Queensryche: Mike Stone está perfeitamente adaptado à banda

Resenha - Queensryche (Pratteln, Suíça, 14/06/2004)

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Por Thiago J Z Martins
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Como jamais o Queensryche se apresentou no Brasil como headliner – em São Paulo, nunca em local fechado –, o jeito era tentar pegar um show completo deles fora daqui. E uma segunda-feira na Suíça foi a data perfeita.

Pratteln não é uma cidade pequena; é um praticamente vilarejo. Se duas mil pessoas moram por lá, é muito. Então, qual o ponto de se fazer um show por lá? Resposta: a cidade tem uma localização central na Suíça, a 20 minutos de Basel, uma hora de Zurique e duas de Genebra. A esmagadora maioria dos que lá estiveram para conferir a banda americana vinha de fora – como o show devia acabar por volta de dez e meia da noite, havia tempo suficiente para os que não vieram de carro pegar o trem e voltar para casa.

O local em que ocorreu o show, o Z7, nada mais é que um galpão preparado para receber shows de rock e metal. A maioria dos shows do estilo na Suíça ocorre lá. A estrutura é muito boa, o som é perfeito. Talvez o único pormenor seja uma estrita segurança em relação ao volume; na parede, há um medidor que não permite que o barulho extrapole os 80dB. Digamos que é estranho sair de um show sem aquela sensação de ouvidos estourando, mas nada que comprometa a qualidade.

Sem banda de abertura – o ingresso dizia haver um convidado especial, que, em outras datas, era o Prospector –, o show, programado para começar às 20h, só se iniciou com uma hora de atraso, para desespero dos fãs suíços, acostumados com a tradicional pontualidade de seu país. Enquanto esperavam, um telão com vários dvds de hard rock oitentista tentava manter os ânimos exaltados.

A entrada do Queensryche no palco se deu com a faixa-título do seu mais recente trabalho de estúdio, "Tribe". É incrível como a banda sempre primou pela simplicidade – mesmo quando fazia turnês gigantescas, tudo sempre tinha um extremo bom gosto, nada espalhafatoso – e, mesmo assim, consegue resultados excepcionais. Conforme a música vai começando, cada membro vai entrando, um a um, e tocando sua respectiva parte. Primeiro Scott Rockenfeld, depois Eddie Jackson, Mike Stone, Michael Wilton e, finalmente, Geoff Tate.

Em seguida, "Sign of the Times" já começa direto no riff, sem a introdução normal da versão de estúdio. O público, ainda não desperto, começa a entrar mais no show, praticamente ficando mais presente em "Hit the Black". Todavia, é nas antigas que a galera resolve participar mesmo, e "NM156" emendada a "Screaming in Digital" já começam a gerar os primeiros coros dos suíços.

Mantendo a serenidade do início do show, "The Right Side of My Mind" veio em seguida. O público entrou no clima, mas nada de muita empolgação. Havia pouca interação entre público e banda, que se apresentava com a perfeição que dela sempre se esperou e se obteve. Então Geoff disse que algumas surpresas do passado aconteceriam naquela noite, e anunciou que agora tocariam algumas músicas do disco novo. "Open" e "Desert Dance" tiveram uma receptividade muito boa, mas ainda era pouco perto do que estava por vir.

Foi quando o vocalista explicou que a música seguinte era uma das primeiras que o grupo compôs junto. Michael Wilton se aproximou e os famosos primeiros versos de "Take Hold of the Flame" foram entoados em coro pelos quase mil suíços que lá estavam. No refrão, a empolgação foi contagiante. O sensacional solo foi tocado à perfeição por Wilton. De fato, daqui para frente, o show tomaria contornos diferenciados.

Feliz com a reação, Tate parabenizou os suíços por não se esquecerem da letra de uma música tão antiga. E os convidou para cantar com ele a próxima. Nada menos que o megahit "Silent Lucidity", contando com o violão de Michael Wilton e uma guitarra slide de Mike Stone, que tocaram o belo solo em dueto. O público não fez feio. Ao final, a parte de violão foi cortada e a galera, gritando extasiada, viu todas as luzes se apagarem.

Dos PA’s, a famosíssima introdução "I Remember Now" levou os suíços à loucura, recitando-a completamente (destaque para a frase "You Bastard!", ensurdecedora). Não, em seguida não veio "Anarchy-X", nem "Revolution Calling", o que certamente decepcionou o público. A banda retornou ao palco com uma introdução que lembra a usada nessa parte em Live Evolution.

"Operation:mindcrime", a música, veio na seqüência e o delírio tomou conta do público, principalmente quando, na ponte entre os versos e o refrão, nada menos que a Pamela Moore, a inesquecível Sister Mary, adentrou o palco e cantou essa parte. Já era um prenúncio de que a noite seria inesquecível.

Na seqüência, "Speak" pôs todos para pular e cantando. "Speak the Word... the word is all of us!" foi o coro da noite. A majestosa introdução de bateria era a deixa para que "Spreading the Disease" começasse e, mais uma vez, Pamela voltou ao palco e cantou a segunda estrofe da música, adaptando a letra para sua personagem na história.

