Bloco dos Camisa Preta em BH prova que rock dá pé em pleno carnaval
Resenha - Bloco dos Camisa Preta (Belo Horizonte, 11/02/2023)
Por Bruno Lisboa
Postado em 23 de fevereiro de 2023
Fotos: Alexandre Biciati exceto onde indicado
Celebrando 10 anos de existência, o Bloco dos Camisa Preta é uma das maiores iniciativas e melhor alternativa para roqueiros belo-horizontinos que, há muito tempo, não têm um festival de grande porte voltado ao gênero. Com entrada condicionada a doação de 1 litro de leite, o festival, realizado no enorme galpão do Expominas, reuniu um bom público, que pode circular tranquilamente durante todo o evento.

Em sua edição mais ousada, o festival, que antes procurou conciliar bandas autorais e covers, apostou em um line up 100% focado em bandas cujo repertório prima por canções próprias. Num exímio exercício de curadoria, o cast reuniu para essa edição comemorativa o suprassumo da música pesada, reunindo bandas locais mais novas e artistas de longa data. Acertadamente, a organização colocou dois palcos dispostos lado a lado e isso fez com que a programação seguisse de maneira fluída, com poucos atrasos.

Com treze horas de programação, os shows começaram às 15 horas. Uma das primeiras atrações da tarde foi o Shiron the Iron. A sonoridade do trio segue a estética de bandas que em meados dos anos 2000 uniram elementos do blues com garage rock, tal como o Black Keys e o White Stripes. Tendo o uso de elementos percussivos como diferencial sonoro, a apresentação teve como ponto alto o single "Ain’t No or Woman to Take My Soul Soul Down" (presente EP Too Old To Die Young), uma das últimas de um show barulhento, no melhor sentido da palavra.



Na sequência foi a vez dos veteranos do Virna Lisi que subiu finalmente no palco depois de um longo hiato de apresentações - a última foi em 2009 no finado festival Eletrônika. O icônico grupo mineiro fez parte da efervescente cena mineira dos 90, tendo como diferencial dos seus pares, à época, a junção de elementos tradicionais da música popular brasileira (como o samba e o baião) e o rock alternativo. Com uma performance visceral, a banda retornou com a gana de quem ainda tem muito a mostrar e assim o fez. O set composto por 16 faixas perpassou pelos três discos do grupo privilegiando hits como "Eu Quero Essa Mulher", "Hiena Ria" e "Vou Te Mostrar", mas resgatou pérolas incomuns como "Brejo, Lodo, Boca, Mandíbula". Em tempo, a recém chegada de dois dos três discos da banda nas plataformas de streaming podem acender (ainda mais) o revival de uma das bandas mais vitais do rock brasileiro.




Os curitibanos do Machete Bomb vieram em seguida. Fundada em 2013, o grupo tem como aposta sonora misturar rap, punk, metal e samba em doses equilibradas. Ao longo de uma hora de show a banda explorou boa parte de sua discografia, mas foi a inusitada e bem-vinda versão para "Ratamahatta" - hino do Sepultura retirado do álbum "Roots" - que causou momento de catarse coletiva de uma apresentação que contagiou o público.



Jogando em casa, os mineiros do Pense fizeram uma apresentação pautada pela energia em estado bruto. Com a nova formação ainda mais afiada no palco, o grupo fez um show poderoso como todo bom show de hardcore deve ser. O tradicional início com "Revitalizar", presente no último disco de estúdio, "Realidade, Vida e Fé", já deu o tom de como seria toda a apresentação: conduzida por inúmeras rodas de pogo e stage dives. O repertório privilegiou canções dos três discos de estúdio e novas canções, como o single "As Cores São Bem Diferentes", que serve de prévia para um novo álbum a ser lançado este ano.




Um dos golaços dessa edição do Bloco foi trazer à BH o Gangrena Gasosa. A icônica e influente banda carioca nunca havia se apresentado na cidade e fez do show uma pungente ode ao metal-macumba. Acertadamente, o setlist percorreu diversas fases do grupo e trouxe hinos do underground como "Surf Iemanjá" (do clássico Smells Like Tenda Spirita), "Eu Não Entendi Matrix", "Quem Gosta de Iron Meiden Também Gosta de KLB" e "Se Deus é 10, Satanás é 666". E se a banda destruiu em sua performance, o público respondeu à altura com enormes rodas de mosh.




Unindo sonoridades ligadas ao doom e ao stoner metal o Pesta é um dos melhores exemplares da cena metal mineira, safra 10s. Com dois discos de estúdio, "Bring Out the Dead" (2016) e "Faith Bathed in Blood" (2019), a apresentação no festival foi uma boa oportunidade de ver a banda em ótima performance. Ao vivo, o grupo consegue reproduzir todo o peso e a competência construída em estúdio. No fim Jão, guitarrista do Ratos de Porão, se uniu ao grupo para tocar "Paranoid" (Black Sabbath) e colocou a casa abaixo, num dos pontos altos do evento.




A penúltima atração da noite foi o Black Pantera. Vivendo grande fase na carreira, o trio mineiro foi uma das principais atrações da noite. A apresentação coesa privilegiou o repertório do disco Ascensão, que figurou em boa parte das listas de melhores do ano de 2022. De lá, vieram porradas como "Mosha", "A Revolução é o Caos", "Padrão é o Caralho" e o single "Fogo nos Racista". Covers, presentes no EP "Capítulo Negro", como "Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro" (O Rappa) e "A carne" (Elza Soares) mantiveram o tom político da apresentação que funciona como um poderoso manifesto antifascista e antiracista.


Por fim, a atração principal da noite: Ratos de Porão. A banda, que recentemente ganhou o prêmio APCA de Artista do Ano, veio à Belo Horizonte para divulgar o álbum "Necropolítica", trabalho em que o grupo evidencia o que sabem fazer de melhor: canções rápidas, mordazes e pontuais sobre a política nacional. A sequência matadora iniciada por "Alerta Antifascista", seguida de "Farsa Nacionalista", "Amazônia Nunca Mais" mostraram como o repertório do quarteto segue atual. Eram mais de uma hora da manhã, mas o público seguiu atento e enérgico em total consonância e respeito a este autêntico patrimônio da cena punk hardcore mundial.


Por fim, por mais que a edição tenha tido problemas de longas filas para alimentação, compra de fichas e acesso ao banheiro feminino, o Bloco dos Camisa Preta foi uma clara prova de que a capital mineira pode, e precisa, ter mais festivais voltados ao rock autoral. Público não falta e as 10 mil pessoas que colaram na edição deste ano não me deixam mentir.




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