Resenha - Mutantes (Webster Hall, New York, 21/07/2006)

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Por Márcio Ribeiro
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.





Os Mutantes fizeram um show primoroso em sua estréia nos Estados Unidos. Um repertório que teve músicas pinçadas dos discos com a formação do trio original, porém calcado basicamente nos discos “Os Mutantes” e “Mutantes”, da chamada fase Tropicália ou psicodélica da banda, e “Tecnicolor”, gravado na França e com repertório quase todo em inglês. A escolha do setlist me pareceu bem feliz, optando por apresentar o que americanos e europeus conhecem da banda, graças à coletânea montada e lançada por David Byrne, dando à platéia um chão referencial.

Os Mutantes entraram no palco em fila indiana, ao som em playback da introdução de “Dom Quixote” que é, na verdade, um trecho da ópera “Aida”, de Verdi. Os irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, eram os únicos fantasiados: Arnaldo usava um paletó tipo Mestre de Cerimônia de circo, que me fez lembrar aquele usado por Mick Jagger em Rock And Roll Circus; Serginho usava botas que iam até os joelhos, camisa branca com fru-frus à moda século XIX, e um colete no qual havia uma medalhinha que lembrava algo tirado de Sgt. Peppers. Ou será a medalha usada na capa do disco Gilberto Gil, o primeiro com os Mutantes como banda?

A Nova Formação (No. 6?)

Os Mutantes, nesta edição de 2006, é bem diferente daquela última encarnação da banda em 1978. Para começar, temos a volta do Arnaldo Baptista nos teclados substituindo Luciano Alves, como também o retorno do um e único: Sir Ronaldo I du Rancharia, melhor conhecido como Dinho Leme, no lugar que estava sendo ocupado por Rui Mota.

Nos vocais, substituindo a Eunice Matos, a cantora do grupo em 1978, temos agora Zélia Duncan. Houve uma certa controvérsia entre a comunidade roqueira quanto à escolha de Zélia, mas só da parte de quem não assistiu ou ouviu o resultado final. É óbvio que a formação ideal dos Mutantes teria que ter também Rita Lee e Arnolpho Lima, o conhecidíssimo Liminha. Mas dou-me muito satisfeito em poder ver Arnaldo e Serginho trabalhando juntos esse material.

Embora o contraste visual seja sentido de imediato, vendo a musculosa Zélia Duncan no lugar que muitos gostariam de ter sido retomado por Rita Lee, ao ouvir o resultado musical emitida pela banda, concordo com os irmãos Dias Baptista e concluo que Zélia Duncan foi mesmo uma ótima opção. Onde cantou solo, como nas canções “Baby” e “Caminhante Noturno”, ela interpretou o material com primor. Zélia possui uma voz forte e ressonante e, igualmente importante para a “fórmula Mutante”, demonstrou boa presença de palco. Voz, Zélia Duncan tem e isto acho que ninguém questiona. Extremamente bem entrosada e à vontade tanto com o material como com a banda; eu realmente gostei do que vi e ouvi dela.

Senti falta mesmo foi de Liminha. O baixista atual, Vinicius Junqueira, não fez nada de errado. Muito pelo contrário, fez um bom trabalho e não tenho nenhuma reclamação específica a fazer. Estava muito bom mesmo. Todavia, substituir Liminha à altura, não há ninguém que consiga. Aquele som de baixo, bem na frente, praticamente dando um tapa na orelha do ouvinte, são muito poucos que conseguem. Só consigo pensar em Chris Squire e mesmo assim não sei se seria a mesma coisa, já que Squire não deve manjar nada de Tropicália. Não há (ainda) substituto para Liminha.

Somando ao quinteto, temos ainda outros cinco músicos compondo este novo formato. Dando assistência ao Dinho, posicionada ao lado direito do baterista, temos uma jovem e talentosa percussionista de cabelos espetados, Simone Soul. Ao lado esquerdo, temos outros dois jovens rapazes, Henrique Peters (teclados) e Vitor Alexandre (guitarra e outros instrumentos). Para poderem ficar mais fiéis aos arranjos originais gravados em discos, Arnaldo e Serginho tem esses dois complementando o que, em estúdio, era feito por meio de overdub.

