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Resenha - Leviathan - Mastodon

Por Nelson Endebo (O Capiroto Sabe!) |

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Mastodon, em inglês, é o nome que se dá ao gigantesco animal, parente dos elefantes, que habitou a Terra em priscas eras. Mastodon, a banda, é uma formação oriunda de Atlanta, nos Estados Unidos, fascinada por forças e grandezas intangíveis e que parece fazer desse fascínio o motivo de sua existência. Em miúdos, o conjunto adotou, como mote principal, o transformar de sentimentos em história, com todas as nuances que a empreitada necessita se almejar ser levada a sério. Megalomania aqui tem um significado puríssimo. Não é doença, não é defeito. É, sim, efeito do ambiente em que estamos. Ninguém é alheio à sua influência.

No clássico romance “Moby Dick”, de 1851, o escritor norte-americano Herman Melville desenhou um painel fantástico sobre o conflito do homem com seu ambiente. Nele, o mal pode surgir tanto na figura do Capitão Ahab como na da terrível baleia branca que nomeia a obra. De um lado, o ser racional, a civilização, com sua moral infalível, seus vícios e complexidades, que se desdobram em infinitas variáveis sem solução. Do outro, o irracional, representado no corpo colossal do animal, cuja necessidade de se alimentar é sua única motivação - não há complexidade, a trivialidade emerge imponente. De uma aparente história infantil, “Moby Dick” resvala em questões profundas e pertinentes, que renderiam um belíssimo álbum, se produzido por mãos competentes.

O Mastodon, então, com sua mania de gigantismos, resolveu encarar o desafio de fazer um álbum baseado na obra supracitada de Melville, tomando todas as precauções para não só não desvirtuar a obra como, principalmente e felizmente, não torná-la banal. O resultado é “Leviathan”, conceitual até a medula. À primeira vista, dois pontos saltam aos olhos: o uso do elemento “água” como tom predominante (o álbum anterior, “Remission”, foi baseado no elemento “fogo” – os próximos deverão trazer novas alusões à essa simbologia, presente na parte visual das apresentações ao vivo) e a belíssima arte de capa, novamente assinada por Paul Romano. O conceito do disco foi ampliado à parte sonora, com resultados animadores. Todas as nuances da eterna batalha entre Ahab e Moby Dick aparecem nas épicas composições do quarteto, formado por Brent Hinds (guitarra e vocais), Brann Dailor (um monstro na bateria), Troy Sanders (baixo e vocais) e Bill Kelliher (guitarra), que têm a grande qualidade de não desembocarem em suítes gigantes, tão caras às bandas masturba-prog. Se a New Wave Of British Heavy Metal, Black Sabbath, King Crimson e Discharge fizessem sexo grupal, o resultado seria o Mastodon.

Nos anos 80, Sonic Youth, Dinosaur Jr. e Butthole Surfers lideraram uma geração responsável pela desconstrução do hardcore de então, fazendo um som não menos barulhento. Os anos passaram, o hardcore se transformou, se adaptou, ressurgiu, inclusive, em levantes saudosistas. Agora, nos anos 00, Mastodon lidera, junto com o Dillinger Escape Plan e o Isis, a segunda desconstrução do estilo. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui pra frente. Mas, como diria Hermeto Pascoal, se “o futuro é o presente”, então o futuro é promissor.

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