Soulfly: Pouco público, mas um grande show em Fortaleza

Resenha - Soulfly (Siará Hall, Fortaleza, 08/04/2016)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

A décima edição do Festival Ponto.CE já começou. E em sua primeira noite, recebeu o SOULFLY, banda de Max Cavalera, para um show avassalador. Além dele, apresentaram-se JACK THE JOKER e MAD MONKEES numa noite que também receberia o MATANZA (adiado de última hora pela própria banda). Conferimos a primeira noite do Festival, no Siará Hall e contamos como foi o show.

Fotos: Yago Albuquerque

JACK THE JOKER

Quem abriu a noite (e o festival) foi a JACK THE JOKER, promissora banda de Fortaleza formada por Rafael Joer (vocal), Felipe Facó e Lucas Colares (guitarras), Lucas Arruda (baixo) e Vicente Ferreira (bateria) , com seu progmetal bem trampado, seus riffs e solos complexos, as paradinhas e mudanças de andamento tradicionais do prog e os vocais a la Russel Allen de Joer. Além de canções do elogiado "In The Rabbit Hole" (cuja primeira faixa, "Ordinary Man", foi também a primeira do show), a banda também apresentou canções de um vindouro CD, como "Black Karma Rider". A batalha de solos de Facó e Colares desperta o interesse pra conferir o material. Mesmo na já conhecida "Jack Ketch", a habilidade do aniversariante Vicente Ferreira movendo suas mil mãos é impressionante. Você pode vê-lo mil vezes nas mil bandas em que ele participa (IN NO SENSE e CRIOKAR, por exemplo) e não vai conseguir não se impressionar. Em mais uma do disco novo, "Be Less", o baterista faz mais e comanda como se pudesse fazer riffs na bateria, enquanto Facó e Colares entregam solos cheios de nuances. Em "Awake", o destaque é o baixista (e a letra bem encaixada). Fechando a participação do quinteto, "Walk", cover do PANTERA" e "Darkness No More", com o vocal passeando por uma longa range, do quase gutural aos agudos e Lucas Arruda impondo fortemente o ritmo em seu baixo. Foi um show de alto nível para um público ainda muito pequeno.

Setlist

1. Intro + Ordinary Men
2. Black Karma Rider
3. Jack Ketch
4. Be Less
5. Awake
6. Walk (cover do Pantera)
7. Darkness No More

MAD MONKEES

A troca foi muito rápida. Tempo suficiente para um banheiro, um energético e som. Ponto para o Ponto.CE, que já começa bem na troca de bandas. O quarteto formado por Cappo Polacco (xxx), Felipe Casaux (guitarra e vocal), Hamilton de Castro e PH Barcelos pode até não ser ainda tão conhecido na cena cearense, mas seus músicos, sim. Casaux, por exemplo, é considerado um dos maiores guitarristas do estado. Com um som calcado no southern rock, mas com muito peso, o quarteto stoner conseguiu agradar mesmo os fãs mais true das bandas de Cavalera. Infelizmente, acabou enfrentando o mesmo problema que seus antecessores: toco PH ou para um número reduzido de presentes. Entre uma canção e outra, Felipe Casaux até se trai. "Muita honra. Nunca pensei que ia abrir um show do Sepu...opa, do SOULFLY, do Max Cavalera, de um cara que eu curto pra caramba há muito tempo. Nas canções, ele duela com o amigo guitarrista, enquanto PH não quer nem saber. Só malra btrata o kit com muita energia. Em outras canções, o baixo sobra, sobra bastante, sobra bonito numa afinação bem grave, amarga. A iluminação também merece nota, desenhada especialmente para os diferentes momentos das canções mais longas. A apresentação da MAD MONKEES confirma a qualidade das bandas convidadas (e ainda haverão muitas, dentre as melhores do estado, nos dois dias seguintes). Antes de terminar, com "RoadKill", Casaux comandou os gritos do público e o tradicional "I Can't Hear You" virou "Assim o Max não sobe no palco".