Temos ainda um casal, Fábio Recco e Esméria Bulgari, fazendo backing vocals, ajudando e reforçando os trabalhos de vocais em geral. De lambuja, fazem performance aqui e ali, como imitando Chacrinha no final de “Dom Quixote” e fazendo uma coreografiazinha, cada um com uma bomba Flit na mão, durante “Le Premier Bonheur Du Jour”. Mais um pequeno referencial da era, uma idéia muito possivelmente saída da cabeça de Arnaldo. De fato, durante a gravação do primeiro LP, Rita Lee usou uma bomba Flit como se fosse chimbau.

Extra! Extra! O Paladino da Pompéia Assalta a Terra da Guitarra!

Mesmo com o show tendo vários pontos altos, o momento inesquecível ficou mesmo para o final. Fechando a noite com “Feeling a Little Spaced Out” - que é a versão em inglês para “Ando Meio Desligado” - Serginho nos brindou com um solo tão bonito quanto complexo e longo. O ainda incrivelmente ágil Paladino da Pompéia botou todo mundo no bolso com um solo de quase sete minutos, que incluiu, de lambuja, um bom naco do solo de Eric Clapton em “While My Guitar Gently Weeps” gravado com os Beatles, tirado quase nota por nota. E ele o fez com um sorriso no rosto curtindo a cara da galera babando. Concluindo o solo, todos juntos entram com o coro “Ò meu Brasil!” para em seguida, emendarem com “Cabeludo Patriota (A Hora e a Vez do Cabelo Nascer)”.

O público delira e aplaude incessantemente até o grupo retornar para o bis. Retomam com “Minha Menina”, “Bat Macumba” e fecham definitivamente com “Panis et Circencis”, esta também em sua versao em inglês. Outras canções que foram interpretadas em inglês são “Tecnicolor”, “Virginia”, “Baby”, “Desculpe Baby”, que passa a ter o nome de “I’m Sorry Baby”, e apenas a parte final de “Minha Menina”.

Repertório da Noite

Dom Quixote
Caminhante Noturno
Ave Gengis Khan
Tecnicolor
Virginia
Cantor de Mambo
El Justiciero
Baby
Desculpe Baby
Fuga No. II
Dia 36
Top Top
Le Premier Bonheur Du Jour
2001
Ave Lucifer
Balada do Louco
Ando Meio Desligado
Cabeludo Patriota (A Hora e a Vez do Cabelo Nascer)

Bis:
Minha Menina
Bat Macumba
Panis et Circenscis

Calma

Outro dia, assistimos na TV a Rita Lee questionando a integridade artística da proposta desta reunião dos Mutantes. Fico aqui me perguntando o porquê dos comentários pouco elegantes. Será que já tem gente enchendo o saco dela com perguntas capciosas? Afinal, a saída de Rita Lee dos Mutantes e, por conseguinte, a sua saída definitiva da vida de Arnaldo Baptista, teve repercussões no campo emocional de ambos muito mais significativas do que os efeitos gritantes que notamos em suas carreiras individuais. Teria a Rita escutado algo de algum veículo de comunicação, mesmo que não diretamente dirigida a ela, que desceu mal e na primeira oportunidade atacou (ou nesse caso, contra-atacou) com uma resposta impensada e mal-humorada? Ou talvez a origem veio de algo ainda mais mundano, como uma discussão com o marido, parceiro e sócio Roberto de Carvalho sobre assuntos aleatórios e aí, vindo de casa já de cabeça quente, Rita acaba falando o que não precisava.

