Epica: Falha em luz em Fortaleza foi proposital?

Resenha - Epica (Espaço Jangada, Fortaleza, 17/03/2018)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.
























Fotos: Chris Machado

O show do EPICA foi épico. Faltou luz na Terra da Luz. É muito fácil escrever obviedades sobre um show da banda holandesa capitaneada por Mark Jansen e Simone Simons, especialmente quando é o primeiro em uma cidade, como foi em Fortaleza, neste sábado, 17. Mas o show do EPICA foi tudo, menos óbvio. Recheado de surpresas, imprevistos, o show acabou saindo melhor que o programado. O resultado de um problema nos holofotes que iluminariam o sexteto foi tão satisfatório para os fãs que até parece que fazia parte do script. Teria sido uma carta na manga do EPICA para tornar mais especial a primeira visita à cidade que nasceu ao redor do Forte Schoonenborch (fundado por um conterrâneo deles, Matias Beck). Se você não tem medo de morrer, mas tem medo de estar vivo e não estar ciente disto, confira abaixo como foi o primeiro show do EPICA no Nordeste e como foi o mais especial show da turnê.

Os ingressos voaram logo que a turnê foi anuncidada, com o nome de Fortaleza. E perto do dia do show, muitos fãs, reunidos em um grupo de aplicativo que mudava de nome todos os dias (com a contagem regressiva para o show), chegaram a se quotizar para garantir o ingresso de uma outra fã para que ninguém ficasse de fora. Já dentro do Espaço Jangada. a ansiedade dos fãs e das fãs era tanta que a cada movimento dos roadies no palco, a cada teste do sistema de fumaça, a cada canção no sistema de som que lembrasse um pouco (por mais que distantemente - e bote distantemente nisso) "Eidola", a intro dos shows os gritos recomeçavam. Não era o primeiro evento no Espaço Jangada, mas era o primeiro show de metal, então era a primeira vez de todos ali. O espaço impressiona e é forte candidato a receber muitos outros shows (Cannibal Corpse e Napalm Death já foram anunciados). Amplo, com teto bem mais baixo que o Centro de Eventos, a promessa de um bom som era concreta. Só o palco que poderia ser um pouco mais alto. Quem conhece o Espaço das Américas, em São Paulo, achou o ambiente bastante parecido. Embora o Armazém, local que estava no primeiro anúncio, continue também sendo uma boa opção para shows de metal, se o show continuasse lá seria injusto com muitos fãs, que acabariam não conseguindo comprar ingressos. A opção pela mudança foi acertada e tudo indicava que seria mais uma primorosa produção da Liberation MC, com eficiente apoio local da Gallery Productions. Outro ponto bastante favorável foi a facilidade de estacionamento (como o Espaço Jangada fica dentro de um dos shopping centers mais famosos do estado, conforto e segurança estavam garantidos - não se pode dizer o mesmo das cercanias do Dragão do Mar).

Mas foi quando apagaram se as luzes e a canção começou a realmente soar que a histeria foi geral. E, detalhe importante, soubemos que a própria banda recusou-se a entrar no palco enquanto ainda houvesse alguém na fila de entrada. Ariën van Weesenbeek, o baterista, foi o primeiro a subir ao palco e tomar parte da canção. Logo chegam os demais para "Edge of The Blade". Mark Jansen e Coen Janssen muito sorridentes. Simone Simons, em seu primeiro encontro com Fortaleza, também parecia contente. Alias, ao longo do show ficaria claro que seria difícil ver o Coen de boca fechada. Estava sempre cantando, gritando, sorrindo ou fazendo mungango (se você não entendeu, vá ao Ceará pra entender - de preferência em outro show do EPICA). É incrível a potência da voz de Simone, especialmente nas partes mais líricas e nas notas mais altas, por si só já oferecendo o contraste que seria complementado com as intervenções guturais e gritadas de Mark Jansen ou com os coros (estes, infelizmente, todos pré-gravados).

Até "Sensorium" não deveria haver nenhuma surpresa no show. A trinca "Edge of The Blade", "Sensorium" e "Fight Your Demons", precedida por "Eidola", tem sido as canções que abrem todos os shows da turnê sul-americana, de setlists bem parecidos, com uma ou duas alterações em cada cidade por que o sexteto passava. E, como esperado, na canção, que é uma das mais marcantes da carreira da banda, não faltaram punhos pro ar e hey, hey, hey.