Setlist

1. Lords of War
2. Cold Sparkle
3. Deamons & Angels
4. Sacars
5. Love Yourself
6. Bombman
7. RoadKille

SOULFLY

O público parece ter se multiplicado, mas ainda é pequeno. O fenômeno que muitas vezes reclamamos aqui (quando muitas pessoas deixam de entrar nos locais dos eventos e deixa de assistir aos shows das bandas de abertura para beber mais barato nas barraquinhas que normalmente ficam no entorno) parece que não é o que aconteceu. O número de presentes até cresceu, consideravelmente, mas não tanto assim. Ainda é muito, muito pequeno, quando a atração principal da noite já sobe ao palco. É pequeno mesmo até quando comparado com a multidão que compareceu, no meio de uma tarde de quarta-feira (!), ao saguão do Aeroporto Pinto Martins para ver chegar o avião de Bruce Dickinson e cia. O que teria acontecido permanece no terreno das conjecturas, mas é possível que o pouco tempo passado desde o show na Arena Castelão tenha influenciado na ausência de muitas pessoas que gostariam de ver mais um show de Max Cavelera. Não há muito dinheiro nos bolsos neste complicado ano de 2016. Era também notável que muitos dos que chegaram a estar ali vestia camisas com "Iron Maiden em Fortaleza", da campanha ou com os dizeres "Eu Fui", adquiridas ainda no Castelão. Era o primeiro show de metal que muitos iam, uma vez que nem todo mundo teve pernas pra ir no SINISTER no dia posterior do show do IRON MAIDEN. É a entressafra dos shows de metal. Outro fator importante foi a ausência do MATANZA. A banda carioca seria co-headliner da primeira noite do festival, mas, por motivos pessoais não informados, adiou a apresentação para o segundo semestre. É possível que isto tenha drenado parte do público que pode ter optado por receber o ressarcimento dos ingressos.

Max Cavalera é mais que sua própria pessoa, seu próprio indivíduo, mais que o filho da Vânia, marido da Glória, irmão do Ígor, pai de uma outra penca de músicos. Max é uma figura que ilustra no Brasil e no mundo o metal. E o faz mesmo com os dreadlocks e missangas. Max é o metal brasileiro, ou grande parte dele. Acompanhado do parceiro de longa data Marc Rizzo, do baixista Mike Leon e do baterista Juan Carlos Lora, vulgo Kanky, já foi mandando o hino "We Sold Our Souls To Metal", sua "It's Only Rock And Roll But I Like It" tardia que fez todo mundo cantar junto e tem grandes chances de continuar representando o disco novo, "Archangel", mesmo quando outra dezena de álbuns se juntar à discografia do SOULFLY. Um chapa até conseguiu subir no palco e dar um abraço no Max, que continuou tocando e cantando. E foi apenas o primeiro. Outros o seguiram ao longo do show. Isso é o metal.

Por falar em "Archangel", assim como em outros shows da turnê, a faixa-título, com belo trabalho de guitarra de Rizzo, foi a próxima. A bela arte da capa merecia um backdrop maior, algo de fundo de palco, algo que a valorizasse mais que os dois paineis colocados um de cada lado do palco. Ponto negativo, Max. A resposta à primeira trinca de músicas do "Archangel" foi muito boa, com os moshs ficando ainda mais violentos em "Ishtar Rising" e o público gritando enlouquecido "Soulfly, Soulfly, Soulfly".

"Vocês tão preparados pra detonar essa porra aqui", pergunta Max antes de cantar "Refuse/Resist". O mosh torna-se algo disforme, violência pura. Não é roda, uma roda em um show do TESTAMENT ou DESTRUCTION é até algo organizado. Aqui havia apenas o caos, a improbabilidade, a imprevisibilidade, apenas a forma inequívoca da energia. E assim continua em uma das dez melhores musicas já lançadas em toda a história do metal extremo no mundo inteiro, "Territory", a nossa Pelé da música. O SOULFLY pode até ser considerada uma banda gringa, uma vez que o único membro brasileiro mora há muito tempo nos EUA, mas o Brasil está em todo lugar, na bandeira, no som do berimbau, no vocal, no patch da OLHO SECO na calça do vocalista ou na camisa do CLAUSTROFOBIA, vestida pelo guitarrista gringo.

Os ânimos até se acalmam em "Sodomites", mais uma do disco novo. Não por causa da canção, por ser ruim ou qualquer outro adjetivo depreciativo, mas pelo simples fato de ter vindo depois de "Territory". "Master of Savagery", com snippet de outra "Master" ("...of Puppets", do METALLICA) e show particular de Rizzo vem na sequência, seguida por "Prophecy", "Seek & Stryke" e "Babylon". Durante todo o show, Max recebia bandeiras, cartazes e arrumava algum lugar para pendurá-las no palco, como uma bandeira "Itapahell", da cidade de Itapagé, que ele exibiu e amarrou no mic. No núcleo "variável" do SOULFLY, Mike Leon mostra muita presença de palco. Dava gosto de ver a movimentação e empolgação do baixista. Kanky, por sua vez, faz um bom trabalho, mas não chega a empolgar por si próprio.