Sinceramente, na minha humilde opinião, Rita Lee é uma pessoa tão marcante para a história do nosso rock brazuca, com um volume de trabalho tão rico, importante e querido, que esses deslizes ocasionais ou qualquer bobagem devem ser relevados. Quer saber? Nossa titia tem o direito de ter seu dia de ranzinza. Ela ganhou esse direito com muito suor e trabalho. Não é fácil se tornar a primeira mulher roqueira em um país machista e xenofóbico, que era o Brasil sob a ditadura militar. A titia Rita Lee batalhou arduamente para trilhar o caminho que a levou a ter o extremo sucesso artístico e financeiro que ela possui. Não fosse Rita Lee, o esquadrão rosa choque do rock só teria Celly Campello e Wanderléia como modelos para se espelhar. Sem o trabalho e êxito de Rita Lee, seria ainda mais difícil termos uma Cassia Eller ou uma Zélia Duncan. Esse ti-ti-ti após o incidente televisivo não suja em nada a importância ou o valor de Rita Lee. Talvez seria da vantagem de todos enterramos o assunto.

Será que Eu Vou Virar Bolor?

John Lennon disse, certa vez, que matar seus dragões faz bem para a alma, porém faz mal para a pele. Se há alguma coisa acontecendo nesta reunião dos Mutantes, é o reencontro do gênio criador com sua própria obra. Os Mutantes de inicio eram o veiculo das idéias musicais de Arnaldo Baptista, auxiliado em grande parte por Rita Lee, é verdade. Porém, os arranjos e muitas das idéias mais extraordinárias nasceram da cabeça de Arnaldo. Após pouco mais do que duas décadas, Arnaldo Baptista reencontra um sentindo para revisitar este repertório. E, ao fazê-lo ao vivo nesta série de apresentações com uma banda bem estruturada agora pelo irmão Serginho Dias, criou-se uma grande oportunidade para Arnaldo se reafirmar como músico. Para isto, ele precisa conseguir dominar novamente a sua autoconfiança e assim, quem sabe, redescobrir o seu ‘mojo’. Ao assistir esta apresentação em Nova York acredito que as portas nunca estiveram tão abertas para isso.

Cito, como exemplo, uma cena que ocorreu durante o primeiro terço do show, se não me engano, após apresentarem “Ave Gengis Khan”. Um grupinho no miolo da massa de gente que compõe a platéia começou a gritar em coro o nome de Arnaldo. E eu e outros acabamos aderindo aos gritos de Ar-nal-do, Ar-nal-do! A banda, que já ia começar a tocar a próxima música, parou. Me pareceu que alguns dos novos integrantes entraram no coro também. Arnaldo ficou perplexo de início; depois não sabia o que fazer ou falar para agradecer. Aí eu olhei para o lado oposto do palco e vi Serginho, com um sorriso na cara e os olhos brilhando. Não, Serginho inteiro estava irradiando luz de tão feliz e orgulhoso que estava do seu irmão mais velho. Um momento sublime que eu saquei desta maneira. E pensei comigo, num mundo tão mesquinho e ordinário em que estamos acostumados a plantar nossas rotinas, é tão incrivelmente belo e raro poder estar na presença de um ato de amor.

Resultante deste gesto do público, até certo ponto inesperado, Arnaldo acabou se soltando um pouco mais, seu semblante menos tenso e, embora sempre sério no que concerne executar perfeitamente sua parte conforme os arranjos pautados, ele estava visivelmente mais relaxado e, portanto, conseguindo curtir mais a grande noite. Como diria o Chacrinha: palmas para ele, que ele merece!

Minha única preocupação é de que, quando os Mutantes retornarem a excurssionar pelo Brasil, a mídia não trate Arnaldo com o devido respeito e consideração. Nosso Syd Barrett brasileiro tem, ao mesmo tempo, uma história mais triste e mais feliz que a sua contra-parte inglesa, recentemente falecida. Arnaldo foi às últimas conseqüências em suas crises de depressão do passado e agora se mostra disposto e em condições para executar a sua parte nesta banda de primeira linha, chamado Mutantes. Se publicarem ou falarem na TV alguma coisa que o ofenda, ou que ele possa se sentir humilhado, pode ser que ele tire o time de campo, sem pestanejar, e aí todos perdem. Arnaldo perderia a chance de fechar um círculo ainda meio aberto no que se refere às suas aptidões para poder tocar em uma grande banda novamente. E o público perde a chance de poder ver novamente um pequeno gênio criador voltar a estar ativo. A responsabilidade agora está não mão de todos nós.

