Rolling Stones: A maior banda do mundo e o maior show da história

Resenha - Rolling Stones (Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, 18/02/2006)

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Por Ricardo Seelig
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E a maior banda do mundo veio ao Brasil e realizou o maior show da história. A passagem dos Rolling Stones pelo Rio de Janeiro atraiu fãs de todo o país e do mundo, em uma das maiores peregrinações já vistas por aqui. Aproximadamente um milhão e duzentas mil pessoas acompanharam a apresentação na praia de Copacabana, em um show histórico e sem precedentes (isso sem falar nos que ficaram em frente à TV, não só aqui no Brasil mas também no México, Estados Unidos e Canadá, para onde o show também foi transmitido ao vivo).

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Após a abertura com AfroReggae e Titãs, os Stones entraram no palco pontualmente às quinze para as dez da noite. O lendário Keith Richards foi o primeiro a entrar em cena, despejando o riff de "Jumpin' Jack Flash", um dos maiores hinos do grupo. A reação do público foi imediata: milhares de pessoas pulavam ensandecidas ao ritmo da música, mostrando o quanto os quatro cavaleiros do apocalipse eram esperados pelos fãs brasileiros.

O grupo continuou com o pé no fundo e largou outro clássico na sequência. A autobiográfica "It's Only Rock And Roll" manteve a temperatura lá em cima, com um Mick Jagger ensandecido comandando a massa. Jagger fazia de tudo em cima do palco, nos fazendo pensar, por meros instantes, que a letra da música poderia se concretizar a qualquer momento ("if I could stick a knife in my heart, suicide right on stage").

Com a platéia na mão, era praticamente impossível os Stones errarem o pulo e realizarem um show fraco. Com toda a sua experiência de quase cinco décadas de estrada o grupo sabia disso, e entregou um repertório calculado para a platéia. "You Got Me Rocking", do bom álbum "Voodoo Lounge" veio em seguida, e trouxe de volta os ares da primeira passagem do grupo pelo Brasil.

Com centenas de ases na manga, Keith Richards foi homeopático em suas lições de como compor riffs inesquecíveis, e puxou "Tumbling Dice", uma das melhores música de "Exile On Main Street", lançado em 1972 e considerado por muitos como o melhor álbum do grupo.

O último trabalho, "A Bigger Bang", foi representado de forma exemplar com as excelentes "Oh No Not You Again", "Rain Fall Down", "Rough Justice" e "This Place Is Empty".

Foi estranho perceber a falta de entusiasmo de grande parte do público enquanto a banda executava "Wild Horses" e "Midnight Rambler", dois de seus maiores clássicos. A platéia realmente não conhecia as canções (não me pergunte em que mundo eles vivem), gerando uma espécie de silêncio constrangedor enquanto o grupo executava as duas músicas de forma excelente, principalmente o relato dos crimes de um serial killer "Midnight Rambler", onde Mick, não contente em pular feito um louco no palco, ainda sacou sua harmônica em um dos melhores blues da banda.

Sendo didáticos com o seu público, os Stones deram uma aula ao apresentarem "The Night Time Is The Right Time", homenagem a Ray Charles, transformando a canção em um soul rock repleto de suingue e paixão. A canção surpreendentemente levantou o público, que se mostrava meio apático, mas, ao reconhecer a figura de Ray no imenso telão, aos poucos foi se dando conta do que ocorria sobre o palco.

Após esta canção chegou a hora de Mick apresentar toda a imensa banda que acompanhou o grupo em sua terceira passagem pelo Brasil. Os veteranos parceiros Bobby Keys (saxofone) e Chuck Leavell (teclados) eram só sorrisos em cima do palco, enquanto a vocalista Lisa Fischer arrancou elogios da platéia, tanto pela sua performance quanto por sua forma.

Com uma calma e uma simpatia genuínas, cada um dos Stones saudou o público a sua maneira. Enquanto um trôpego Ron Wood era só sorrisos, Charlie Watts se mostrava renovado, indo de encontro à imagem do velhinho inofensivo de cabelos brancos e calça de tergal sentado atrás da bateria.

Chegava a hora do momento de brilho de Keith Richards. Visivelmente emocionado com a ovação que recebia do público, Richards entregou de presente uma primorosa interpretação da maravilhosa "This Place Is Empty", uma das mais belas canções de "A Bigger Bang". Como não poderia deixar de ser, emendou com o seu cavalo de batalha "Happy", e levantou novamente a temperatura do show.

Mick voltou ao palco para o momento mais esperado da noite. Enquanto o grupo tocava "Miss You" o palco móvel começou a se mover em direção ao público, que estendia suas mãos ensandecidamente para a banda. Foi como se os deuses decessem do Olimpo e brindassem seu público com a sua presença, em um momento "intimista" inusitado em um show com mais de um milhão de pessoas.

O grupo ainda executou "Rough Justice", a veterana "Get Off Of My Cloud" e "Honky Tonk Women" sobre o palco móvel, enfeitiçando o público e preparando o terreno para a parte final do show.