O trecho da canção de JORGE BEN (eu me recuso a usar a partícula jor final) cantada em "Tribe" bem que cabe ao frontman. Max, o senhor da guerra... Max, o senhor das demandas... quando Max chega é Max é quem manda, está na lista dos malucos que sobem num palco pra entregar mais que música. A la Ozzy ele joga água na plateia, joga em si mesmo, não quer nem saber se tem nas mãos com uma guitarra (de quatro cordas - não precisa de mais para aqueles riffs matadores). Deve até ter dado problema, pois ele precisou trocar, deixando a Rizzo, Kanky e Leon a tarefa de entreter o público.. Quando ele volta, rege o coro de Max vola pra reger o coro de Iô, ô, ô (como um cantor de axé até) e faz todo mundo pular. "Arise", de sua antiga banda, é outra que, senão transforma o Siará Hall em caldeirão devido ao público pequeno, rende umas boas doses de violência desmedida. Visitando JORGE BEN novamente, só Max Cavalera é capaz de transformar "Umbabarauna" em algo completamente TRUE. Em que outro lugar senão um show de metal você também poderia ver marmanjos antes desconhecidos abraçando-se felizes como irmãos? Conforme me contou em entrevista, Max faz sozinho no palco um pout pourri de hinos, "Iron Man", "Orgasmatron" (, Polícia", "Desperate Cry"... Uma homenagem solitária...digo, solitária não, mas junto com a galera da plateia, ao rock pesado que ele ajudara a difundir pelo Brasil e pelo mundo, para, em seguida, um dos maiores clássicos, síntese maior do metal nacional, "Roots Bloody Roots". O vocalista, que passara o show inteiro agitando a galera faz questão de saber. "Fortaleza, como tá? Todo mundo curtindo o metal, caralho?".

No entanto, mais ou menos por volta de "Frontlines" o mosh começou a ficar mais perigoso (é possível?) com o chão do SIARÁ HALL cada vez mais liso com o suor que caia dos muitos bangers. E eles próprios escorregavam e caiam em uma frequência cada vez maior. Felizmente, era um show de metal, o que quer dizer que mesmo em meio àquela violência extrema, sempre tinha alguém para dar a mão. "Walk", do PANTERA, volta aos palcos e o SOULFLY parece se despedir. "Se vocês quiserem mais, tem que gritar". Obviamente o pedido foi atendido. E a banda emenda "Back To The Primitive", com seus versos "fuck all you politics". Nada mais apropriado para o momento que o país atravessa, que também foi assunto da nossa entrevista com o Max (link abaixo).
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Ainda há tempo para uma homenagem a Lemmy, em uma versão mais rápida de "Ace of Spades" e o medley "Jumpdafuckup/Eye For An Eye" encerra o show, que parece ter acontecido em um curto espaço de 15 minutos apenas. É sério que se passaram duas horas? Mentira. O ponteiro do relógio correu quase duas vezes, mas nem parece quando Leon, Kanky e Rizzo arrematam o show com "The Trooper", adivinha de quem.

De certa forma, o SOULFLY pagou uma dívida, quem nem era dele (veja resenha abaixo) com um show longo, ao contrário daquele na Praia do Futuro. O público, nessa entressafra pós IRON MAIDEN é que ficou em dívida com Max. Ok. Então agora podemos esperar que eles voltem ano que vem para podermos pagar a dívida que agora está do nosso lado.
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Setlist

We Sold Our Souls to Metal
Archangel
Ishtar Rising
Blood Fire War Hate
Refuse/Resist (Sepultura)
Territory (Sepultura)
Sodomites
Master of Savagery (com "Master of Puppets")
Prophecy
Seek 'N' Strike
Babylon
Tribe
Iron Man/Orgasmatron/Polícia/ Desperate Cry (Medley com Max Cavalera)
Arise/Dead Embrionic Cells (Sepultura)
No Hope = No Fear / Umbabarauma
Roots Bloody Roots (Sepultura)
Frontlines
Walk (Pantera)
Back to the Primitive
Troops of Doom (Sepultura)
Ace of Spades (Motörhead)
Jumpdafuckup / Eye for an Eye (com "The Trooper")

Nas duas próximas noites do festival (22 e 23 de abril), com atrações como ANDRE MATOS (outro brasileiro conhecido e admirado internacionalmente), PATO FU, COLDNESS, MAFALDA MORFINA e DARK SYDE.

Agradecimentos:
Leandra Érica e Maurílio Fernandes, da EMPIRE, pela atenção e credenciamento.
Yago Albuquerque, pelas fotos que ilustram esta matéria.

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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