Na empolgação, é bem possível que boa parte do público nem tenha percebido que havia uma falha com os holofotes. Talvez até isto tivesse ficado mais nítido para quem estava mais atrás, mas, para quem estava mais perto do palco, aquilo era um mero detalhe de importância bem pequena. "Muito obrigada, Fortaleza. É muito bom estar aqui, mas estamos com dificuldades com as luzes", disse Simone. "Por favor, liguem as lanternas dos seus celulares e iluminem meus amigos de banda", ela continuou. E com o pedido atendido, eles não ficaram na penumbra e até fecharam "Fight Your Demons" com um pouco de salsa/samba/bossa. Mas ao fim, Mark decretou "vamos fazer uns intervalo porque se vocês não puderem nos ver, não adianta nada. E vocês nos esperaram por tanto tempo. Voltamos quando as luzes voltarem".

Não durou muito a apreensão pelo que aconteceria dali em diante e Simone voltou. "Eu tenho uma ideia. Vamos ver se dá certo". Simone pediu um celular pra ver a letra de "Solitary Ground" e ao receber um de um dos fieis fãs da plateia, presenteou, junto com Coen, todo o público de Fortaleza com a canção. Foi uma forma excelente de contornar a situação e o improviso torna a noite de Fortaleza a mais especial da turnê.

Retornando ao palco, Mark pergunta: "Gostaram do nosso improviso?" E eu pergunto. Confesse aí, Mark, foi você que mandou desligar os holofotes na terceira música? Era a isso que você se referia quando disse que em cada cidade seria uma experiência única, né? [Confira a entrevista completa com Mark Jansen.]

Simone completou: "faz oito anos que não tocamos esta" (na verdade, nem tanto, mas a última vez que tocaram a canção foi em 2011, no Manifesto, em São Paulo).

"O gerador morreu, foi o que eu soube", explicou Mark. "Não tem mais energia para o resto dos holofotes. Mas queremos tocar. Vocês querem que a gente toque também?" A resposta do público era óbvia. E a da banda foi "Unleashed". E no meio da canção (que tem um grande solo de Isaac Delahaye, registre-se), tudo começa a voltar ao normal.

O "muito obrigada" (não o primeiro, nem o último da noite) de Simone vem em português. E mais uma vez ela agradece pela paciência e pelo telefone. A menina que emprestou pulou de alegria. É hora de caçar alguns dragões, ela anuncia. E ao fim de "Chasing The Dragons", Isaac presenteia Simone com a palheta com que tocou a introdução e encerramento da canção. Ela transfere a gentileza a alguém da grade enquanto o público brada "Epica, Epica, Epica", acompanhado por Ariën. "Porque levou tanto tempo pra gente vir aqui?", questiona-se Mark antes de, em perfeito português, atestar "Vocês são foda".

Ariën se destaca mais uma vez em "Ascension - Dream State Armageddon", que é seguida de "Dancing in a Hurricane", ambas do "Holographic Principle", o álbum mais recente. Nesta, Coen usa pela primeira vez na cidade o seu teclado curvo. O tecladista tem a gaiatisse de um cearense. Quando Simone o abraça ele levanta as sobrancelhas, falando através delas olha a gata que tá me abraçando. Mas enquanto ele está na frente, Isaac ameaça: "olha que vou mexer no teu teclado". Mais uma vez sem holandês, português, cearês ou inglês nessa comunicação.

Apesar de toda a brincadeira, não há como esquecer que a canção tem tema bem sério, forte. Os acordes orientais e a letra fazem referência às crianças sírias, que "dançam em um furacão". A próxima é a pesada "Victims of Contingency", uma das melhores do "Quantum Enigma" e para ela a banda pede toda a força do público. "Vamos ver do que vocês são capazes". E, claro, o público atendeu ao pedido de Coen por roda.

Simone reconhece que "Cry For The Moon" é uma das favoritas do público. E ela proporciona realmente um dos momentos mais bonitos da noite. E, se antes boa parte do público já cantava todas as letras de cada canção, agora todo mundo canta a apoteótica parte mais famosa da obra "The Embrace That Smothers", iniciada por Mark ainda no AFTER FOREVER. Sempre muito bem humorados, os músicos demonstram também estar se divertindo e felizes com a acolhida cearense. Simone toca algumas notas na guitarra de Mark, Coen toca no baixo de Rob van der Loo. Pra fechar "Cry...", Ariën faz um tremendo solo de bateria, sob o olhar reverente de todos (menos de Coen - aquele ali não sabe o que é fazer reverência a ninguém).