Sobre seus batuques característicos, "Sympathy Of The Devil" iniciou com a participação maciça do público, que gritava a plenos pulmões quando o conjunto começou a executar os primeiros acordes da canção. Um Jagger vestido todo de preto, com direito a cartola, fez as vezes de mestre de cerimônias, levando milhares de pessoas ao transe coletivo de um ritual pagão.

Nada mais poderia vir, a não ser que este nada mais fosse "Start Me Up". O último dos grandes clássicos do grupo, lançada em 1981 no álbum "Tattoo You" acendeu as últimas faíscas que faltavam, decretando de vez a loucura nas areias de Copacabana. Ron Wood inclui um solo que não estava presente na versão original da música, mostrando que apesar dos anos e anos de abusos alcoólicos o seu talento e a sua classe ainda estão intactos.

O público estava na mão e o trabalho já estava feito, mas os Stones não estavam satisfeitos ainda. "Brown Sugar" carimbou mais uma vez o título de "maior banda da história do rock", enquanto que a antológica balada "You Can't Always Get What You Want" era cantada a plenos pulmões pelo público, em uma espécie de pedido para que aquele momento nunca mais acabasse.

Fechando a noite história, era chegada a hora de "(I Can't Get No) Satisfaction". O riff composto em pleno sonho por Keith Richards há mais de quarenta anos levantou o público, e pela primeira vez as mais de seis mil pessoas que compunham a área VIP do evento pareceram entender o que estava acontecendo.

Se depender deste show, Mick, Keith, Charlie e Ron mostraram que ainda tem muito pela frente. A performance dos quatro foi exemplar. Charlie, ao lado de Darrel Jones, comandou o ritmo da usina de força. Após trinta anos de parceria, Ron Wood e Keith Richards tocam por telepatia, soltando no ar riffs que se complementam. E Mick não parou um segundo, mostrando às dezenas de supostos novos astros que ainda há muito o que percorrer para se tornar uma lenda do rock.

PEQUENOS PENSAMENTOS SOBRE A PASSAGEM DOS STONES PELO BRASIL

O tratamento dispensado pela mídia sobre a passagem dos Rolling Stones merece alguns comentários à parte. Em primeiro lugar, grande parte da imprensa parece incomodada pelo fatos do grupo ainda estar na ativa. Rótulos como "Old Stones" aliado à postura de grande parte dos veículos especializados (os veículos de massa, como a Rede Globo e outras TVs, estavam tratando o evento como uma grande festa VIP, então nem vou entrar nestes méritos), que parecem não admitir que os Stones ainda estejam na ativa, levantam alguns questionamentos. Este posicionamento é ridículo. É ótimo ver não só os Stones, mas também artistas como Paul McCartney, The Who, Iron Maiden, U2 (que também está por aqui), bandas que estão na ativa há décadas e cujos integrantes já passaram dos 40, 50, 60 anos, tocando com energia plena, fazendo o que gostam.

Este romantismo arcaico, que prega a volta aos anos sessenta, década "mágica" na qual o rock era "mais puro e verdadeiro", está ultrapassado e totalmente na contramão. Antigamente o rock era a música da juventude, e atualmente ele também é. O problema é que estes formadores de opinião não admitem o envelhecimento dos seu ídolos. Esta é a primeira geração de bandas a envelhecer na estrada, na frente de seus fãs. Os Stones e o Deep Purple, por exemplo, são exemplo de dignidade, tesão e paixão pela música, e é revigorante ver isso.

Assistir Jagger, Richards e companhia nas areias de Copacabana, esbanjando energia, é muito bom. O mundo é melhor com os Stones. E mais: eu olho para a cena atual e tento, com muito esforço, encontrar algum grupo novo, com menos de dez anos de carreira, que me dê a segurança de dizer "estes caras vão atravessar décadas fazendo música de qualidade". Juro que não encontro ninguém.

Queiram ou não, foi uma noite histórica. A quantidade de fãs foi impressionante. As imagens são antológicas (isso sem falar do palco "andante"). Vai virar DVD e CD ao vivo? Vai, com certeza, e eu não vejo a hora de comprar o meu.

E agora me dá licença que eu vou ficar tranquilo ouvindo uma musiquinha. Afinal é o que o sempre digo: "it's only rock and roll, but I like it".

Set list:

1. Jumpin' Jack Flash
2. It's Only Rock And Roll
3. You Got Me Rocking
4. Tumblin Dice
5. Oh No Not You Again
6. Wild Horses
7. Rain Fall Down
8. Midnight Rambler
9. The Night Time Is The Right Time
10. This Place Is Empty
11. Happy
12. Miss You
13. Rough Justice
14. Get Off Of My Cloud
15. Honky Tonk Women
16. Sympathy For The Devil
17. Start Me Up
18. Brown Sugar
19. You Can't Always Get What You Want
20. (I Can't Get No) Satisfaction




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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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