Eric Clapton: Show correto e postura pouco simpática em POA

Resenha - Eric Clapton (Estacionamento da FIERGS, Porto Alegre, 06/10/2011)

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Por Paulo Finatto Jr.
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Não há dúvidas que o dia seis de outubro era a data mais esperada do calendário musical da capital gaúcha. A cidade, que entrou de vez no circuito internacional de espetáculos de renome, deu o pontapé inicial na mais nova turnê mundial de ERIC CLAPTON. O lendário guitarrista inglês levou mais de vinte mil pessoas ao Estacionamento da FIERGS para exata 1h45 de muito blues e rock n’ roll. O show dividiu impressões e deixou muitas discussões em aberto. De qualquer modo, os fãs mais fervorosos não tiveram do que reclamar.

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Fotos: RBS Eventos/Divulgação

Embora tenha deixado uma impressão não muito boa no seu último show realizado na cidade quase dez anos atrás, o guitarrista britânico pouco tentou reverter esse quadro controverso na sua terceira e mais recente vinda à capital gaúcha. O repertório do músico, que deixou três dos seus principais (e aguardados) sucessos de fora, foi um dos motivos apontados por quem torceu o nariz para a performance de ERIC CLAPTON na noite da última quinta-feira. O show aparentemente frio – de interatividade nula com a plateia – decepcionou até mesmo os curiosos que pouco conheciam a respeito da carreira de Slowhand (como foi apelidado décadas atrás). No entanto, pouco o guitarrista poderia fazer de diferente. O estilo da sua música é justamente esse – calma e para se apreciar preferencialmente sentado.

Com uma pontualidade quase que britânica, os gaúchos do CARTOLAS subiram ao imenso palco montado no amplo estacionamento da FIERGS para a abertura da noite às 21h. A banda formada por Luciano Preza (vocal), Christiano Todt (guitarra), Dé Silveira (guitarra), Otávio Silveira (baixo) e Pedro Petracco (bateria) mostrou o melhor do indie rock sulista em pouco menos de trinta minutos de show. Com destaque para as faixas do recente “Quase Certeza Absoluta” (2010), o grupo emendou músicas interessantes como “Partido em Franja” com outras mais famosas. A faixa “Cara de Vilão” é provavelmente o maior hit da banda e pode ser apontada como o ponto mais alto do espetáculo mediano proporcionado pelos caras. O som pouco redondo e a fraca resposta da plateia – mais velha e que pouco conhecia o som da banda – prejudicaram a performance do quinteto. A verdade é que o CARTOLAS não empolgou como muitos esperavam.

O cronograma foi acompanhado à risca e precisamente às 22h ERIC CLAPTON entrou em cena para iniciar o espetáculo mais aguardado do ano na capital gaúcha. O cantor e guitarrista que acompanhado por Willie Weaks (baixo), Chris Stainton (teclado), Tim Carmon (órgão) e Steve Gadd (bateria) – juntamente com Michelle John e Sharon White (vozes de apoio) – abriu o repertório da nova turnê com a ótima “Going Down Slow”. No entanto, o som que vinha dos PA’s, em um volume nitidamente mais baixo do que o recomendado para eventos de porte maior, prejudicou boa parte dos fãs que se concentravam no setor mais distante do palco e queriam ouvir cada detalhe executado pelo supergrupo de blues e rock n’ roll. Embora não seja conhecido e reconhecido por comandar um espetáculo enérgico e impactante, o músico britânico conseguiu arrancar uma boa quantidade de aplausos, principalmente da plateia posicionada na pista Premium (que teve os ingressos esgotados). O repertório – mesmo que cometendo falhas pontuais – evidenciou um bom-gosto ímpar e difícil de ser mensurado. Em, seguida, o Deus da Guitarra emendou “Key to the Highway” (do pianista CHARLIE SEGAR) e uma ótima versão para “Hoochie Coochie Man” (de MUDDY WATERS).

Os mais fanáticos certamente sentiram falta de uma sinergia maior entre músico e público. O guitarrista britânico não trocou sequer uma palavra com a plateia gaúcha – ele limitou a interatividade com os presentes em um ou outro “obrigado” após cada aplauso mais acalorado. Porém, ERIC CLAPTON é impecável em cima do palco. Em “Old Love”, o inglês estendeu a faixa com solos interessantíssimos nas seis cordas e com o piano visceral de Chris Stainton. O repertório continuou com a boa “Tearing Us Apart” e curiosamente não conseguiu empolgar como era o esperado. A plateia pouco cantou com o músico britânico e apenas contemplava a ótima performance da banda sobre o palco.