Algo Mais

Críticas não tenho nenhuma a fazer. Não que tudo foi perfeito ou que não há necessidade de melhorar nada. Apenas para este primeiro estágio da banda, os Mutantes têm mais é que se calcar em seu passado mesmo. Se, e quando eles vierem tocar no Brasil (sejamos otimistas), talvez eles queiram adicionar alguns outros baluartes de suas carreiras, como por exemplo as versões para “Banho de Lua”, “Rua Augusta” e “Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo”, que foram todos, na época, marcos importantes. Eu pessoalmente adoraria poder ouvir as belíssimas “Sagitárius” e “Anjos do Sul”; o satírico “Tiraoleite” e o escrachado “Dê Um Abraço Pra Velha”, sem falar na minha atual favorita, “O Meu Refrigerador Não Funciona”. Mas quem sabe se não nesta, na próxima excursão ano que vem (novamente querendo ser otimista), estas e outras encontrarão um lugar no repertório. Quem sabe até, junto com composições novas.

Fazendo um balanço final, Serginho continua Serginho. Sua banda está muito bem ensaiada, o astral está ótimo e aparentemente as coisas vão de vento em popa. Já o Arnaldo está longe de ser o velho Arnaldo de outros tempos. Seu olhar e sua postura não exalam mais a confiança de antes. Ele não demonstra ter mais a disposição necessária para ter sob si o controle de uma banda do porte, ou se preferir, do peso que o nome Os Mutantes exige. O Arnaldo do passado era brincalhão e extremamente carismático. O Arnaldo de hoje ainda brinca, porém nota-se que ele está bem mais contido. A sensação é de que Arnaldo está dando grandes passos na direção certa; se dedicando ao instrumento, habilidade que ele claramente demonstra ainda dominar bem. Espero que em um futuro próximo, ele já se sinta a vontade o suficiente para falar e participar mais durante o espetáculo. Acredito que este dia já não está muito longe de seu horizonte periférico. Seu carisma, embora um pouco soterrado, ainda é sentido à distância. E para concluir, gostaria que Serginho e Arnaldo fizesse uma oferta para o Liminha que ele não possa recusar.

No decurso desta semana, os Mutantes vão tocar domingo, dia 23 de julho, no Hollywood Bowl em Hollywood, dia 24 no Fillmore de San Francisco, ambos na Califórnia; dia 26 apresentam-se em Seattle, no estado de Washington; dia 28 em Denver, Colorado e finalizando, dia 30 em Chicago, Illinois.

Depois disso, a carruagem vira abóbora e ninguém sabe o dia de amanhã. A julgar por este show, acho que poderão sentir-se confiantes para esticar uma perna na América do Sul e, quem sabe, até o Japão. Se haverá trabalhos novos e um tempo de vida maior de existência para os Mutantes, só o tempo irá dizer. Acredito, porém, em um disco ao vivo desta excursão. Não fazê-lo seria uma oportunidade desperdiçada.

No mais, avise a todo mundo: os Mutantes são Os Mutantes de verdade! Se tiver uma chance, vá ver esse show! Se puder, compre ingresso para mais de uma noite. Se você cresceu roqueiro nos anos sessenta e setenta, você vai querer ver essa banda.

P.S.: Obrigado, Lucinha! De coração.

Mutantes

Sérgio Dias – guitarras e voz
Arnaldo Baptista – teclados e voz
Ronaldo Leme – bateria
+
Zélia Duncan – voz
Vinicius Junqueira – baixo
e
Simone Soul – percussões
Henrique Peters – teclados e etc.
Vitor Alexandre – guitarras e etc.
Fábio Recco - backing vocals
Esméria Bulgari - backing vocals

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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