Bryan Adams: O ying e o yang do canadense em São Paulo
Resenha - Bryan Adams (Citibank Hall, São Paulo, 28/04/2017)
Por Fernando Yokota
Postado em 30 de abril de 2017
BRYAN ADAMS abriu na noite desta sexta-feira a sequência de três shows em São Paulo, os primeiros desde sua última passagem em 2007. Sem muitas surpresas com relação às outras apresentações do giro atual, a apresentação promove seu último trabalho, Get Up, de 2015, e além dos temas do disco mais recente, Adams tem Reckless (de 1984), seu álbum clássico, como alicerce para o repertório bem como suas inevitáveis baladas.
Uma reprodução gigante da capa de Get Up no telão introduz BRYAN ADAMS acompanhado de sua banda, todos em elegantes blazers iguais e meticulosamente cortados, tomando o palco de assalto sem qualquer cerimônia, abrindo o show com Do What Ya Gotta Do e suas reminiscências de THE WHO, a boa Can't Stand This Thing We Started e o clima sessentista de Don't Even Try emendadas com Run To You. Em Go Down Rockin', Adams chama o público que até então assistia comportadamente em seus assentos para que ficassem de pé próximos ao palco, decretando que aquela seria, e por que não, uma noite de rock.
Neste ponto, o relato de um show do canadense chega a uma bifurcação quase inevitável: falar do excesso de sacarose de suas baladas -- notadamente suas parcerias com o conhecido produtor Mutt Lange -- ou do geralmente ignorado lado roqueiro da discografia de Adams. Enquanto era evidente que boa parte de quem estava no Citibank Hall havia pago para ver Please Forgive Me ou (Everything I Do) I Do It For You, vale ressaltar que o dinheiro do ingresso também dava direito a um excelente show de rock.
O cantor não se esconde atrás das bonitas imagens no telão ou de sua ótima banda. Sua voz rouca continua em plena forma, talvez até melhor que na década de 80, executando todos os clássicos em seus tons originais e sem lutar contra os registros mais altos. As faixas de Get Up, com sonoridade retrô em sua versão de estúdio, ganham corpo com a execução ao vivo pela banda capitaneada pelo guitarrista Keith Scott, companheiro de palco de Adams há mais de trinta anos.
Ainda que um corte grosseiro, é possível dividir a discografia do canadense em dois blocos, sendo uma das parcerias com o velho amigo Andy Vallance (que predomina em Get Up) e outra da associação com Mutt Lange (e eventualmente o falecido Michael Kamen, conhecido dos fãs do METALLICA pela orquestração no álbum S&M). A primeira rendeu hits como Run To You e Cuts Like A Knife enquanto a segunda se encarregou da parte mais açucarada, incluindo coisas como o tema para o filme Don Juan DeMarco, Have You Ever Really Loved A Woman (regravada pelas lendas sertanejas CHITÃOZINHO & XORORÓ sob o título Um Homem Quando Ama).
Em duas horas de show, Adams administra esse ying e yang de sua carreira de forma sagaz, alternando as baladas com momentos mais agitados, agradando tanto os fãs dos temas românticos de trilhas sonoras nos quais se especializou como os roqueiros mais ortodoxos. Em constante interação com o público, pedindo para fazer uma selfie com a plateia, deixando os fãs tocarem sua guitarra ou perguntando como se diz "shake your ass" em português antes de tocar Go Down Rockin', BRYAN ADAMS faz uso das mais de três décadas de experiência, usando as velhas artimanhas de quem domina o palco (como perguntar o que a plateia quer ouvir enquanto já sabia o que tocaria) para tornar seu meticuloso espetáculo a experiência mais orgânica possível.
O cantor joga ainda de forma astuta com o aspecto saudosista de sua música, quando, por exemplo, a tela exibe cenas antigas em Kids Wanna Rock. O agridoce do misto de saudade e celebração tem seu clímax numa arrebatadora execução de Summer of '69, uma litografia dos dias felizes da adolescência de qualquer um que ousou ter uma banda na escola e viu o peso dos anos, das contas e da gravidade transformar os sonhos no lamento soporífico do emprego enfadonho que "pelo menos paga as contas".
Quase trinta músicas depois, mesmo o espetectador depois da performance irrefutável, da produção perfeita e das lindas projeções no telão saiu do Citibank Hall não convencido, de braços ainda cruzados e expressão sisuda na cara certamente vai passar o resto da semana sem conseguir tirar aquela maldita melodia da cabeça. Eis aí onde mora o poder do apelo pop de BRYAN ADAMS.
(com o agradecimento à T4F pelo credenciamento)
Setlist:
Do What Ya Gotta Do
Can't Stop This Thing We Started
Don't Even Try
Run to You
Go Down Rockin'
Heaven
Kids Wanna Rock
Do I Have to Say the Words?
It's Only Love
Cloud #9
You Belong to Me
Summer of '69
Here I Am
Heat of the Night
When You're Gone
(Everything I Do) I Do It for You
Back to You
We Did It All
Somebody
Have You Ever Really Loved a Woman?
Please Forgive Me
Cuts Like a Knife
18 til I Die
The Only Thing That Looks Good on Me Is You
Brand New Day
C'mon Everybody
Straight From the Heart
All for Love
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