Quando "The Mission" foi tocada, já não se sabia se todo o resto de Operation:mindcrime estava no set, mas se tinha uma idéia. Então, a mais do que esperada, então já previsível, "Suite Sister Mary" veio, para colocar lágrimas nos olhos daqueles que esperavam por mais de uma década para ouvi-la num show. Seus mais de dez minutos emocionaram a todos que acompanhavam a encenação montada por Tate e Moore.

Ao final dela, Geoff perguntou se o público queria mais. A resposta vem com "The Needle Lies" e pôs fogo nos suíços, cantando junto e pulando praticamente a música inteira. Detalhe: parecia que o vocalista aparecia com a famosa jaqueta de quando o disco era executado na íntegra durante a Building Empires tour; ledo engano: nas costas, uma foto de George W. Bush, com a legenda: "LIAR!". Infelizmente, a banda não tocou a vinheta "Electric Requiem". "Breaking the Silence" veio e, mais uma vez, o público extasiado não deixou Tate sozinho nas letras, inclusive assustando a banda na parte do break "Can’t look back... it’s just a waste of time".

Alguém acredita em amor? "I Don’t", foi o que Nikki diz. Sister Mary, sentada numa cadeira, cantou junto ao vocalista, como se passasse pelo seu julgamento. Já se tratava de uma montagem do disco, os vocalistas já tinham virando atores. O belíssimo dueto no solo, tocado à perfeição. Na seqüência, embora "Waiting for 22" e "My Empty Room" não tenham sido tocadas, "Eyes of a Stranger" obviamente não seria deixada de lado. Com um espelho em mãos, Geoff cantou toda desilusão de seu personagem. O primeiro solo, que vinha sendo esquecido desde a saída de Chris de Garmo, retornou com Mike Stone, como preparação para um dos mais belos duos de guitarra do metal. "Anarchy X" veio como final do disco, tal e qual em Operation:livecrime e assim se encerrou a primeira parte do show.

O bis ficou com a excepcional "Best I Can", que contou com uma excepcional participação do público e pôs fim ao show da banda americana após cerca de duas horas. O público ainda queria mais, é lógico. Mas, desta vez, "Empire", "Jet City Woman", "Revolution Calling", "Roads to Madness", "I Am I" e "Walk in the Shadows", entre outras, ficaram de lado. Conversando com a banda após o show, eles disseram que estavam variando o setlist sempre e deixaram de fora metade do set tocado no dia anterior, no Arrow Festival, na Holanda, excluindo as citadas músicas da apresentação suíça.

Analisando a performance da banda, pode-se dizer que Mike Stone está perfeitamente adaptado à banda, tocando com perfeição os solos de Chris de Garmo, além de, vez ou outra, colocar um pouco de sua própria personalidade nas músicas – como no fim de "Suite Sister Mary", em que inclui um solo bem melhor que o inventado por Kelly Gray.

Michael Wilton tem o posto de guitarrista principal e merece todos os méritos por isso. Assume a maioria dos solos consagrados por Chris de Garmo e os toca com toda a naturalidade. Eddie Jackson continua um monstro no baixo e nos backing vocals, praticamente completando todos os espaços vazios que as guitarras deixam. Quanto a Scott Rockenfeld, o que ainda pode ser dito dele? É um tremendo baterista, daqueles que preferem não complicar tanto, mas dar a batida perfeita ao momento perfeito. Tomara que nunca deixe de ser assim e mantenha sua qualidade nos shows.

Já Geoff Tate não está mais tão bem quanto já esteve. Os tons altos não vêm mais com a naturalidade de anos atrás, mas nem por isso ele deixou de ser um grande vocalista. Sua expressividade ao cantar e seu poder de interpretação ainda reinam soberanos no mundo do metal. Sabe como colocar sua voz com precisão como ninguém, além de ainda entregar os tons mais altos exatamente quando isto se espera dele. Enfim, se os anos lhe tiraram o alcance vocal, deu-lhe a experiência necessária para compensar a perda.

Como destaque, não podemos esquecer de Pamela Moore. Um pouco mais "cheia" do que nos vídeos Operation:livecrime e Live Evolution, a Sister Mary continua cantando como uma deusa e, nessa tour, participa muito mais do show, praticamente assumindo sua personagem nas letras de Operation:mindcrime, o que também deu um certo refresco a Geoff Tate.

Enfim, apesar das ausências de certo modo decepcionantes, não há nada mal do que se falar de um show como esses. A banda foi perfeita, surpreendeu todas com músicas que há muito estavam esquecidas do set. O único desapontamento é que minha viagem estava acabando e não pude aceitar o convite da banda para retornar à maravilhosa cidade de Budapeste e acompanhar o show no Summer Fest ao lado do Judas Priest. Fica para uma outra vez, quem sabe, aqui no Brasil...