Psicodália de Ano Novo: o nosso breve Woodstock

Resenha - Psicodália de Ano Novo (30/12 a 03/01/2010)

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Por Giovani Paim, Fonte: Giovani Paim
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Não era 1969, e não era uma fazenda em Bethel, Nova Iorque, nos Estados Unidos. Era 2009, e a fazenda era em Rio Negrinho, Santa Catarina, Brasil. Com as devidas proporções respeitadas, as mudanças mundanas, econômicas, políticas, sociais, os desejos e as vontades, podemos dizer que vivemos nosso breve Woodstock, na edição histórica do Festival Psicodália de Ano Novo 2009/2010 (entre os dias 30/12 e 03/01).

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A ânsia libertária e/ou lisérgica já não era a mesma, os tempos, os ventos mudaram. A tríade sexo, drogas e rock and roll sofreu adaptações, e cada coisa vive no seu tempo. No nosso teve Malucos Malucos, Malucos Belezas e Malucos de Cara.

Jardim Elétrico

“A diferença da psicodelia de hoje pra a daquela época? Pô, vai depender do ácido que você toma, bicho!” Assim começou a coletiva com Os Mutantes, quando Sérgio Dias foi questionado sobre o estilo.

Pelo nosso jardim, coletivo e gigante, em algum momento do dia, tu iria escutar o violão e versos de Plá (PR), poeta do acaso, marginal da melhor forma. Rodas de violão, batuques, flautas, gaitas, fumos, bebidas. Tinha gente de SC, RS, PR, MG, SP, RJ, PE, da lua e de outros cantos. Sempre um pra representar.

O espaço da fazenda era grande, “deveras pra caralho”, eu diria, citando Gato Preto (PR), que rolava direto na Rádio Kombi, rádio interna que além de tocar bons novos e velhos sons, mantinha os psicodélicos informados sobre “achados e perdidos” e recados variados.

No campo, estilos variados, livres. Todos sacando a grandeza da coisa. Muitas Dálias (dinheiro local) circulavam e a água gelada era 1 Dália (R$ 1,00) e cerveja 2 Dálias. Para comer tinha até praça de alimentação, pizzas, frutas, sanduíches, cachorros-quentes (Dog Dylan), xis (Rango Starr) ou o Prato Feliz, de comida mesmo; além da cozinha comunitária.

Minha vida é um palco iluminado

Teatro, oficinas, corpos pintados, artistas solitários, hippies vendedores garantiam sempre ter o que ver/fazer, atrações paralelas e constantes.

Os shows iniciaram na noite do dia 30/12, com a Eletric Trip (RS) e seu blues psicodélico, teve até loucão no palco plantando bananeira. Depois a Leprechauss (PR), com música celta, pirado.

No dia seguinte, 31/12, várias bandas passaram pelo Palco do Sol e pelo Palco do Pasto. Poucas Trancas (SP), num clima Secos e Molhados, junto com a Baratas Organolóides (SP) garantiram a atenção de quem curtia o Sol no meio da tarde. À noite, no Pasto, teve a Badinha Di Dá Dó (RS), brindando o Ano Novo. Noite bonita, ceia coletiva, abraços, galera alucinada e show impecável, muitos moshs e um fotógrafo cambaleante. o.O

Na sexta-feira, primeiro do ano, o grande show era com os vikings da Blindagem, mas antes, Pata de Elefante (RS). Uma patada aos olhos e ouvidos, como sempre.

Já no sábado, 02/01, era a hora e a vez d´Os Mutantes tocar. Logo cedo, às 14hs, no palco principal (Pasto) e sem cortinas, surge Os Mutantes, passando o som para quem quisesse ver/ouvir. (muito escutaram de longe e não acreditaram na possibilidade. Ficaram nas barracas...) Nesse momento a coisa bateu. "Tecnicolor" arrepiou, admito. Logo teve uma entrevista coletiva, mas parecia um bate papo. Menos de 20 pessoas presenciamos e deu pra tirar foto com o velho.

Uns fãs os esperavam na saída. Camisetas, autógrafos, vinis, fotos e, na hora de partir, a van atolou. Deleite para os fãs, empurraram bem contentes! À noite, depois do envolvente e teatral show da Casa de Orates (SC), Mutantes no palco. Baita show. Luzes, lágrimas, berros, coros, cores. Clássicos e novas num show retinho, firme. Uma bela apresentação, Mutantes, lá no meio do nada, a céu aberto... não precisa de definições. Sérgio Dias e seu sorriso embelezavam os solos de guitarra.

