Saco de Ratos: O rock está sempre presente nos shows
Resenha - Saco de Ratos (CCSP, São Paulo, 22/03/2017)
Por Júlia Hardy
Postado em 27 de março de 2017
A primeira vez que ouvi "Saco de ratos" foi em meados de 2009. Eu ia participar de um filme como atriz ("Boca" com direção de Flávio Frederico), e resolvi assistir toda a filmografia do ator com quem ia contracenar, o Milhem Cortaz. Para saber onde estava me metendo. Eu não tinha a menor idéia disso! Entre os filmes, estava "Nossa vida não cabe num Opala". Eu não sabia, mas este filme era uma adaptação da premiada peça do dramaturgo paranaense, Mário Bortolotto, "Nossa vida não vale um chevrollet". Nesta época, não havia Netflix e havia todo um ritual repetido por mim semanalmente com filmes alugados na locadora do bairro, esfihas e coca-cola. Basicamente, nesta época, eu deixava de sair e beber cerveja com os colegas da EAD (Escola de Arte Dramática da USP), para assistir filmes sozinha e comer esfihas.
Foi neste momento, um tanto solitário e cinéfilo, que me deparei com a dramaturgia de Mário Bortolotto pela primeira vez, adaptada para as telas do cinema. Não deve ter havido esfihas suficientes nesta noite. Porém, a maior pedrada ainda estava por vir. Ao final do filme, ainda imóvel, tentando entender o que havia se passado, entrou a trilha sonora. A trilha era "Nossa vida não cabe num Opala", adaptação da música homônima à peça. A frase "O mal mora em mim" ficou ecoando repetidas vezes na minha cabeça, e eu voltei umas dez vezes aqueles créditos para ouvir a música. Foi assim que descobri o Mário, foi assim que descobri o "Saco de Ratos". Minha vida nunca mais seria a mesma depois do primeiro show no "The wall". Eu não sabia o que era literatura Beat, nem tinha ideia do que era sair de casa sem dinheiro para voltar, e pedir ao vocalista da banda que me pagasse o táxi de volta para casa.
Passei um bom tempo seguindo a banda e conhecendo o universo que a orbitava. Tive a oportunidade de ser dirigida pelo Mário Bortolotto na peça "Curta Passagem", que desmontou tudo que aprendi na USP. Na verdade, tudo que aconteceu entre o meio de 2009 e o início de 2012 me marcaram para sempre, e houve um momento em que tive que me afastar da banda e da vida boêmia. O "Saco de Ratos" continuou me acompanhando em vídeos e em seus 3 CD’s, nos melhores e piores lugares que frequentei, depois desses anos. Eu saí da noite, mas a noite nunca saiu de mim. O "Saco de Ratos" nunca deixou de ser a trilha sonora das minhas memórias boêmias e do "submundo" que sempre carreguei no meu imaginário e no meu interior, e nunca ninguém antes foi capaz de traduzir.
Na verdade, eu nem gostava muito de rock cantado em português, desde os Titãs, na década de 80. Não havia muita coisa que eu escutasse sendo cantada em português. Muito menos um dramaturgo brasileiro, depois de Nelson Rodrigues, que me interessasse representar. Então houve o Mário. Por causa dele eu li Kerouac e Buckovski. Mas principalmente, por causa dele eu, soube pela primeira e única vez na vida o que é amar tanto uma banda a ponto de andar a pé, sozinha de madrugada inúmeras vezes pela cidade, ou me meter em brigas e colocar tudo a perder, ir e voltar de shows sozinha porque não conseguiria ficar em casa, sabendo que a banda estava fazendo um show naquela noite. Cinco anos se passaram, desde que abandonei a boemia, parei de perseguir a banda por todos os cantos, principalmente no centro da cidade. Territórios até então inexplorados para mim. Eu era uma típica aluna da USP, que vivia na Vila Madalena e só andava pela região ou em festas de amigos. No momento em que os amigos, ou colegas já não dialogavam com o meu silêncio ou o meu barulho, eu ouvi aqueles versos pela primeira vez "o mal pula comigo na piscina e não se afoga, o mal joga xadrez em tardes quentes e não se afoba, eu não pedi para minha vida ser como ela é, a ira de Deus, um disco de jazz", ou o "o mal mora em mim". Até hoje estou tentando entender porque o mal mora em mim, ou nele – o autor – ou em todos nós. Apesar da aparência de "bad boy", de adolescente cinquentão, o Mário é uma das pessoas mais bacanas que conheci até hoje. Um cara justo, generoso, que apesar de ter seu humor peculiar, só quer ver os amigos numa boa, continuar fazendo arte, e tomar seu Jack sem ser perturbado.
Até hoje me pergunto como um garoto de Londrina, que cresceu num seminário, descobriu que o mal mora em todos nós. E ainda assim, trabalha tanto pelo que escolheu na vida: ser um homem de teatro e um roqueiro, que não está disposto a fazer concessões. O Mário não vai fazer teatro comercial nunca, ou pagar jabá para sua música tocar na rádio. Ou trabalhar com gente que não acredita. Foi depois de muito tempo distante do "Saco de Ratos" que tive a oportunidade de voltar pra ver um show, numa boa. Com maturidade para tirar dali o que sempre amei: a música. Sem perrengues, confusões ou situações complicadas de anos atrás, como não ter como voltar para casa, ou brigas etílicas com amigos e conhecidos da banda. Eu não sou mais a mesma garota. A que encontrava o Mário, como se fosse por acaso, só pra ouvir ele dizer: "E aí, Julinha?", ao mesmo tempo, nunca deixarei de ser.
