Living Colour

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Living Colour

Por Leonardo Rodrigues

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Pense na cena hard rock americana de meados dos anos 80. Fácil. Paetês, lantejoulas, cabelos armados para todos os lados, refrões arrasa-quarteirão, vocalistas com cara de menina. Pense agora num grupo formado por exímios instrumentistas egressos do jazz, prontos para botar em prática uma mescla de ritmos digna dos mais inspirados discos de fusion. Num primeiro momento é até difícil traçar um paralelo entre horizontes tão distantes quanto o laquê de Bret Michaels e o sax alto de Ornette Coleman. Mas ele existe. E atende pelo nome de Living Colour.

A história começou pelas mãos de Vernon Reid, um inglês nascido em Londres e desde a infância radicado em Nova Iorque. No início dos anos 80 ele despontava como um dos grandes instrumentistas de sua geração junto ao “The Decoding Society”, banda capitaneada pelo baterista, lenda do free jazz, Ronald Shannon Jackson. Ciente de seu talento e na busca pelo próprio caminho, o guitarrista decidiu montar um grupo com um objetivo claro: romper a segregação racial que há anos ditava as regras do show-biz. Imbuído desse espírito, Reid juntou-se ao baterista William Calhoun e ao baixista Muzz Skillings, ambos jazzistas com formação acadêmica. O então power trio era uma das primeiras apostas da organização sem fins lucrativos fundada na mesma época pelo guitarrista ao lado do jornalista Greg Tate, para promover a cultura negra no rock, tão embranquecido desde a morte de Jimi Hendrix. A “Black Rock Coalition”.

Não tardou a chegada da última peça da engrenagem que daria vida ao Living Colour. Corey Glover, um jovem aspirante a ator, assumiu o posto de vocalista quando conheceu Reid numa festa de aniversário de um amigo em comum. A convocação aconteceu após impressionar o guitarrista na hora do “Parabéns para você”. Nos primeiros ensaios qualquer duvida que pudesse existir a respeito de uma escolha tão prosaica veio por água abaixo. Os improvisos de temas que uniam jazz, funk, punk, rap, heavy metal e tudo o que já houvesse passado pelos seus ouvidos, ganharam fama nos principais clubes da Big Apple como o lendário CBGD. Em pouco tempo já estavam associados à cena alternativa de funk-rock, que gradualmente ganhava corpo com nomes como Red Hot Chili Peppers, Fishbone, Jane´s Addiction, entre outros.

O pulo do gato foi dado quando um membro ilustre da platéia do clube novaiorquino fez questão de conhecê-los. Mick Jagger foi fisgado pela energia multicolorida da banda e se incumbiu de produzir a primeira demo. O apadrinhamento serviu de passaporte para a entrada na gravadora Epic. E no dia três de maio de 88, “Vivid” chegou às lojas, mais uma vez com a participação do Rolling Stone que inclusive dá uma canja no disco. De cara, o mundo tomou conhecimento da mistura dos vocais cheios de agudos e vibratos de Corey, os riffs e solos frenéticos de Reid, além, é claro, da cozinha quebrada de Calhoun e Skiiling. Com o desenrolar da turnê conjunta com o Guns N´ Roses e os Rolling Stones, o hit “Cult Of Personality” reverberou por diversas partes da América, angariando fãs e seduzindo a crítica. Talento e originalidade a flor da pele. De quebra, a faixa faturou o Grammy de 89 na categoria melhor performance de hard rock. Os planos de Reid iam de vento em popa.

O Living Colour já era uma realidade e a indústria fonográfica, que até então praticamente só cedia espaço aos artistas negros no hip-hop, começava a abrir alas para bandas de rock pesado formadas pelos “irmãos”. Nesse novo cenário cheio de raças e cores o LC solta o segundo rebento, “Time´s Up”. As doses de inspiração eclética do trabalho anterior novamente dão as caras ao longo do álbum, desta vez com o reconhecimento de uma pá de convidados especiais. Entre eles Queen Lattifa, James Earl Jones (a voz de Darth Vader em Star Wars) e Little Richard. Mais um êxito comercial com direito a outro Grammy. Para não perder o embalo, no ano seguinte sai o EP “Biscuits” com covers e performarces ao vivo. Na sequência, em 92, o grupo desembarcou pela primeira vez no Brasil para ser um dos destaques do finado Hollywood Rock. Mas nem tudo eram flores. Insatisfeito com os rumos trilhados, Skillings pede as contas no mesmo ano e é prontamente substituído por Doug Wimbish, um experiente músico de estúdio e pioneiro do contra-baixo no hip-hop.

O novo line-up é responsável por “Stain”, de 93, o momento mais denso e raivoso de toda a discografia da banda, que passa a incorporar elementos de Thrash e Metal Industrial. Mas após a turnê de divulgação do álbum - que recebeu uma repercussão apenas discreta - ao lado do Bad Brains, o clima das faixas parecia ter tomado conta dos músicos. Em meio às gravações do vindouro quarto disco, Vernon, sem mais nem menos, deixa o barco, que sem o líder-fundador naufraga em questão de dias. Até hoje o rompimento nunca foi devidamente explicado.

Foram seis anos de hiato dedicados a novas bandas e projetos individuais até dezembro de 2000, quando o Living Colour voltou a se apresentar no CBGB. A volta às origens exatamente onde tudo teve início. O recomeço pode ser creditado, em parte, aos brasileiros. Durante o período de recesso Calhoun, um entusiasta dos ritmos do Brasil, esteve no país em várias oportunidades, inclusive, produzindo um documentário ainda inédito sobre o maracatu. Segundo o próprio baterista, os maiores incentivadores do retorno foram os fãs tupiniquins com que teve contato. O resultado da nova fase é “CollideØscope”, disco de 2003 que injetou mais nuances eletrônicas na sonoridade do quarteto, mas que não deixou os integrantes muito satisfeitos com o resultado. Na turnê, mais uma passagem por nossas bandas para apresentações não menos intensas do que as da primeira vez, mesmo que para platéias mais miguadas.

Atualmente Corey, Vernon, Will e Doug alternam pequenas turnês com projetos paralelos. A volta ao mainstream parece cada vez mais distante. Pouco importa. Em duas décadas, o Living Colour mostrou ser um raro exemplo de banda muito mais preocupada com satisfação musical do que com sucesso comercial. Hibridismo musical e racial. Bom para eles, ótimo para nós.

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