Angra: Responsabilidade de abrir a temporada de shows em BH
Resenha - Angra (Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 28/01/2006)
Por Maurício Gomes Angelo
Postado em 06 de fevereiro de 2006
O Angra teve a responsabilidade de abrir a temporada de grandes shows de metal em Belo Horizonte no ano de 2006. E, após o tremendo imbróglio que pregaram nos mineiros, tinham a obrigação de proporcionar uma ótima noite. Explico: no segundo semestre do ano passado houve uma enquete no site da banda visando "escolher o local onde seria gravado o próximo dvd". Pois bem. O Chevrolet Hall, mesmo local deste show, venceu com mais da metade dos votos. Prova irrefutável do amor e respeito dos fãs de Minas Gerais. Tudo muito justo e democrático, excetuando a alegação que viria a seguir: "a pesquisa era apenas para fazer um levantamento, não significando que teríamos a obrigação de registrar o dvd no local escolhido". Não tenham dúvidas, desde lá, o descontentamento e a desconfiança para com eles foi notável.
Fotos: Suelen Pessoa
Mesmo enganados, os mineiros deram mais um voto de confiança ao Angra. Excelente público, reflexo evidente do período de férias escolares, do dia (um sábado) e do preço acessível dos ingressos, entre 20 e 25 reais. Algumas expectativas estavam no ar. Como montariam o repertório? Tocariam o "Temple Of Shadows" inteiro, como vinham fazendo? O medley especial de músicas antigas estaria no set list?
A introdução "Deus Le Volt", seguida da devastadora seqüência de "Spread Your Fire" e "Angels And Demons" confirmou a segunda hipótese. Teríamos todo o prog-power "europeizado" do último álbum de estúdio nota por nota, música por música. E aí confirmamos, inapelavelmente, que eles não sabem estabelecer grandezas. Acaso é "Temple Of Shadows" uma obra prima irrepreensível e fundamental? Ou um clássico que mereça tal honraria? Ou ainda, um disco que funcione grandiosamente bem ao vivo? A resposta para todas estas questões é um sonoro "não!". E nem a lembrança de que é um álbum conceitual pode justificar tamanha pretensão, já que, durante o show, não há nenhuma ambientação ao conceito.
Assim, durante mais de uma hora vemos uma banda indiscutivelmente única e competente, capaz de criar ícones de peso, interação e velocidade como "Temple Of Hate" – talvez a mais impactante composição de seus últimos 5 anos – até preciosidades progressivas como "The Shadow Hunter". Mas que escorrega em sua presunção ao julgar uma obra maior do que ela realmente é e fazer disso o principal problema duma turnê que tinha tudo para ser ótima. E só não é porque "Wishing Well", "No Pain For The Dead", "Winds Of Destination" e "Morning Star", mesmo que tenham, claro, seus bons momentos, não mantém o ritmo dum show e sequer configuram-se como indispensáveis dentre o repertório tão rico que a banda possui.
"Gate XIII" encerrou a sonolência e "Nothing To Say", mesmo com a guitarra muito baixa no riff inicial e as oscilações mais grotescas de Eduardo Falaschi, representou uma mudança brutal em empolgação e participação da platéia, deixando o espetáculo do jeito que deveria estar desde o começo.
"Carolina IV", com seus batuques e invocações reproduzidos fielmente, funciona muito, mas muito melhor que em estúdio. E o motivo é claro: há muitas partes que permitem a interação do público, belos solos de guitarra e uma fluência acertada em ascensões e digressões. A partir dela, também, Falaschi já demonstra maior confiança e espontaneidade, errando apenas em virtude do cansaço.
"Evil Warning", anunciada como preparada especialmente para Belo Horizonte e precedida pela sintomática declaração de que é da capital mineira que provém a maior quantidade de emails e ligações dentre todo o mundo (lembram do início deste review?), foi perfeita, resgatando uma antiga e poderosa peça, sábia mescla de peso e erudição. A crescente intensidade aumentou com "Acid Rain" e "Carry On", clássico supremo executado sem aviso prévio, arrancando urros de alegria e com o público praticamente sobrepujando a voz de Edu. Foi assim também com "Rebirth", dedicada pelo vocalista aos infantes headbangers sub-17 conquistados pelo rádio e responsáveis pela aura pop que os cerca desde a volta. Aliás, a banda conseguiu algo incomum: reduzir a classificação mínima da noite para 14 anos, com bebidas alcoólicas devidamente proibidas. Não por acaso, a atmosfera de "ídolos teen" dominava o Chevrolet Hall. E, apesar da desnecessária histeria adolescente (refletida bem antes do início do show), "Rebirth" foi um momento esperadamente belíssimo, com a primeira parte toda a capela. O final ficou para "Nova Era", speed metal carro chefe do renascimento e contando com a já tradicional performance de Aquiles Priester, um "monster drummer" de respeito.
Em suma, a segunda metade do set foi infinitamente superior à primeira, e nem precisa dizer o porquê. Uma banda no auge de sua técnica e popularidade (a última, principalmente), que causa frisson por onde passa. Contudo, é hora de tirar férias, refletir sobre tudo isso e se portar de maneira mais adequada. No momento, se comportam como crianças que precisam de um belo puxão de orelhas para voltar ao rumo certo, já que incorrem em erros tão primários. Sobra competência. Falta assessoria, respeito, cuidado, foco e consciência. Como se vê, detalhes importantes a serem corrigidos para que o futuro seja mais elogiável que o presente.
Set List:
01 - Deus Le Volt
02 – Spread Your Fire
03 – Angels And Demons
04 - Waiting Silence
05 - Wishing Well
06 - Temple Of Hate
07 - The Shadow Hunter
08 - No Pain For The Dead
09 - Sprout Of Time
10 - Winds Of Destination
11 – Morning Star
12 – Late Redemption
13 – Gate XIII
14 – Nothing To Say
15 – Carolina IV
16 – Evil Warning
17 – Acid Rain
18 – Carry On
19 – Rebirth
20 – Nova Era
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