Esse show do CCSP foi um marco pra mim, de uma nova etapa com a banda. Talvez essa nova etapa seja mais minha, mas há algumas diferenças ali. Músicas que eu não conhecia no setlist como "Laura, Laura" (Mário Bortolotto e Fábio Brum), ou Lolita Pille (Mário Bortolotto e Fábio Brum). Também a saída do baixista Fábio Pagotto, um verdadeiro ícone da banda. Os clássicos "Putaria" (Mário Bortolotto e banda Saco de Ratos), "Boêmios errantes" (Fábio Brum e Paulo Carvalho), "Deprimido" (Mário Bortolotto e Fábio Brum), "Vulgar" (Mário Bortolotto e Fábio Brum), "Balada do Velho Quarteirão"(Mário Bortolotto e Fábio Brum) entre outros, ainda estão lá. Em "Balada do Velho Quarteirão", a música diz "A gente pode dar uma volta no quarteirão, só pra matar saudades do bairro...", é realmente muito bom matar saudades do bairro...
Saco de Ratos é também: Fábio Brum e Marcelo Watanabe nas guitarras, Diego Basanelli no baixo e Ricky Vecchioni na bateria. Neste show, marcou presença também Felipe Rocha, com seu saxofone, dando outros ares a sons tão familiares. Ainda fazendo a noite mais rica, a participação de Lique Carvalho, o Capetinha. Capetinha é um garoto especial, filho de um amigo da banda, conhecido como Capeta. Lique trouxe um frescor de inocência e rebeldia adolescente, somado aos vocais da banda nas derradeiras do setlist.
A formação clássica mudou apenas pelo baixo, mas a essência daquela banda que me tirou da solidão do apartamento e me levou à solidão compartilhada com a música, está toda ali. O blues, a intimidade e interação entre os músicos, a melancolia e o bom humor. A solidão da minha sala escura, com filmes alugados da locadora e esfihas, ainda está ali. Não há temas mais universais que o amor e a solidão, e Mário Bortolotto sabe falar disso na dramaturgia, na poesia, na prosa, e nas letras da banda "Saco de Ratos" de um jeito que é só dele. De um jeito que faz todos nós querermos dar uma volta no quarteirão e bater um papo com esse cara tímido, atrás de seus óculos escuros. Mário Bortolotto é um cara que fala de amor com delicadeza e fúria em suas letras, e no momento seguinte faz você corar de vergonha em letras como "Putaria", e se reconhecer em tantas outras como "Vulgar" que, apesar do nome, é uma música que fala de amor nos versos "Você vulgarizou a palavra amor". Ao mesmo tempo que é um rock de primeira, com instrumentistas impecáveis, que o acompanham, enquanto ele grita sonoramente com sua voz rouca de roqueiro blues, tudo aquilo que a gente quer dizer: "O amor dói, porra! E a ausência dele também!". As narrativas irônicas e minuciosamente descritivas sobre a solidão como nos versos de "Revendo Hitchcock", fazem tudo que a banda nos conta, através de sua música, ser tão íntimo e delicado, ao mesmo tempo que, o peso das guitarras, a bateria precisa, e o baixo que parece comentar um pouco o que está sendo dito, por vezes gritado ali, como a iluminação de uma peça. Não importa por qual veículo você conheça o trabalho do Mário Bortolotto. Você pode ler um livro, assistir a uma peça, ou ir a um show do "Saco de Ratos". O rock estará presente em todos eles.
Eu recomendo dar uma volta no quarteirão com esse cara. Só pra matar saudades do bairro.
Confira a galeria de fotos em:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.1873666919576359.1073741861.1593753947567659&type=3
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O melhor disco dos anos 80, segundo a Classic Rock
O músico que James Hetfield diz ser a razão de o Metallica existir
Por que Iron Maiden nunca será grande como Metallica, segundo Bruce Dickinson
Com Roger Daltrey e Eddie Vedder, Best of Blues and Rock 2026 confirma atrações
A banda que Lars Ulrich do Metallica adorava: "Ele caiu de joelhos e me abraçou"
A única banda de rock nacional que não virou peça de museu, segundo Regis Tadeu
Em clima de Copa do Mundo, Angra lança videoclipe da releitura de "Pra Frente Brasil"
Clássico do Led Zeppelin supera 1 bilhão de plays no Spotify
Rush é parado na fronteira dos Estados Unidos com o México e precisa adiar show
Banda venezuelana Van Der Dijs perde todos os integrantes em terremoto
Don Airey explica por que Simon McBride mudou o Deep Purple após Steve Morse
O guitarrista que se sentiu ofendido ao ser convidado para entrar no Deep Purple
Kirk Hammett, do Metallica, afirma que música pop atual é uma porcaria
Five Finger Death Punch divulga música nova e anuncia o disco "Legacy"
Ripper Owens: "Há uma razão pro Iron Maiden tocar pra 20 mil e o Judas pra 5 mil"
A resposta sarcástica de Rafael Bittencourt para quem critica timbre de sua guitarra
Fim da linha: 12 bandas que encerraram as atividades após a morte de algum integrante
A palavra inserida em refrão do Iron Maiden só para rimar que acabou ficando genial


Resenha e fotos do Sweden Rock Festival 2026 - Keep the Fire burning!
Nenhum de Nós celebra show histórico de número 2.500 com teatro lotado em Belo Horizonte
Resenha e fotos do show da banda Dogma em Porto Alegre
Wolf Alice e Lykke Li transformam o Vivo Rio em ponto de encontro do indie europeu
CDM Metal Fest - Metal como resistência cultural no Sul de Minas Gerais
Metallica: Quem viu pela TV viu um show completamente diferente
Em 16/01/1993: o Nirvana fazia um show catastrófico no Brasil



