Resenha - Edguy (Credicard Hall, São Paulo, 15/02/2009)

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Por Thiago El Cid Cardim
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A mudança está mesmo no ar para o quinteto germânico Edguy. Se o recente disco “Tinnitus Sanctus” deixa claro mais um passo rumo ao metal totalmente infectado pelo hard rock – e que, por vezes, se distancia do power metal pelo qual a banda se tornou conhecida, ao vivo não poderia ser diferente. Na turnê que passou pelos palcos paulistanos no último domingo (15), em seu primeiro show fora da Europa, o Edguy provou que continua pegando pesado, para pular e bater cabeça durante quase duas horas. Mas também mostrou que esta é uma banda absolutamente de bem com a vida e com os rumos de sua carreira.

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A transformação é ainda mais evidente na figura do vocalista Tobias Sammet, cada vez mais alegre, falador, piadista, sorridente, performático, distante daquele clichê do headbanger feroz cabeludo e com cara de malvado. Neste domingo chuvoso e cinzento, o frontman revelou um domínio ainda maior do palco e também de sua platéia. Os brasileiros estavam em suas mãos, numa relação de tamanha cumplicidade que chegou a criar um bem-vindo clima intimista. Resultado? Uma dos melhores - senão a melhor - apresentações do grupo em terras tupiniquins.

As dependências do Credicard Hall não estavam lotadas como costuma acontecer em performances de grupos metálicos por aqui. Eram, no máximo, 2.000 pessoas. Mas Tobias parecia não se importar. “Fomos avisados que grupos Kiss, Iron Maiden e Metallica (Nota do Redator: Ôpa, o Tobias está sabendo de algo a mais do que nós!) viriam fazer grandes turnês no Brasil e que isso poderia prejudicar nossas apresentações aqui”, confessou ele diante do público. “Nos aconselharam a cancelar a turnê, porque os espectadores brasileiros guardariam dinheiro para estes shows. Mas nós dissemos que não. Temos muitos amigos no Brasil, os shows estavam marcados, viríamos para cá independentemente se ganharíamos ou perderíamos dinheiro”. Depois dos aplausos entusiasmados, ele continuou: “Quando vocês estiverem no show do Kiss e encontrarem aqueles seus amigos que não quiseram vir ao show do Edguy, digam que eles são uns bundões, porque o show do Edguy foi fantástico”. E foi mesmo, camarada.

Abrindo a apresentação com “Dead or Rock”, o hino quase AC/DC de “Tinnitus Sanctus”, eles mantiveram a casa de shows em ebulição emendando com “Speedhoven”, uma das pauladas mais fortes do disco novo. Logo depois das saudações e agradecimentos iniciais, foi a vez da clássica “Tears of a Mandrake”, cantada em uníssono pela galera enquanto Tobias usava um chapéu de mago jogado por alguém grudado na grade – assim como uma calcinha fio-dental que ele examinou com todo o cuidado e colocou pendurada na haste do microfone.

Por falar em objetos atirados ao palco, foram muitos, mas muitos mesmo, ao longo do show: camisetas, desenhos, narizes de palhaço. Um destes objetos, não-identificado, atingiu o olho do vocalista ao final da épica “Babylon”, fazendo-o retirar-se pouco antes da canção acabar. Mas a seguir, lá estava ele de volta, recuperado e com todo o bom humor, para a execução da ainda mais épica “The Pharaoh” – uma extensa faixa do mais puro power metal que fez até os fãs mais pentelhos engolirem em seco todas as acusações de que o Edguy estava se tornando mais, como gostam de dizer, “comercial”. Balela.

Depois da dobradinha “Ministry of Saints” (que, é preciso dizer, fica ainda mais potente em sua versão ao vivo) e “Vain Glory Opera”, foi a vez do solo de bateria, aquele momento inevitável que toda boa banda de heavy metal inclui em suas aparições. Nos últimos anos, Felix Bohnke preparava, como atração especial, o acompanhamento da marcha imperial de “Star Wars”. Mas desta vez, ele foi buscar inspiração em outro blockbuster: “Piratas do Caribe”, detonando seu kit ao som da música-tema composta pelo igualmente germânico Klaus Badelt.

