Cranberries: uma apresentação vivaz, emocionante, precisa
Resenha - Cranberries (Chevrolett Hall, Belo Horizonte, 31/01/2010)
Por Thiago Sarkis
Postado em 05 de fevereiro de 2010
O "efeito cultural retardado" no Brasil já vitimou inúmeros conjuntos que infelizmente nos visitaram somente quando despencavam vertiginosamente em total e absoluta decadência. Os Cranberries, após encerrarem atividades em 2003 e retornarem apenas em 2009 - além de tudo, ainda sem material novo lançado - tinham tudo para entrar nesta ingrata lista de grandes artistas que tocaram por aqui prestes a assinarem seus atestados de óbitos.
Para sorte dos brasileiros, tratamos aqui de um grupo extremamente sério e profissional que, se por um lado realmente não vive sua fase criativa mais profícua, por outro alcançou nível extraordinário de maturidade, algo expresso em execuções e performances irrepreensíveis ao vivo.
O quarteto subiu ao palco do abarrotado e quente Chevrolett Hall em Belo Horizonte para finalizar uma experiência tântrica com os fãs que começaram a admirá-los em 1993, ano do lançamento do debute "Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We?".
De tão bem montado, o set list chegou a desengraçar os inclinados à costumeira lamúria de "só faltou essa ou aquela música". Evidentemente cada um reclama a ausência de uma ou outra composição, contudo, o arsenal de sucessos disparado em direção ao público na capital mineira não deu brechas a lamentações.
Canções históricas e mundialmente conhecidas tiveram suas magias recriadas nas impecáveis vocalizações de Dolores O'Riordan, musicista experiente que domina o palco por completo com carisma e expressividade.
Para aficionados que jamais haviam visto os irlandeses ao vivo – apenas Dolores tinha se apresentado no Brasil, porém, em turnê solo – a satisfação foi imediata: do acorde inicial de "How" aos solfejos de "Linger" e à incrível intensidade de "Ridiculous Thoughts", "Zombie" e "Dreams". Músicas menos famosas também seriam bem-vindas, não obstante, a febre do público entoando tudo que seus ídolos faziam justificava a preponderância de hits em um repertório preparado claramente para compensar o tempo perdido. Bom, não mais tão perdido assim, já que o grupo fez jus aos dezessete anos de espera dos brasileiros.
O entrosamento e a energia da banda são indubitavelmente os fatores que mais impressionam nesta volta dos Cranberries. Além da já destacada presença de Dolores O'Riordan, hemos de fazer menção ao baterista Fergal Lawler, infinitamente melhor no palco do que em estúdio. Levadas precisas e um som redondinho; sem falhas. Os irmãos Noel e Mike Hogan, guitarrista e baixista respectivamente, acertam igualmente em suas atuações. Nas seis cordas principalmente, em ótimas e simples melodias que nos remetem, ocasionalmente, às raízes musicais da Irlanda. Não é só Rock, tampouco apenas Pop. Há significativa referência celta nos arranjos do conjunto.
Uma das passagens mais emocionantes do show ocorreu em "Ode To My Family", música que a vocalista dedicou a sua mãe e durante a qual desceu de onde estava para cantar junto com os fãs; muitos deles, por sinal, chorando copiosamente. "Free To Decide", "Promises" e "Salvation" naturalmente mexeram com os presentes.
Além do supracitado disco de estreia, "No Need To Argue" (1994), "To The Faithful Departed" (1996), e "Bury The Hatchet" (1999) foram bem representados, assim como "Are You Listening?" (2007) e "No Baggage" (2009), trabalhos solo de O'Riordan. O álbum "Wake Up And Smell The Coffee" (2001) foi preterido e, cá entre nós, não fez falta alguma.
Os Cranberries estão com jeito de Fênix e mostraram que têm mais estrada pela frente. Se o show reflete de fato o atual espírito do grupo, então é hora de um novo álbum. Uma apresentação vivaz, emocionante, precisa; superior a qualquer coisa do quarteto que houvera empalidecido no início dos anos 2000.





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