White Stripes: Se apresentando para um público inferior a mil pessoas
Resenha - White Stripes (La Reserva, Puerto Iguazu, 26/05/2005)
Por Cristiano Viteck
Postado em 26 de maio de 2005
Durante o mês de maio e agora no início de junho, a dupla norte-americana White Stripes está percorrendo diversos países da América Latina, numa espécie de turnê exótica que tem como proposta realizar shows não apenas em grandes cidades, mas principalmente em locais quase que absurdos se comparados com os tradicionais roteiros seguidos pelos grupos de rock, como no caso do Brasil, o eixo Rio-São Paulo, onde o White Stripes se apresenta nos dias 03 e 04 de junho, respectivamente; cabendo para Manaus a parte exótica da turnê brasileira, com show marcado para o dia 1º.
Mas, de todos os lugares bizarros escolhidos pela dupla de rock mais famosa e barulhenta do mundo, nenhum se compara ao pub La Reserva, na cidade de Puerto Iguazu, na província das Misiones, na Argentina. Foi lá que o White Stripes esteve na noite fria de 26 de maio, se apresentando para um público inferior a mil pessoas, que pagou a bagatela de R$ 30,00 pelo ingresso.
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Puerto Iguazu é a cidade onde está o lado argentino das Cataratas do Iguaçu. Porém, apesar de contar com este grande atrativo, nem de longe se aproxima do desenvolvimento alcançado por Foz do Iguaçu com a exploração do turismo. Com uma população que talvez chegue na casa das 15 mil pessoas, Puerto Iguazu é a típica cidade do interior de um país subdesenvolvido. A miséria do local contrasta com bares e restaurantes elegantes, que recebem turistas de todo o mundo, embora não em grande número.
Por outro lado, Puerto Iguazu é destino obrigatório para um grande número de brasileiros que a cada final de semana vão até o La Barranca, um bar rústico construído exatamente na barranca do Rio Iguaçu, a poucos metros de onde ele encontra o Rio Paraná. Neste bar, se apresentam principalmente bandas de rock regionais, tanto da Argentina quanto do Paraguai e Brasil. Porém, de tempos em tempos bandas consagradas aparecem por lá onde realizam pequenos shows, como é o caso do Camisa de Vênus, que esteve no La Barranca em fevereiro. Ao mesmo tempo, artistas brasileiros que se apresentam em Foz do Iguaçu muitas vezes também são vistos circulando pelo bar, onde até chegam a dar uma palhinha com as pequenas bandas que estão se apresentando, como é o caso do cantor Chorão, do Charlie Brown Jr, que também já foi visto por lá. No entanto, nada parecido ou próximo do que foi a presença do White Stripes em Puerto Iguazu.
Já o La Reserva, palco da primeira apresentação do White Stripes na Argentina – que foi seguida de outro show em Buenos Aires no dia 28 de maio -, fica logo adiante do La Barranca, ao lado do marco argentino das Três Fronteiras. O La Reserva normalmente recebe um público diferente, voltado para a música disco. Com um espaço bastante restrito, os donos da casa não tiveram outra opção a não ser improvisar um palco externo para a apresentação dos irmãos White. E o bacana é que a improvisação ficou melhor do que muitas casas de shows renomadas que existem por aí.
No bosque aos fundo do La Reserva foram levantadas duas lonas de caminhão que protegeram público e músicos do frio. O palco, de madeira, tinha cerca de 7m x 3m, o suficiente para abrigar os amplificadores pintados de vermelho, o limitado sistema de luzes vermelhas e brancas, um teclado, a pequena bateria de Meg, e ainda para dar espaço às performances inspiradas de Jack White durante seus solos alucinados que ele não fez questão de economizar. Já o público ficava bem próximo dos músicos, separados apenas por uma pequena grade. Enfim, cenário perfeito e som impecável para receber um dos nomes mais importantes do rock feito nos anos "00".
E foi assim que pontualmente às 21h00 Meg e Jack White - que se tivesse uma espada na mão ao invés da guitarra seria facilmente confundido com o Zorro, graças ao seu novo visual - subiram ao palco para cerca de 1h20min de show e pouco mais de 20 músicas. Quem esperava um número grande de canções novas, já que no início de junho o White Stripes está lançando o seu novo disco "Get Behind Me Satan", teve que se contentar com o single "Blue Orchid" e outras duas inéditas. No repertório, basicamente canções dos três primeiros álbuns "White Stripes", "De Stijl" e "White Blood Cells" e outras três canções de "Elephant": "The Hardest Button To Button", "I Don’t Know What To Do With Myself" – com o refrão cantado pelo público, o que arrancou um largo sorriso do vocalista e guitarrista, surpreso com a receptividade da música – e, óbvio, "Seven Nation Army", que fechou o set.
Teve ainda "Apple Blosson", "The Same Boy You’ve Always Know", "We’re Going To Be Friends", e "Lord, Send Me An Angel", só para citar algumas. Mas os melhores momentos foram mesmo com "Jolene" e "Little Bird" que foi emendada com "Death Letter", que rendeu o auge do show com o mais longo e barulhento solo de guitarra de toda a apresentação, muito bem escorado por Meg White, que atacava a sua bateria ora de forma feroz e ora da maneira mais meiga do mundo.
Encerrado o show, que foi devidamente filmado para a provável edição de um novo DVD sobre a tal turnê exótica, ficou fácil saber o porque do White Stripes ser um dos maiores nomes do rock atual. Rock simples e explosivo que, se no CD já é pra lá de bom, ao vivo e nas cores vermelho e branco é definitivamente genial. Não é hype não, nesses dois você pode botar fé.
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