Quando a banda inteira voltou para “The Pride of Creation”, hard rock com testículos que é a melhor composição de “Tinnitus Sanctus”, Tobias parece ter ficado feliz com a reação da maior parte do público, que cantou a letra com entusiasmo. E repetiu a expressão aprendida com André Matos no ano passado, durante a turnê do projeto Avantasia no Brasil: “Do caralho”, em bom português. Mas fez questão de completar: “Ainda não sei o que isso significa, mas tudo bem”. Prontamente, alguém grudado ao palco fez questão de explicar-lhe. E lá vem Tobias, com um enfático “do caralho”, desta vez acompanhado do gesto que indicaria que este é um daqueles muito bem dotados. Logo depois viria a pergunta: “Alguém aqui conhece uma banda chamada Hammerfall?”. O “Yes” foi quase ensurdecedor. “Pois é, mas esta não é uma música do Hammerfall, e sim do Edguy”. E viria mais uma das antigas, “The Headless Game”, com direito ao refrão “Let Your Hammer Fall” lá pelo meio da canção.

O próprio cantor descreveu a canção seguinte como uma balada muito triste. Mas não demorou até que fizesse mais uma gracinha: “Tem alguma mulher no recinto?”. As garotas soltaram a voz, apenas para ouvir: “Alguma de vezes gostaria de ir para cama comigo?”. Um princípio de vaia, em tom cômico, começou. Depois, Tobias questionou se tinha algum homem por ali. O grito foi ainda mais intenso. E veio a resposta: “Algum de vocês gostaria de ir para cama com o Felix?”. Os marmanjos não sabiam se riam ou se berravam “Não!”, mas ainda veio o complemento: “Felix é um cara muito gay. Mas é um cara legal”. Ainda rindo, ele mesmo mal conseguiu cantar o início da deliciosa “Save Me”, uma das baladas mais bonitinhas da história do grupo. E a partir daí, além de “do caralho”, o público também arriscaria uns berros de “Felix is fucking gay”.

Encerrando a apresentação, ele dedicou a muito requisitada “Superheroes” a todos os fãs ali presentes, garantindo que os cinco retornarão ao Brasil em toda e qualquer turnê que fizerem. No entanto, quem bem sabe como são os atuais shows de rock já adivinharia que a noite não estava encerrada. Mas mesmo neste momento, do já obrigatório retorno para o bis, Tobias resolveu sacanear a platéia. “Então...geralmente, quando nós saímos para os bastidores, vocês costumam fazer um barulhão para que nós retornemos. Mas não foi assim agora. Parece até que vocês não gostaram do show. Desta forma, vamos sair novamente e ver o que acontece, ok?”. É claro que deu certo: a platéia explodiu em uma gritaria que a banda compensou com “Nine Lives”, também do disco novo.

Chegando ao final, era hora daquela provocação que não pode mais faltar – com o anúncio de que, no dia seguinte, eles estariam embarcando para a Argentina. “Queremos ver se vocês são realmente mais barulhentos que eles”, estimulou o vocalista. “Eu até gosto das pessoas de lá, mas vocês têm os melhores jogadores de futebol”, confessou, com uma piscadela marota. Se iniciaria então aquele clássico joguinho da repetição dos “iês-iês” e “ôs-ôs-ôs”, imortalizado por ninguém menos do que Freddie Mercury. Para completar, por que não usar também do recurso da platéia dividida ao meio, fazendo os lados esquerdo e direito disputarem para saber quem é o mais barulhento? Outrora mostrando sinais de cansaço, os paulistanos estavam agora com as energias renovadas para encerrar a apresentação com a dupla “Lavatory Love Machine” e “King of Fools”.

É, Tobias. Depois deste domingo, sei bem o que vou dizer aos meus amigos que não estiveram no Credicard Hall quando encontrá-los no show do Kiss. Bando de bundões.

Line-Up:
Tobias Sammet – Vocal
Jens Ludwig – Guitarra
Dirk Sauer – Guitarra
Tobias Exxel – Baixo
Felix Bohnke – Bateria

Setlist:
DEAR OR ROCK
SPEEDHOVEN
TEARS OF A MANDRAKE
BABYLON
THE PHARAOH
MINISTRY OF SAINTS
VAIN GLORY OPERA
# SOLO DE BATERIA #
THE PRIDE OF CREATION
THE HEADLESS GAME
SAVE ME
SUPERHEROES

Bis:
NINE LIVES
LAVATORY LOVE MACHINE
KING OF FOOLS

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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