"Unchain Utopia" vem como aviso: não haverá "Storm The Sorrow". Não. A canção não foi limada do setlist, mas quem tem acompanhado os setlists da turnê sabe que é uma das que pode ceder lugar a outras em cada cidade. Uma pena. Seria belíssimo ouvir ao vivo as estrofes de seis versos da bela composição. A propósito, sobre limar canções do setlist, enquanto muitas bandas optam por isso diante de qualquer bobagem, registre-se uma vez mais que o EPICA, ao contrário, incluiu uma (a "Solitary Ground", de qual falamos). "Não contem para as pessoas das outras cidades", Simone tinha dito. Impossível. Mesmo que não houvesse Internet (e meia-hora depois do show os vídeos já pipocavam no Youtube e redes sociais), ali no Espaço Jangada haviam "epicans" de várias cidades, Juazeiro do Norte, Sobral, Teresina e até Belém, além de, claro, Fortaleza.

"Once Upon a Nightmare". Depois de repetir "muito obrigada" muitas vezes, Simone pede mais uma vez a ajuda do público. "Mesmo com as luzes funcionando novamente preciso da ajuda de vocês de novo. Liguem seus celulares para "Once Upon a Nightmare". E é mais uma vez a hora do show do público. Esta é a última música da primeira parte do show. E um a um os músicos vão deixando o palco. Rob é o último.

Não há suspense. Todos sabem que eles vão voltar. E antes disso, ouve-se o "Olé Olé Olé Olé, Épica, Épica. É Coen no seu teclado curvo. É ele vai ao microfone. "Fortaleza, Brasil, como vocês estão? Alguns shows nem tudo dá certo, acontecem coisas sobre as quais não temos controle, mas esses acabam sendo os melhores. Não por nossa causa, mas por causa de vocês que ficaram com a gente.

E o careca simpático continua: "Vocês querem mais? Claro que querem. Vocês merecem mais então vou chamar meus amigos de volta. E voltam Isaac, instigando o povo a gritar, Rob e Ariën. O baterista até toca, de novo, um pouco de batucada bem brasileira. Momentaneamente um quarteto, todos na banda puxam o hey. E enquanto seus principais nomes não voltam, o EPICA Quarteto faz a festa. Até Rob, que mantinha-se mais quieto por trás da expessa barba, se solta mais. Quando Mark e Simone voltam é que começa a "Holy Land do Epica", "Sancta Terra". Coen não se contem e faz o que queria fazer há muito tempo (aposto): pula no pit dos fotógrafos e fica bem mais perto do público. Isaac não deixa barato e faz o mesmo.

"Beyond the Matrix" é a escolhida para gravar um vídeo em 360 graus. E os epicans (é assim que são chamados os fãs) aproveitam para soltar balões, deixando o clipe ainda mais bonito. E com Mark, o bárbaro que destrói a beleza (veja a entrevista - link lá em cima) atacando com mais um de seus guturais gritados, Simone e Cohen brincam de atacar o teclado. Veja o vídeo abaixo:

Mas tudo que é bom tem um fim. Até as primeiras vezes (afinal, não tem segunda vez se a primeira não acabar, né?) e o show chega ao fim com "Consign to Oblivion". "Foi maravilhoso visitar vocês e espero voltar", revela Simone antes de pedir um inusitado "wall of death". E por mais inusitado que isso possa parecer, teve wall of death no show do épica. Um tanto inesperado o povo se batendo numa canção que tem a voz de Simone, mas aconteceu. A progressiva, longa, agressiva música é também a oportunidade de mais um flash mob dos epicans, levantando cartezes com os dizeres "Por favor, voltem logo a Fortaleza". Se eles vão voltar, só o tempo pode dar essa resposta, mas se depender da paixão dos cearenses e do entusiasmo da banda, logo logo os alaranjados estarão de volta. Enquanto isso, fiquemos com as boas lembranças desse show (algumas bem tangíveis, como toalhas, palhetas e setlist - cuidadosamente enrolados em garrafas d'água para alcançar distâncias maiores quando lançados).

Agradecimentos:

Liberation MC, The Ultimate Music e Gallery Productions, pela atenção e credenciamento.
Chris Machado, pelas lindas imagens que ilustram esta matéria.

Setlist

1. Eidola
2. Edge of the Blade
3. Sensorium
4. Fight Your Demons
5. Solitary Ground
6. Unleashed
7. Chasing the Dragon
8. Ascension - Dream State Armageddon
9. Dancing in a Hurricane
10. Victims of Contingency
11. Cry for the Moon
12. Unchain Utopia
13. Once Upon a Nightmare
14. Sancta Terra
15. Beyond the Matrix
16. Consign to Oblivion

Vídeo: Comunidade Nightwish

"Beyond the Matrix", gravada em Fortaleza e disponibilizada nas redes sociais oficiais do EPICA



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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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