No dia final, domingo, depois de Plá, foi a vez do progressivo Terreno Baldio. O líder, João Kurk, explicava e contextualizava as letras para todos curtirem ao máximo. Pra fechar o Festival, Maxixe Machine (PR) com seus macacões, cervejas, ritmos e poesias.

Teoricamente o Psicodália acabava ali, quase todos partiram. Mas finaleira ainda rolou o Palco dos Guerreiros, reunião com os remanescentes e carne assada. A Rádio Kombi funcionou durante a noite, e eu posso garantir que ouvi alguma do Barret (não lembro qual era...), no primeiro Pink Floyd, num som alto, no meio do mato escuro, é uma coisa bem boa!

Loucura pouca é bobagem

Sem muitos detalhes, tinha gente indo pra lua, outros tentando voltar. Tinha gente que só conseguia sorrir, abraçar, amar. Outros dormir, outros, pular, girar. Uns só conseguiam falar, outros pensar, outros, assistir. Tinha espaço até pra loucura de ficar sóbrio. Danças libidinosas, passos engraçados. O corpo como limite, mas nem sempre. Para o fim das noites o Sallon, onde de dia acontecia teatro, ou passava filmes como o Lóki era palco de batidas tribais, stripsteases e doideras de toda ordem.

Goles de liberdade

As cerca de quatro mil pessoas que estiveram por lá curtiram boas doses de liberdade. Mato, barraca, lanterna, música, teatro, dança, expressões variadas. Nada mal se o tempo parasse, primavera nos dentes. Dias sem celular, internet, televisão. Dias de mãos dadas, de namorar nas barracas, sorrir entre amigos, conhecer mais pessoas. Podíamos tomar banho de rio, banho de lama, banho de sol, banho de chuva. Podia se fazer tudo, ou nada.

Estávamos todos lá, dias sem saber o que acontecia no mundo, nada, nada. Foi boa essa distância completa, acho que todos mereciam uns dias assim... ao menos uma vez na vida.

No terreno baldio você pode gritar

Pequenos hinos surgiam do nada e coros inusitados se espalhavam rapidamente.

Vale citar o “Doce doce doce doce, doce doce doce, doce doce doce”, o “Ei, paranormal, larga dessa aí e pega no meu pé!”, o “O peito, peitinho, peitãããão!!! (esfregando na minha cara)” E também os gritos que se espalhavam - alguém numa barraca berrava, outro repetia e assim as palavras iam -, num coro gigante. Cito: o “aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa haaaaaaaaaaaa, do Led Zeppelin; o “Bom diaaaaaa!” todas as manhãs, e a procura constante por “Wagneeeeeeeeeer!!!”, é claro.

O que é bom dura pouco

Por vezes me senti dentro de uma letra do Belchior, mas o tempo passou e a história acabou (todos querem mais). Agora, poluição, cidade, horários, prédios, compromissos, pessoas infelizes, eletricidade e as modernidades e comodidades do mundo. Não serei hipócrita dizendo não ter prazer ao chegar em casa e ligar o ventilador, tomar banho quente e deitar numa cama. Tudo é interessante, o negócio é viver, ser feliz, e curtir um pouco de cada. Uma coisa de cada vez, tudo ao mesmo tempo agora, senão, não tem graça. E eu não tenho vocação para frustrado. Eu quero e mais e mais e mais. (Isso não tem nada a ver com excessos e drogadições. Adoro estar bêbado, mas optei por assistir Os Mutantes sóbrio. Duas latinhas e muitas lembranças)

Enfim, mesmo com a saudade de Arnaldo, o público delirou com Sérgio Dias, Dinho Leme e sua trupe. Os Mutantes, todas as atrações e organizações envolvidas cravaram o evento na história. O Psicodália de Ano Novo acabou, mas os 2010 estão apenas começando... e, só pra relembrar Raul Seixas, a chuva promete não deixar vestígios...

Obs.: Esse foi o meu 1º acampamento, meu 1º Psicodália. Meu e de minha esposa, Bárbara Andrade. Curtimos bastante. Ficamos juntos de uns bons amigos, numa pequena vila dentro de um potreiro, vendemos bastante bottons, fiz boas fotos e é por isso tudo e por todas as coisas as que cada foto me lembra, que posso dizer:

Até o ano que vem, Psicodálicos!

Para ver todas as fotos da cobertura que fiz, acesse o link abaixo.

http://bit.ly/8qGRGw

05.01.2009
Giovani Paim
http://www.giovanipaim.com

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