De certa forma, acompanhar o show da pista comum proporcionou um ponto de vista muito diferente de quem assistiu ao espetáculo de setores mais nobres. Na área mais popular – em que os ingressos custavam R$ 180 em contraponto aos R$ 550 da cadeira gold – a mistura de fãs com curiosos era extremamente perceptível no momento em que ERIC CLAPTON se sentou para iniciar o pequeno set acústico programado para a noite. Na frente do palco, os fãs acompanharam com palmas em “Driftin’ Blues” e em “Nobody Knows You When You’re Down and Out”. Por outro lado, os que ficaram mais atrás tiveram até mesmo dificuldade em ouvir as músicas, por causa do barulhinho de conversas paralelas. O show continuou com uma interessante versão acústica de “Lay Down Sally” e com “When Somebody Thinks You're Wonderful” – a única faixa retirada do recente “Clapton” (2010). Porém, o clima aparentemente monótono foi revertido com a clássica “Layla”, que obviamente foi acompanhada por diversas vozes vindas da plateia.

O espetáculo atingiu provavelmente o seu ápice após “Layla”. Com a guitarra elétrica novamente em mãos, ERIC CLAPTON relembrou os anos dourados do CREAM com “Badge”, que funciona sempre muitíssimo bem ao vivo, sobretudo por causa dos seus solos maravilhosos. No entanto, os fãs que esperavam ainda “Sunshine of Your Love” da sua ex-banda se decepcionaram. A música não fez parte do repertório montado para a abertura dessa nova turnê mundial. Na sequência, a belíssima “Wonderful Night” serviu um pouco para remediar essa primeira falha do set-list que não privilegiou todos os sucessos do Deus da Guitarra.

Não há dúvidas de que muitos esperavam ainda outros clássicos absolutos – e imortalizados pela voz e pela guitarra de ERIC CLAPTON – como “Tears in Heaven” e “I Shot the Sheriff”. No entanto, o que se assistiu foi uma dupla homenagem a duas das maiores referências do jazz e do blues. A escolha por “Before Accuse Me” (BO DIDDLEY) e “Little Queen of Spades” (ROBERT JOHNSON) em detrimento a músicas mais famosas certamente surpreendeu diversos fãs. Em uma versão que ultrapassou a marca de quinze minutos, a faixa de ROBERT JOHNSON causou um pouco de estranheza que foi prontamente compensada por um sensacional solo de guitarra. Na sequência, “Cocaine” comprovou o seu status de clássico ao ser a única música cantada por praticamente todas as vinte mil pessoas que lotaram o Estacionamento da FIERGS. O melhor momento da noite encerrou a primeira parte do espetáculo sem nenhum aviso prévio.

O último ato falho de ERIC CLAPTON na capital gaúcha resume muitíssimo bem que aconteceu durante o bis. Embora “Crossroads” possa ser considerado um dos hinos imortalizados pelo guitarrista inglês ainda na década setenta, a música composta mais uma vez por ROBERT JOHNSON encerrou o espetáculo sem nenhuma despedida formal e tampouco um “obrigado” ou “boa noite”. Em 1h45 do melhor do blues e do rock n’ roll, o que ficou registrado na mente de todos, acima de qualquer outra coisa, foi a postura nada simpática do músico britânico ao ir embora sem trocar nenhuma palavra – em nenhum momento do show – com o público gaúcho.

Entretanto, questionar a qualidade do espetáculo proporcionado no Estacionamento da FIERGS parece mesmo assim injusto. Por mais que o estilo tranquilo do blues de ERIC CLAPTON não tenha a cara do rock de arena desenhado como ambiente ideal para a turnê que passou novamente pela capital gaúcha, o resultado final da noite foi satisfatório, apesar dos deslizes táticos e das falhas técnicas do som. Os fãs que deixaram o local perto da meia-noite certamente não se arrependeram do investimento para ver (ou para rever) um dos maiores ícones do rock n’ roll de todos os tempos – mesmo sentindo falta de algumas músicas essenciais ao repertório. Os curiosos, por outro lado, provavelmente deixaram a FIERGS insatisfeitos. O que é de certa medida compreensível.

Set-list:
01. Going Down Slow
02. Key to the Highway
03. Hoochie Coochie Man
04. Old Love
05. Tearing Us Apart
06. Driftin’ Blues
07. Nobody Knows You When You’re Down and Out
08. Lay Down Sally
09. When Somebody Thinks You’re Wonderful
10. Layla
11. Badge
12. Wonderful Tonight
13. Before You Accuse Me
14. Little Queen of Spades
15. Cocaine
16. Crossroads

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Sobre Paulo Finatto Jr.

Reside em Porto Alegre (RS). Nascido em 1985. Depois de três anos cursando Engenharia Química, seguiu a sua verdadeira vocação, e atualmente é aluno do curso de Jornalismo. Colorado de coração, curte heavy metal desde seus onze anos e colabora com o Whiplash! desde 2000, quando tinha apenas quinze anos. Fanático por bandas como Iron Maiden, Helloween e Nightwish, hoje tem uma visão mais eclética do mundo do rock. Foi o responsável pelo extinto site de metal brasileiro, o Brazil Metal Law, e já colaborou algumas vezes com a revista Rock Brigade.

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