiro / Foi isso, cara. A gente começou a gostar mais dessa coisa mais cintura, a partir desse movimento 2Ton, essa volta do SKA, começo dos anos 80. A gente começou a ouvir isso. Aí eu já conhecia reagge, Bob Marley. O irmão do Herbert adorava, mas eu não gostava do Bob Marley, achava chato. Achava reagge chato. Aí comecei a ouvir reagge a partir dos grupos ingleses. Comecei a ouvir reagge, só reagge, e aí comecei a ouvir música africana. Nós, né! Aí a gente começou a ver a sintonia que tinha, desse tipo de música com a música brasileira. E ver aqui dentro as coisas que pareciam , tipo baião com raggamuffin', ou sei lá...tem tantas coisas aqui. A gente foi associando e começou a dar valor a música daqui. Não que a gente não desse. Começou a entender melhor...Não sei. A gente deu a volta ao mundo para chegar aqui, mas pelo menos chegou, né?! A gente estava ligado em reagge, música africana, e a gente foi fazer essa excursão do primeiro disco, 84, 85, pelo Brasil. A gente não conhecia a Bahia, não conhecia o Nordeste. Eu fiquei louco. A gente ficou doido, quando fomos chegando e vendo. Eu sou muito curioso. A gente chegava nos lugares, ver as pessoas tocando nos ensaios de bloco, o que fosse. Então a gente viu muita coisa, descobriu muita coisa.
Angela / O que você anda escutando?
Bi Ribeiro / Cara, agora só estou escutando música velha. Basicamente antes de 75".
Angela / E esse projeto "Acústico"? Os fãs já estavam pedindo. É um presente para os fãs, ou a banda estava sentindo necessidade de fazer um trabalho assim.
Bi Ribeiro / A gente sempre teve vontade de fazer isso, porque tem músicas nossas, como "Vai Valer", que é uma música que a gente não conseguiu tocar na forma de banda elétrica, porque é uma música mais delicada, meio orquestral, e a gente sempre quis ter um projeto para tocar músicas que a gente não conseguia tocar como banda normal. E aí veio essa história de Acústico e a gente logo começou a brincar. E a gente já toca isso a dois anos, né? Só que foi aprimorando, começamos a fazer uns shows, e tal...Só que eu acho que o que o fã espera de um acústico não é bem o que a gente vai mostrar, né? Por exemplo: Os Titãs não tinham disco ao vivo. A gente já tem dois discos ao vivo, que toca, tipo, os maiores sucessos dos Paralamas. Então a gente não tem porque fazer isso de novo. A gente puxou músicas que se encaixavam nesse formato. E o que a gente tinha mais vontade de tocar. Algumas a gente tentou e não rolou, deixamos pra lá. Foi isso. Mas por exemplo, "Tendo a Lua", teve uma enquete aí dos fã-clubes e essa era a primeira música. Foi a música mais votada para um acústico. Por isso a ente incluiu ela. As outras, nem todas, mas...
Angela / Existe algum projeto dos Paralamas para trabalhar com bandas latinas?
Bi Ribeiro / Por enquanto não. Mas não é falta de vontade. O negócio é que perdemos um pouco o intercâmbio que a tínhamos com a América Latina porque a nossa base de operações era Buenos Aires, e o mercado lá caiu muito. Não só para nós, para os músicos de lá. A gente volta e meia vai para um festival na Venezuela, no Peru. A gente ainda faz umas coisas, mas diminuiu muito o movimento para fora. Então o negócio meio que deu uma raleada. Ficou mais ralo.
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